A Hungria e a Polónia são um problema. Se quisermos ser uma União homogénea, forte e firme nos valores, Polónia e Hungria estão, pelo menos como estão, a mais. E se formos rigorosos, mais alguns países também. No Centro e Leste da Europa há cada vez mais sinais de que alguns regimes políticos não cumprem as regras que tiveram de cumprir à entrada. Se não teriam entrado, é razoável pensar que não deveriam permanecer. A questão, porém, pode ser outra. Estamos num tempo em mudança e numa realidade completamente diferente daquela em que a União Europeia (e as suas versões anteriores) nasceu. O que queremos com a UE? Criar uma unidade política firme e assente em princípios, ou ser também isso, mas sobretudo um actor geopolítico? E isso tem como consequência ceder nas exigências com os membros do clube, ou não?

Caroline de Gruyter é uma jornalista neerlandesa que publicou um livro onde tenta traçar as semelhanças que considera relevantes entre o Império Habsburgo e a Europa política contemporânea que conhecemos. O seu livro, Monde d’hier, monde de demain: un voyage à travers l’empire des Habsbourg et l’union européenne, pretende ter vários exemplos de como uma entidade e outra, o Império Habsburgo e a União Europeia, são casos exemplares de construção de uma estrutura política que acomode diferentes identidades nacionais sem as forçar mas, ao mesmo tempo, sem deixar de impor uma coerência global. A conclusão é discutível, mas não deixa de ser interessante. E de preocupar. Cerca de seis séculos terminaram abruptamente por causa de uma decisão que parecia inevitável e inconsequente. E, no entanto, era evitável e teve consequências absolutas. Desfez-se uma Europa, começou-se uma guerra catastrófica e preparou-se o caminho da guerra seguinte, igualmente catastrófica. E, para o que mais nos pode interessar, de um momento para o outro emergiram nacionalismos absolutos um pouco por toda a parte, fragmentando a Europa e alimentando rancores. Essa história, de resto, ainda hoje está presente na parte da União Europeia que fez parte do Império Habsburgo, primeiro, e da esfera de influência do Império Soviético, depois. Em muitos lugares da Europa Central e de Leste, as contas das consequências da Primeira Guerra Mundial ainda não estão resolvidas. E a memória do domínio soviético também não. Isso explica, em parte, as pulsões nacionalistas que por ali encontramos. A que se junta o medo da repetição. Décadas de submissão a poderes externos fazem facilmente crer que Bruxelas é a nova Moscovo e Von der Leyen uma espécie de reencarnação de Brejnev, a dar ordens de longe. Nada disto é verdade, como se imagina e sabe (pelo menos sabe quem olha para o processo de decisão europeu). Mas isso, não ser a verdade, nem sempre é o mais importante.

Há uma coisa que Caroline de Gruyter diz no seu livro, e que Timothy Garton Ash diz no seu, Homelands, que é semelhante e que nos ajuda a perceber o que se está a passar nessa Europa. De Gruyter refere que precisou de viver em Viena para se interessar pelos Habsburgos e compreender como os austríacos olham o resto da Europa. E acrescenta que cada um dos outros lugares onde viveu na Europa lhe ensinou o mesmo: é preciso conhecer a realidade local para a perceber.

Em Homelands, Garton Ash diz a certa altura que é preciso ter noção dos limites da integração (precisamente por causa da diferença de que fala De Gruyter). “Force-se demais a unidade, e a união forçada começa a desmoronar-se. Exercite-se demais a diversidade, e os europeus acabam a lutar entre si.” É este estranho ponto de equilíbrio que importa atingir. Para quem não defenda uma integração europeia para lá e apesar dos povos.

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O que estes dois livros contam, em especial nas passagens referidas, é que a diversidade é fundamental para justificar e para manter a Europa. Essa é uma boa lição que se esperava que os líderes europeus tivessem retirado do Brexit, mas que está longe de ser verdade. A outra lição que os últimos tempos têm ensinado, espera-se, é que, numa lógica geopolítica, a Europa precisa de ter aliados entre os vizinhos e não ganha em fazer inimigos entre os seus (eventualmente ex) membros. E, no entanto, isso não é necessariamente inevitável.

E é aqui que chegamos à Polónia e Hungria (para dar dois exemplos ostensivos). Uma União Europeia que queira ter peso e relevância globais precisa de ter cá dentro a Polónia, a Hungria, a Eslováquia e o que mais se encontre de recalcitrante aos valores e às regras europeias. Mas uma União que queira ter peso, ser relevante e mobilizar, precisa de ser minimamente coerente internamente. Sob pena de não ser coisa nenhuma e, consequentemente, não poder invocar nenhumas qualidades relevantes.

É no traçar deste cruzamento: respeito da diversidade, necessidade de valores partilhados e interesse em ter escala relevante, que voltamos ao ponto de partida. Castigar os países que decidem escolher estas versões deturpadas da democracia faz-nos sentido. Mas ignorar o quão importante é, sobretudo agora, que estejam cá dentro, é um erro que ninguém quer cometer intencionalmente. (Mesmo a Hungria, é preferível que esteja dentro a combater a unidade sobre a Ucrânia, do que esteja fora a ser um enclave mais livremente pró-russo no meio da Europa.) E, no entanto, é impossível ignorar o desalinhamento de alguns países com os princípios e valores europeus. E com as principais preocupações e urgências da União Europeia.

A melhor resposta a tudo isto passaria por manter os países dentro e as suas actuais lideranças políticas fora. Fazer (fazerem os partidos políticos europeus) o que outrora as fundações políticas alemãs, e não só, fizeram com a frágil democracia portuguesa: animar e apoiar as alternativas democráticas. Mas isso implica uma decisão política dos partidos europeus. Muito mais consequente do que castigos de Bruxelas. Mas, no limite, Bruxelas tem de castigar quem não cumpre as regras que teria de cumprir para entrar.