Recordo vagamente acordar ao fim de uma aula e ser admoestado de que me lembraria melhor das funções do hipocampo se fosse mais selectivo com os horários das minhas sestas. É sempre bom saber a que aula de universidade acabamos de assistir. Quem assim me exortou levemente, com um sorriso, foi a Dr. Eleanor A. Maguire, neurocientista Irlandesa, que acabava de dar uma aula sobre a memória declarativa e o envolvimento de uma estrutura cerebral chamada hipocampo na formação de memórias espaciais. Tragicamente Eleanor morreu no dia 4 de Janeiro passado, de cancro, com cinquenta e quatro anos. Gostava de brevemente realçar a sua contribuição para a neurociência cognitiva e a neuropsicologia. Não só aprendi e fui inspirado pelos seus estudos como partilhávamos o interesse pela astronomia e a arqueologia.
Tendo obtido o seu doutoramento na University College Dublin, os seus interesses científicos gravitavam à volta da neuropsicologia e a memória declarativa e espacial. Entre outros, Eleanor trabalhou com o prémio Nobel de 2014, John O’Keefe, que foi também o seu examinador de doutoramento. A sua carreira tornou-se célebre depois de conceber e levar a cabo um dos estudos mais bem conhecidos da neurociência do século XXI: “Navigation-related structural change in the hippocampi of taxi drivers” (Mudanças estruturais no hipocampo de taxistas relacionadas com a navegação) (publicado em 2000).
De gatos a tubarões, passando pelos geckos e as lamas, a escolha de modelo experimental na neurociência é fulcral para a melhor dissecação da matéria sob investigação: os tubarões podem ser usados para entender os mecanismos de desenvolvimento do córtex na fase inicial e como certos genes são conservados através do reino animal; a lula gigante foi usada nos anos 50 para melhor perceber os potenciais de ação dos neurónios e como estes dependiam dos canais iónicos de sódio e potássio, visto os axónios da lula gigante serem mais fáceis de manipular, devido a sua dimensão. O tamanho também conta. Polifemo, personagem na Odisseia de Homero que possuía apenas um olho gigante, seria um modelo delicioso para o estudo do sistema visual. Investigadores na Universidade de Edimburgo acompanham e estudam Joy Milne, uma senhora Escocesa que tem uma habilidade muito acima da média para detectar e discriminar todo o tipo de odores, incluindo a doença de Parkinson. Modelo interessante para melhor percebermos o sentido do olfato.
O hipocampo é a estrutura cerebral associada à memória e aprendizagem. Esta região, que se assemelha vagamente à forma de um cavalo marinho, é responsável pela representação espacial e de eventos particulares, a memória episódica. O córtex cerebral é depois necessário para armazenar memórias de longo termo. Eleanor e a sua equipa de investigação estavam interessados na seguinte questão: visto a hipótese ser que o hipocampo facilita a memória espacial, será que o tamanho do hipocampo aumenta com o uso, ao longo da vida? E que melhor modelo para estudar memória espacial que alguém que passe o dia a navegar pelas ruas de uma cidade grande, confusa e ruidosa? E assim surgiu a ideia de usar taxistas de Londres. Os taxistas londrinos atravessavam na altura um rigoroso programa de treino intitulado O Conhecimento (“The Knowledge”). Este requer a memorização de 25.000 ruas e milhares de marcos de interesse histórico e cívico culminando na obtenção de uma licença de operação de táxis mediante a realização com sucesso dos exigentes exames da Public Carriage Office. Pode levar entre dois a quatro anos para obter a licença. Outros prestadores de serviços de transporte poderiam aprender uma coisa ou duas com este programa.
Através de técnicas de ressonância magnética funcional (fMRI), o grupo de Eleanor descobriu o seguinte: os taxistas Londrinos apresentavam um hipocampo maior que os controlos (incluindo um grupo de profissionais médicos). E quanto mais longa a carreira, maior o hipocampo. O tempo de experiência a navegar pelas ruas londrinas parece correlacionar com o tamanho do hipocampo, mais especificamente o hipocampo posterior. Em 2006, outro estudo de Eleanor revelou que nem tudo são boas notícias e que pode haver um preço a pagar. Embora certas regiões do hipocampo aumentem, outras parecem diminuir (hipocampo anterior), onde a capacidade de adquirir nova informação visio-temporal parece reduzida em taxistas. Para um resumo alargado destes estudos aconselho o artigo de revisão por Woollett, Spiers & Maguire. 20 anos depois estas descobertas levaram a enormes avanços sobre contribuição do hipocampo para a memória, navegação e processos cognitivos.
Incansável na abertura de fronteiras na neurociência cognitiva, Eleanor tinha também grande talento para comunicar as suas ideias e as bases biológicas que despoletam as suas hipóteses científicas, através das suas aulas na universidade (Welcome Trust Center for Neuroimaging Institute of Neurology) e palestras públicas em várias instituições de renome como a Royal Institution. Em entrevista a Current Biology, Eleanor revelou humildade, onde em resposta à pergunta sobre o que teria contribuído mais para ter o sucesso na carreira que teve disse “para mim, e isto pode não ser muito útil para aspirantes a cientista, um dos elementos chave foi a sorte”. Nesta mesma entrevista desabafou também que “Como muitos outros, tenho pena de não saber mais matemática. No entanto, talvez deva ter cuidado com o que desejo, pois ao ter uma mente matemática poderia ter sido impedida de dar o ocasional salto de fé que torna os aspectos mais naturalísticos das minhas investigações tão entusiasmantes”. Uma declaração com a qual concordo e que deverá ser tida em conta por quem considere a possibilidade de seguir profissão na área das ciências biomédicas e neurociência. No estugar do passo do desbaste dos mistérios do cérebro e da memória, Eleanor foi e continuará a ser uma inspiração. Também ela se exasperava com o processo de revisão de manuscritos científicos (peer-review system). Nisso, somos todos Eleanor.
As memórias são muitas vezes frágeis e não tão fiáveis como poderemos pensar. Se calhar, Eleanor não sorriu quando me admoestou. Mas aceitemos uma leve dose de realismo mágico. O que é certo é que teve um impacto enorme e trouxe um elemento criativo idiossincrático à neurociência cognitiva e neuropsicologia. Grande fã do Rugby Irlandês, Eleanor certamente passou a linha de ensaio com alta nota artística. Outros nomes como António Damásio (consciência), Susan Greenfield (Alzheimer ‘s), Sean McKay (receptores de glutamato), David Price (desenvolvimento do córtex), Susana Louros (Fragile X Syndrome), e Zoltan Molnar (evolução do córtex) avançam as suas respectivas áreas de investigação neurocientífica. Mas hoje convido o leitor a ler o estudo de 2000 sobre o hipocampo e os taxistas (em tempos de satnav e Uber, este estudo talvez não fosse possível) . E quem sabe, pode ser que ganhe um interesse pelo hipocampo e a memória espacial. Eleanor iria gostar.