Depois de atacar o governo do seu partido nos tempos mais difíceis de que temos memória e atraiçoar candidaturas do PSD às eleições autárquicas, apoiando candidatos alternativos, Rui Rio preparou o seu caminho passeando-se pelo País, tentando minar o mandato de Pedro Passos Coelho. Acompanhado por alguns dos fiéis que, em muitos casos, já deixaram de o ser, abriu e encerrou convenções autárquicas várias, montadas exclusivamente para lhe dar palco. Passos Coelho nunca lhe apontou o dedo. Na verdade, há líderes e há os outros.

Quando a oportunidade surgiu apresentou-se a votos com boa parte do aparelho embalado por promessas, muitas delas impossíveis de cumprir, o que explica a debandada de muitos dos seus iniciais apoiantes. Rui Rio ganhou as eleições internas, mas não soube ganhar.

Desde o início do seu mandato mais não fez do que excluir, afunilar, hostilizar militantes do seu partido, convidando a sair quem pensava diferente, desprezando o seu grupo parlamentar. Foi aconselhado por muitos a unir, a fazer pontes, a aproveitar a energia de todos, num ano fundamental para a vida do PSD. Não ouviu ninguém.

Convencido de que é o detentor de toda a sabedoria, certamente resultante da sua experiência na câmara do Porto, e que invoca ad nauseam, foi ficando isolado e até alguns dos seus mais próximos, de que constitui o melhor exemplo Manuel Castro Almeida, se afastaram. Não aguentavam mais.

Gastou tempo precioso do seu mandato a poupar o governo do PS e a atirar aos “críticos”,  que diabolizou e foi responsabilizando por tudo o que lhe corria mal.

Sem estratégia que substituísse o legado que nunca defendeu e se apressou a rejeitar, obstinado em apagar pelo caminho todos os seus protagonistas, nada mais fez do que trazer o governo ao colo, deixando a oposição para os últimos dias do período eleitoral. Com a permanente aproximação ao PS e a António Costa durante um ano e meio confundiu e afastou boa parte do nosso eleitorado, que não será fácil de recuperar.

Observando a sua atitude chega-se à triste conclusão de que Rui Rio vive de ódios, confrontos e querelas que alimenta dentro do seu próprio partido. Permanentemente enfastiado, com uma impaciência mal disfarçada, a correr para o seu refúgio nortenho sempre que possível, não demostrou qualquer entusiasmo no exercício das suas funções.

Os ditos “críticos”, que muitas vezes só queriam mesmo que a direção de Rio reconhecesse que a política de exclusão estava errada, que o afunilamento do partido o iria empobrecer e que era preciso contar com todos para o ano eleitoral que aí vinha, respeitaram o período eleitoral e abstiveram-se de quaisquer comentários. Nem assim Rio os deixou em paz. Numa atitude nunca antes vista, fez das divergências internas tema de campanha eleitoral.

A intenção era óbvia. Era preciso avivar a memória de que existiam “críticos” porque a esses seria imputado o desaire eleitoral esperado.

E quando alguns se atreveram a corresponder a convites de candidatos e participaram em ações de campanha, foram qualificados de hipócritas. Rio precisa de detestar militantes do seu próprio partido para se alimentar do rancor que lhes dedica.

Mas o que esta atitude indicia não é apenas esta sede de confronto que parece ser a única coisa que o anima. É pior. O que esta atitude demonstra é que Rio se considera dono do partido. Com Rio não há pluralismo, não há liberdade, não há grandeza no PSD. Há um partido maneirinho e homogéneo, ideologicamente depurado, dominado pelos acólitos do presidente, que com ele aprovaram a regra da votação de braço no ar, à boa maneira totalitarista.

E se dúvidas houvesse sobre a natureza autoritária e a prática ditatorial do seu mandato, elas dissiparam-se ao vermos Rio, à moda da CDU, tentar transformar uma derrota numa vitória. Num discurso irado, jocoso, acompanhado do sorriso plastificado imprescindível à simulação da vitória que não existia mostrou que, não sendo capaz de ganhar, também não sabe perder.

Tivesse Rui Rio ouvido os militantes e trabalhado para unir o partido, tivesse aproveitado a boa vontade de muitos, tivesse agregado o nosso eleitorado em vez de andar a namoriscar vergonhosamente o PS,  e António Costa não estaria hoje na confortável posição de ter ganho as eleições e  ter, agora sim, toda a legitimidade para governar, permitindo-se o luxo de escolher, a cada dia, o parceiro a quem pedir que se abstenha para tudo aprovar.

Tivesse Rui Rio ouvido os militantes que com tempo o avisaram e o PSD não teria hoje um grupo parlamentar com menos vinte e nove deputados do que o PS, um partido derrotado em catorze distritos do País, com uma única mancha laranja (Leiria) em todo o litoral e sem um único deputado entre Setúbal e Faro. E não tivessem muitos fechado os olhos para votar PSD, apesar de Rio, e outros tantos desviado o apoio no CDS, votando útil, pior teria sido.

Em dezembro de 2015, pouco depois da vitória eleitoral da coligação liderada pelo PSD, Rui Rio defendeu que Pedro Passos Coelho deveria sair e afirmou que um novo líder para o PSD facilitaria a vitória nas próximas eleições. E agora, que houve eleições e perdeu? O que dirá Rui Rio?

Diga o que disser, uma coisa é hoje clara: Rui Rio não gosta do PSD. Havemos de lhe sobreviver.