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O braço equivocamente esticado de André Ventura tem muito mais que um significado, tem uma intenção. Enquanto a esquerda radical – e alguma moderada mas pouco sensata — grita que o fascismo está de volta, há uma direita extremada que grita que a extrema esquerda tomou conta do espaço público, da narrativa e do poder. Ambas as afirmações são falsas, mas úteis às duas partes. Se acreditarmos que o nosso mundo está ameaçado pelos radicais do lado de lá, todos os que estejam do lado de cá contam como aliados. E os mais aguerridos e virulentos parecem liderar a resistência. Dos dois lados. É por isso que Ventura estica vagamente o braço, o suficiente para criar a confusão sem se poder provar a acusação. Ventura não quer discutir, quer ser discutido. E que a guerra com a extrema-esquerda seja com ele. Não sendo original, é inteligente.

Há praticamente um ano, a 17 de Julho, Donald Trump foi à Carolina do Norte fazer um discurso atirando-se a quatro congressistas, todas mulheres e nenhuma branca. As acusações contra Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib, Ayanna Pressley e, sobretudo, Ilhan Omar, nascida na Somália, puseram a sala a gritar “mandem-nas de volta”. No dia seguinte foi cruxificado pela esquerda e pelos moderados. Era o que Trump queria. Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib, Ayanna Pressley e, sobretudo, Ilhan Omar não são apenas mulheres que não são brancas. São também vozes extremadas dentro do Partido Democrata. Aos olhos de quem o criticou, Trump foi racista, misógino e tudo o mais. Aos olhos dos seus indefectíveis, Trump tem razão no que disse, e é isso que conta. Aos olhos dos eleitores eventualmente indecisos, os que lhe importam, se a opção fosse entre Trump e uma daquelas vozes radicais do Partido Democrata, que representam um esquerdismo sem adesão na América, a decisão seria simples. É disso que os radicais precisam: inimigos óbvios e escolhas evidentes.

Quem vê o mundo como um combate entre dois lados mutuamente exclusivos, escolhe o que lhe está mais próximo. E afirma, às vezes sinceramente, que quem critica o seu lado é porque está com o outro.

Há nesta visão dicotómica uma verdade. Um radicalismo e outro são gémeos, são espelhos. Provocam-se e reflectem-se. Alimentam-se e justificam-se. É por isso que para quem é de direita e não tem qualquer hesitação sobre a democracia liberal fazer fronteira é fundamental. Tal como à esquerda. Coisa que os radicais não percebem porque sinceramente não acreditam que possa haver legitimidade para lá da divergência. Precisamente o que sustenta a democracia que nenhum dos extremos verdadeiramente aprecia.

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Em 2020, Donald Trump pode perder as eleições. (Pode.) Não por causa da ala radical do partido Democrata, do quase impeachment ou das críticas incessantes na comunicação social, mas porque governou mal. Porque um homem aos gritos com a realidade não é um líder em quem se possa confiar. E porque a alternativa democrata não é Ilhan Omar (nem Bernie Sanders).

Em 2020, na Europa, há uma oportunidade de reduzir os radicais ao espaço residual que deveriam ocupar. É uma questão de os moderados se aceitarem mutuamente e ocuparem o espaço.

A recuperação económica implica uma intervenção do Estado (nisso incluindo-se a União Europeia). Saber se ela é provisória ou permanente, de que forma o Estado deve entrar e sair das empresas privadas, se é preciso promover campeões europeus ou nacionais ou deixar o mercado funcionar livremente, são questões que separam ideologias tradicionais, muito mais do que os extremos que sobre estas matérias com frequência pensam coisas parecidas.

O papel do Estado na economia verde, na transição digital e na reindustrialização (ou resiliência industrial, como agora se diz) é matéria para alimentar a eterna divergência entre socialistas e liberais, conservadores e progressistas. Se ambas as partes aceitarem que a alternativa, ainda que indesejável, é igualmente legítima, o debate essencial far-se-á entre as doutrinas clássicas cujas diferenças fundaram e asseguraram as democracias ocidentais. Se deixarem que os verdadeiros fanáticos vão deslegitimando os moderados do outro lado, teremos uma Europa dividida entre extremos e partilhada por radicais. O que Trump queria que a América fosse. E os antifas também.