Por duas vezes em menos de meio século, em 1989 e em 2023, a vitória da oposição na Polónia ressoa na Europa como símbolo da resiliência do espírito da democracia liberal e da liberdade. Não é para menos. A Polónia não só é o maior país da Europa Central e de Leste e líder político da região, como ganhou o estatuto de país charneira entre o Ocidente e Oriente. Desde Fevereiro de 2022 que o seu papel na guerra da Ucrânia potenciou estes três aspetos, mas a regressão democrática que o país sofreu desde 2015 complicou a sua relação com os aliados europeus e norte americanos.

O partido de governo, o Lei e Justiça, beneficiou de um aliado de peso para ganhar e se manter no poder: a Igreja Católica. Paradoxalmente, a mesma igreja que tinha sustentado o movimento Solidariedade e o caminho para a democracia e para a Europa – de 1980 a 2004 – foi, a partir de 2015, cooptada pelo nacionalismo autocrático do partido dos gémeos Kaczynski. O Catolicismo polaco, dividido entre uma ala liberal e outra nacionalista, acabou por se tornar refém de um governo que lhe concedeu privilégios em troca do apoio.

A herança do Papa João Paulo II foi reclamada por liberais e nacionalistas. Os liberais ressaltavam a grande atividade política e doutrinária do Papa polaco a favor da democracia. Os nacionalistas enfatizavam o espírito patriótico de João Paulo para consolidar uma identidade política nacionalista, conservadora e autocrática. Esta aliança permitiu consolidar um regime que se proclamava dono da alma da nação para calar os seus inimigos, politizando os tribunais e os media.

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