Como atuar corretamente nesta mudança de época na qual estamos metidos? É aceitável, neste contexto indefinido e divagante, uma atitude sempre colorida e egoísta, que tem como único mérito o de não incomodar aqueles que não partilham idênticas convicções, ou será que o bom-senso nos manda encetarmos, em comum e sem medo, uma saudável peregrinação comunitária, descobrindo, em conjunto, o caminho de novidade que todos teremos de trilhar?

Qual o lucro, e para quem, de uma estendida desconfiança que hoje parece ter-se instalado em múltiplos meandros do nosso viver quotidiano, sobre tudo se discursando “com um pé atrás”? Porquê o escondimento ou a agressividade que reinam em vez da cordata – não necessariamente pacífica – discussão que até agora pontificava quando nos reuníamos, tanto no doméstico reduto como no habitual encontro mensal num restaurante da cidade?

Os cidadãos anónimos que somos, e que constituímos   a avassaladora maioria dos eleitores, o que é que pensamos disto tudo, dessa confusão “out there” (lembram-se da série norte-americana em que, antes de os polícias abandonarem o “Precinct” e saírem para a rua , o mais graduado lhes dava instruções precisas sobre as suas respetivas tarefas, e no fim, amigavelmente, lhes dizia: be careful out there! ) ?  O que é que os Partidos têm feito para serenar os espíritos, se alguma coisa?

É tempo de finalmente interiorizarmos essa dinâmica que sofremos, seja por inépcia ou por ligeireza, e, “passo a passo”, irmos tomando dela conhecimento e conta, com vista a transformá-la numa “coisa própria nossa”.

Nestes tempos de tantas especulações e medos em todos os quadrantes sócio-económico-securitários da vida em comunidade, estou em crer que “o charme discreto da burguesia” com que o cineasta Buñuel qualificou a maneira de viver de uma alargada burguesia-classe média, tem os seus dias contados: a indiferença ou mero alheamento, afinal sempre uma manifestação de desinteresse, já não parece ter lugar no hoje que vivemos: o cinéfilo acertou em cheio , porque precisamente soube entender e sintetizar uma realidade que então, nesses anos dourados do pós-Guerra, era por demais evidente.

Mas agora, verificando-se como que uma feérica corrosão de todos os dividendos adquiridos ao longo de décadas de progresso e bem-estar, é bem diferente o cenário. E a correspondente inclinação para um dominante ceticismo conduz a um quebrar – por vezes nem sequer dissimulado – das alianças, formais ou tácitas, que, tanto os países ocidentais como as suas populações, foram construindo desde os finais dos anos 40 do passado século : todos julgávamos que eram sólidas como as pedras dos monumentos, e que o mapa do futuro estava prévia e seguramente definido com vista a garantir a permanência – no meio de localizadas e efémeras dissensões –  de uma partilhada comunhão de valores e princípios que resistiriam aos desafios com que  viéssemos a ser confrontados.

Vivemos ainda, neste espaço continental, numa situação de claro privilégio em relação à esmagadora maioria dos países deste planeta, mas seria pura ingenuidade pensar-se que o raciocínio e a argumentação, que tão bem nos serviu neste recente passado, terá alguma validade e aceitação neste futuro tão diferente e híbrido que exigirá, sem surpresa, uma nova perspetiva. E uma ação coletiva comandada por uma descomplexada e corajosa elite   capaz de discernir e decidir, sem fantasias nem tentativas revisitadas de quaisquer”caudilhismos”, sobre o que nos cabe ambicionar.

Vistamos inteligentemente as nossa melhores vestes, que são as da humildade e da sobriedade: a nossa Europa pós-guerra fria veio a padecer do mal que outras geografias e regimes políticos também experimentaram: não soube evitar a tentação de se considerar, após a aparatosa queda do comunismo soviético, o modelo por excelência que todos os outros membros da comunidade internacional desejariam imitar. E deduziu que, a ela, bastaria viver dos seus louros.

Ora se efetivamente se verificou um aumento do número de democracias no planeta Terra, veio todavia  a constatar-se, após essa fase entusiástica de adesão e louvor, uma evolução no sentido inverso: acabou assim a festa que durou mais de meio milénio, e os que “deram novos mundos ao mundo” e que o transformaram de uma forma radical e hegemónica , vêem-se neste momento numa situação de luta pela sobrevivência, na luta por um lugar ao Sol, contra os ventos e marés que sopram oriundos simultaneamente de vários lugares e horizontes demográfico- económicos, que transportam consigo outras orgulhosas culturas e tradições até há pouco secundarizadas pelo poderoso Ocidente e a sua particular visão do mundo.

Em termos humanos, e para além do aspeto meramente quantitativo que aponta irreversivelmente para uma progressiva diminuição da população na rica Europa – com o efeito provável de uma sensível perda de estatuto e de dimensão crítica – há toda uma montanha de preconceitos e de hábitos que teremos de saber combater e superar: se não formos nós a fazê-lo, serão os nossos concorrentes e adversários a assumir gostosamente essa tarefa pedagógica de nos colocarem no lugar a que, agora, pertencemos.