Diz-se, com propriedade bíblica, que antes da vinda do Senhor virá o Anticristo — figura  sombria, sedutora, que nega o Pai e o Filho, vindo não apenas para os contrariar, mas para  os substituir. A analogia é útil, quase providencial, para ilustrar o que sucede,  ciclicamente, em Portugal quando um governo entra em gestão: surge o “anti-governo”.  Não eleito, não escrutinado, mas amplamente audível, esse ente manifesta-se em  plenários, conferências de imprensa, megafones e rodinhas de imprensa junto a passagens  de nível. Mentira: ficam em casa. São os sindicatos — essa espécie de contra-poder  permanente, que se manifesta sobretudo quando há uma oportunidade eleitoral.

Ao contrário do que se poderia esperar de uma democracia madura, os sindicatos não se  colocam como parceiros sociais, mas antes como rivais institucionais do poder executivo.  Quando o país entra em campanha, os sindicatos entram em greve. E se o governo já não  governa, então alguém tem de o substituir. Quem? Os autoproclamados representantes da  moral laboral da nação.

Clamam, entre lágrimas de retórica e tabelas salariais enganosamente comparativas, por  aumentos. Aumentos esses que, curiosamente, muitas vezes colocariam os salários do  setor público acima dos do setor privado — esse parente pobre do regime que, no entanto,  sustenta o Estado com impostos. Não se contentam com negociar. Querem impor. E  impõem. Impõem greves longas, arrastadas, imprevisíveis. Impõem instabilidade aos  utentes dos serviços públicos — cidadãos que, na esmagadora maioria, ganham menos  do que os próprios grevistas e que, ironicamente, não têm direito à greve. Nem à  pontualidade

Veja-se o caso paradigmático da CP, a nossa locomotiva nacional da incerteza. Em  condições normais — seja lá o que isso for em Portugal — o cidadão já vive com a  angústia crónica de saber se o comboio partirá, chegará ou simplesmente existirá. Entre  composições avariadas, casas de banho em estado de sítio e horários que mais parecem  sugestões literárias, o utente português adaptou-se a viver na dúvida. Mas em períodos de  greve — que são frequentes, longos e quase sempre inexplicáveis — a dúvida transforma-se em certeza: não vai haver comboio.

É que, entre nós, o sindicalismo ferroviário parece seguir um calendário próprio, paralelo  ao gregoriano, onde cada mês corresponde a um turno de um dos catorze sindicatos do  setor. Alguns são conhecidos. Outros são misteriosos, como confrarias esotéricas, que  surgem apenas para marcar presença na “orgia da greve” — esse momento místico em  que todos cruzam os braços em simultâneo, não se sabe bem porquê, mas certamente  contra alguém.

E os tribunais arbitrais? Esses apêndices jurídicos do Estado de Direito? Limitam-se a  assistir, impotentes, ao desfile do poder sindical. Os serviços mínimos raramente são  decretados e, quando o são, pouco ou nada servem. Afinal, quem quer enfrentar o poder  de facto?

Porque é isso que está em causa. Já não estamos a falar de representantes laborais em  busca de justiça social. Estamos a falar de um grupo de influência que dita a agenda do  país. Quem decide quando o país pára, não é o Governo, nem a Assembleia da República.  São os sindicatos. Não prestam contas. Não são eleitos por sufrágio universal. Não têm um mandato popular. Mas têm um poder extraordinário: o poder de travar a vida de  milhões com uma assinatura numa convocatória de greve.

É um regime à parte, paralelo, que nos obriga a concluir, com uma ponta de resignação e  outra de ironia: em Portugal, quem governa não é quem é eleito. É quem sabe quando  parar.