A Igreja e outras instituições caíram numa armadilha. Corretamente perderam o papel e o lugar de Estado. Em certo sentido, elas próprias promoveram, dentro de si, o que hoje chamamos secularização e laicidade. Mas, progressivamente, acabaram a perder voz no espaço público. Convenceram-se – em alguns casos foram convencidas – que o melhor era recolherem-se ao adro da igreja e ficar a tomar conta do rebanho. Pisar o risco seria sinal de atrevimento inaceitável; de desrespeito pelo equilíbrio da sociedade.
Mas esta conclusão é errada e, com o tempo, tornou-se suicida. Se a Igreja já não é a “religião oficial”, se já não é o centro do mundo, daí não se segue que se retire para os claustros e para os ermitérios. Continua a ter direito de cidadania e de uma cidadania mais rica, porque partilhada. Seria estranho que alguém fosse convidado porque é padre, e em qualquer painel, tivesse um lugar de honra. Mas seria totalmente ilegítimo que se cancelasse alguém, pelo simples facto, de ser, ou não, religioso. Ao fim e ao cabo, se todos somos cidadãos, não há cidadãos de primeira ou de segunda. Parece óbvio. Ser anticlerical não é sinal de subtileza intelectual, é só discriminação.
No entanto, algo tem mudado. Depois de um tempo de ressaca face a um certo fim do catolicismo dos anos 60, inícios dos 70, que moldou até a consolidação da democracia em Portugal, e após um grande inverno onde parecia que a Igreja tinha perdido o mundo da cultura, existe algo a acontecer que pode vir a confirmar a alteração do paradigma. Lentamente, possivelmente desde o início do século, uma nova geração de teólogos começou a entrar no espaço público e, mesmo no reduzido mercado teológico português, onde a ausência do estudo de teologia em universidades públicas – ciências da religião é uma coisa diferente – é algo historicamente justificável, mas hodiernamente escandaloso e intelectualmente desonesto, iniciaram um novo modo de estar.
Num momento de inaceitável amiguismo, escrevo sobre este tema a propósito do lançamento do livro “Quem quiser ganhar, há de perder”, do Pe. José Frazão Correia, uma das figuras centrais desta geração. De todas elas, a mais conhecida será D. José Tolentino Mendonça, mas essa referência central é incompreensível sem referir o nome de D. Alexandre Palma, do Prof. João Duque, do Pe. Joaquim Félix, ou do Doutor Alfredo Teixeira. Num balanço entre as grandes referências e escolas europeias, e a sensibilidade lusófona, é a esta geração que devemos uma viragem coperniciana no modo de dialogar da Igreja.
Não se trata aqui de saber se a Igreja atende ou não o telefone a jornalistas, se tem melhores ou piores porta-vozes, mas de algo em certa medida inédito: de uma teologia que se pensa em português. Na verdade, esta é a geração que teve que responder, pela primeira vez, à pergunta: o que significa ser cristão, num mundo pós-cristãos. Inspirada por figuras portuguesas como o Pe. Manuel Antunes, Frei José Augusto Mourão, Frei Bento e Bernardo Domingues, Pe. Manuel Costa Santos e Pe. José Lima, D. Manuel Clemente, D. António Marto e D. António Couto, esta nova geração, nascida entre os anos 60 e os 70, marcou a emancipação definitiva do medo e a certeza de que “o mundo não precisa só de copistas, também precisa de tradutores”, numa atitude que fuja da defensiva ou do triunfalismo do passado; “não como ‘contracultura’ militante, mas como ‘outra-cultura’ que oferece novas possibilidades”.
É, neste contexto, que devemos perguntar porque existe uma ausência chocante da teologia no espaço público e mediático português – e não digo que no estrangeiro não seja igual. Salvo raras exceções, um teólogo – não necessariamente um padre – aparece tal qual os especialistas em monarquia, sempre que algo acontece na família real inglesa: como especialista em protocolo. Mas mais do que uma falta de representação, isso assinala um debate enviesado. Como Bento XVI e Francisco repetiram à exaustão e sobre diversos temas, nenhum problema se reduz a uma questão meramente técnica. É falso que uma pandemia se resolva ouvindo unicamente os médicos. É errado achar que a única resposta válida à crise climática é a difundida por especialistas ambientais. É negligente considerar que a crise na habitação é meramente uma ausência de casas, colmatada através de incentivos fiscais. Todos os desafios que enfrentamos são complexos e a entrega da sua resolução a tecnocratas deve-nos levar a desconfiar das intenções de quem o promove. A ideia da bondade e da imparcialidade dos “especialistas” deve merecer da nossa parte a maior das atenções. Mas, também, em favor da racionalidade, não podemos deixar de dizer que, a par de desafios técnicos, esses mesmos desafios desvendam ou escondem desafios filosóficos e espirituais que, raramente, são discutidos. E quando tal acontece, eles não desaparecem, voltam a surgir mais à frente, e, por vezes, de maneiras monstruosas.