Os dias que vivemos são tempos de risco agravado para os direitos humanos em diversas regiões do mundo. Os extremismos alastraram, desenvolvendo-se mesmo no espaço europeu, que muitos ingenuamente pensavam estar a salvo da sua ação devastadora.

Os especialistas em segurança alertavam há anos para o crescimento na Europa de verdadeiras incubadoras de jovens radicais, que circulam entre as regiões dominadas pelo dito estado islâmico, designadamente o Iraque e a Síria, e os países europeus onde residem, e onde recrutam novos elementos. Tudo isto se passou bem à nossa frente, em países nossos parceiros, observando-se em alguns casos – de que Bélgica poderá ser um bom exemplo – uma estranha coabitação, com um odor a paz pobre, entre quem supostamente controlava estes movimentos, e quem deveria ser controlado.

O radicalismo islâmico espalha o terror. Arrasa património mundial da humanidade, trafica obras de arte de valor incalculável, pilhadas na maior selvajaria, e deixa, por onde passa, um rasto largo de vítimas. O dito estado islâmico conseguiu colocar no grau zero os direitos humanos de todas as pessoas, mas relativamente às mulheres e às crianças a sua ação ultrapassa toda a barbárie que o mundo conhecia até hoje.

As mulheres e meninas são raptadas, violadas, transformadas em escravas sexuais. São retiradas da escola, porque a brutalidade não ignora que a educação é o caminho para a liberdade. São leiloadas e trocadas por cigarros, dominadas pela violência sexual para mostrar ao mundo que nada valem. A violência sexual extrema é usada como uma mera estratégia de guerra.

E o mundo assiste impotente a esta barbárie. Quem sabe hoje exatamente onde estão as meninas raptadas pelo Boko Haram? Quem sabe hoje quantas foram mortas, quantas estão ainda escravizadas, quantas, poucas, conseguiram escapar? Quem verdadeiramente sabe quantas meninas e mulheres foram sujeitas à tortura da mutilação genital feminina? Quem pode responder quantas mulheres cristãs foram mutiladas sob ameaça de morte?

Alguns países, redutos resistentes de uma desigualdade absoluta entre mulheres e homens, como a Arábia Saudita, dão agora tímidos, mas históricos passos para o reconhecimento dos direitos absolutamente básicos das mulheres, como recentemente aconteceu com as eleições de 12 de dezembro. Note-se, que em 2015, todo esse processo foi altamente discriminatório para as mulheres que, enquanto candidatas, não puderam sequer dar a cara nos cartazes das suas campanhas. Com muito esforço das ativistas dos direitos humanos, e bastante marketing do poder masculino absoluto que se vive naquelas paragens, lá se vão assinalando pequenas conquistas para as mulheres sauditas num país que mantem das mais aberrantes formas de desigualdade que se podem observar no mundo.

Noutras nações as esperadas primaveras resultaram em invernos de desilusão para todos, e ainda mais para as mulheres que estão a ser sujeitas a retrocessos impensáveis em direitos que davam já como seguros.

Mas nada disto se compara, por mau que seja, à barbárie que o estado islâmico espalha pelos territórios que domina, perante a total impotência das organizações internacionais que se multiplicam em virtuosos comunicados, mas em insuficientes ações.

As Nações Unidas aprovam resoluções há muitos anos sobre os impactos mais negativos dos conflitos armados sobre as mulheres, meninas e raparigas. Os Estados, como de resto fez Portugal, seguindo a recomendação das Nações Unidas, vão aprovando Planos Nacionais de Ação sobre Mulheres Paz e Segurança e preocupam-se em monitorizar o acesso das mulheres em condições de igualdade às forças armadas, forças de segurança, garantindo o envolvimento de mulheres em missões internacionais, reconhecidas que estão as vantagens dessa participação. São os militares que ajudam as mulheres de regiões como o Afeganistão ou o Iraque de quem os militares homens não conseguem sequer aproximar-se.

O mundo caminha com uma lentidão que impacienta e inquieta, mas caminha, a pequenos passos, nesta luta diária pela igualdade. Mas nada disto verdadeiramente conta, nada disto realmente nos conforta, quando a brutalidade se instala e arrasa, em tão escasso tempo, a esperança de um mundo de respeito pelos direitos humanos das mulheres.

E a reconstrução dessa esperança não será fácil. Ela hoje depende da derrota real e definitiva daqueles que impuseram uma ordem de terror, daqueles que arrasaram com a história milenar das nações, daqueles que nos pretendem roubar a liberdade de viver como queremos na europa e no mundo, daqueles que reduziram os direitos humanos a pó, e as mulheres a mercadoria barata. A reconstrução dessa esperança depende da eficácia de uma luta, que longe de estar ganha, é a da civilização contra a barbárie.

Deputada do PSD eleita pelo circulo de Leiria