A nossa tendência para esquecer as coisas mais negativas do passado e de lembrar as coisas boas é essencial a nos permitir continuar na nossa caminhada da vida e, por isso, fomos feitos, ou fomo-nos desenvolvendo, promovendo estas nossas capacidades, deixando-nos mais preparados para olharmos o futuro lembrando-nos do que foi bom e esquecendo aquilo que nos fez mal.

Hoje dizemos que estamos a mudar de época e que estamos a sair de um tempo caracterizado pela paz, que se seguiu à última guerra Mundial.

Mas, na verdade, aquilo que vivemos foi essencialmente um tempo de tensão constante e de perigo iminente a que nos habituámos a chamar de guerra fria em que a maioria da população europeia não sofria das mortes dos seus familiares, mas em que muitos foram sendo envolvidos em cenários de risco.

A crise de Cuba foi naquele tempo de uma enorme preocupação em termos do risco da paz mundial.

Por outro lado, no continente asiático foram acontecendo guerras de uma enorme violência com a intervenção de alguns dos países ocidentais e também em África se deram guerras de independência.

Na América Latina foram-se desenvolvendo situações políticas que, apesar de maioritariamente internas a cada país, foram em muitos casos de enorme violência.

A sensação de confiança nos líderes mundiais também foi sendo alterada com as diferentes opções tomadas.

E, nos Estados Unidos, desde o enorme entusiasmo registado mundialmente com a eleição de Kennedy, que dava a ideia de que se iria terminar com a guerra na Ásia, passando pela eleição de um Nixon, que manipulou informação para as eleições, com a eleição de um Carter, completamente impreparado para o cargo, e pela eleição de um actor, Reagan, que mais tarde se considerou ter sido um bom presidente, a escolha de um presidente nunca foi nem simples nem consensual.

É verdade que agora temos um presidente que nos deixa em tensão constante sobre todos os temas em que se envolve, mas temos que compreender que a comunicação que existia antes também nada tinha que ver com aquela que temos hoje no Mundo.

Se no tempo de Nixon ou de Kennedy existissem redes sociais, possivelmente o nível de preocupação teria atingido o mesmo valor que temos hoje com Donald Trump.

O problema é que todos os exemplos que dei eram parte do passado e de um conjunto de decisões de que conhecemos o resultado e, por isso, o nível de preocupação não é neste momento comparável e quando analisamos essas realidades elas já não são desconhecidas para todos nós.

Pelo contrário, as decisões com que hoje Trump nos confronta são quase todas desconhecidas no que respeita aos seus resultados e isso deixa-nos suspensos sobre aquilo que será o nosso futuro.

E também é verdade que em alguns outros momentos a escolha errada de decisões levou a situações de absoluto sofrimento mundial, que seguramente gostaríamos de garantir que não voltam a acontecer.

Contudo, e sem querer de modo algum desconsiderar os riscos de uma abordagem menos cuidada da política internacional e sem ter qualquer certeza de que haja um qualquer interesse mais económico por parte dos decisores da política mundial, acredito que devemos entender que o Mundo não é tão diferente daquilo que foi e que o risco que corremos hoje é, provavelmente semelhante ao que sempre corremos até aqui.

O desconhecimento em que nos mantinham antes das redes sociais pela maior facilidade de controlo da informação não é a segurança de que não nos poderiam fazer cair em situações de sofrimento e pode mesmo ser que esse maior acesso a uma informação mais descontrolada nos permita actuar mais sobre essas decisões.

Por tudo isto, neste Natal, vamos tentar acreditar que podemos usar as novas tecnologias e o acesso à informação para participar mais na nossa sociedade e tentar fazer melhor e para convencer este Mundo a fazer mais pela paz.