O coração do pensamento ocidental é como um daqueles trípticos devocionais de Hieronymus Bosch cujo conjunto é renovadamente dedicado às ideias capitais do verdadeiro, do bom e do belo. A ideia do verdadeiro escoltando a nossa busca cognitiva (interior e exterior), a ideia do bom norteando a nossa oscilação ética (privada e pública) e a ideia do belo inspirando a nossa vocação estética (natural e artística).

Farrapos de osso, oxigénio e carbono a boiar à toa num mundo desprovido de sentido oculto, escapulimo-nos de uma condenação irremissível ao absurdo agarrados à entrançada corda de salvação destas três ideias: sem o verdadeiro, jamais teríamos imaginado que o espaço-tempo pode ser deformado como um colchão ou que o ADN tem hélices como as videiras; sem o bom, jamais teríamos desvendado que todos os seres humanos nascem iguais em dignidade ou que a vida humana é sagrada e inviolável; sem o belo, jamais teríamos chorado diante um rosto de Rembrandt ou de rosáceas de catedral — ou do adagietto da quinta de Mahler.

E sendo o verdadeiro, o bom e o belo o tripé em que assenta, e se conserva, o edifício da civilização ocidental, poucos se dedicaram tanto e tão inabalavelmente à sua defesa como Roger Scruton, infatigável no seu aviso de que «viramos as costas à beleza» quando nos esquecemos da importância de conservar: «O conservadorismo é sobre conservar as coisas: (…) as coisas boas que admiramos e valorizamos, e que, se não cuidarmos delas, podemos perder». O conservadorismo, ismo de reputação questionável em tempos de ismos que não admitem questionamento, corresponde essencialmente ao «sentimento de que as coisas boas são facilmente destruídas, mas não facilmente criadas».

O conservadorismo de Scruton, no entanto – tão intempestivamente límpido para gostos contemporâneos tão inclinados para «yet another bundle of facetious ephemera» –, não deve ser confundido com os espantalhos reaccionários apressadamente amarrotados e amontoados pelos seus estridentes detractores. Conservar não é paralisar: é impedir a deterioração. Ninguém conserva senão aquilo em cuja perpetuação acredita. Conservar é combater a própria morte. Ninguém se dispõe a morrer senão por algo que sobreviva ao seu próprio cadáver. Conservar não é canonizar o passado: conservar é apostar no futuro. Não é por acaso que os milenares Dez Mandamentos estão conjugados no futuro: «Não matarás». Não se conserva para o passado: conserva-se para o futuro. Não conservo o habeas corpus ou a Pietà ou as suites para violoncelo de Bach porque um dia foram objecto de fruição dos meus avós, mas para que um dia sejam objecto de fruição dos meus netos. E dos netos dos meus netos. Conservar é doar: é doar a vida por doer a morte: só se conserva o que é do outro que já morreu para o outro que ainda não nasceu. O conservador – isto é, cada um de nós – é a ponte do ser entre dois nadas.

E o aço, paradoxalmente impalpável, dessa ponte do ser entre dois nadas que somos é aquilo a que Scruton chama civilização: «É certamente uma forma de conexão entre as pessoas, não apenas uma maneira pela qual as pessoas entendem as suas línguas, os seus costumes, as suas formas de comportamento, mas também a maneira pela qual elas se conectam umas às outras, olho no olho, face a face, na vida quotidiana que compartilham.» E as principais características da civilização ocidental, cuja herança tem sido futilmente desbaratada nos raros momentos em que não está a ser ferozmente atacada, são, segundo Scruton, a abrangência, a universalidade, a generosidade. Numa palavra: o dar(-se).

Por causa da reverência que a modernidade presta aos «tolos, impostores e incendiários» que têm entolecido, imposturado e incendiado a civilização ocidental, na qual não vêem senão uma longa marcha (neo, paleo e provavelmente não-binária) colonialista, padecemos de um grave equívoco quanto àquilo que na verdade constitui uma civilização. Uma civilização não é uma «estrutura» (palavra sempre em voga): uma civilização é, antes de tudo, símbolo. Etimologicamente, symbolon é uma palavra grega formada por syn-, «junto», + ballein, «atirar, lançar», sugerindo portanto algo que junta ou une, algo que atira para a junção, a união, o encontro. A curiosa antítese etimológica de symbolon é diabolos: o diabo ou o diabólico é aquilo que atira para a separação, para a alienação – para o ódio. Diabólico é, portanto, tudo aquilo que nos separa uns dos outros. Mesmo nos ecos de uma língua morta é possível ainda aos vivos escutarem aquilo que nunca deixou de falar deles. A civilização é símbolo, é aquilo que nos une. A dicotomia entre ter e ser é, pois, pífia. A civilização só é algo que temos porque é, antes disso, aquilo que somos. A pergunta, diz Scruton, é inevitável: «se não percebemos o que somos, como podemos defender o que temos?». A civilização é um livro que escreve os seus leitores, carregando-os debaixo dos braços que o carregam. A civilização é aquilo que conserva os seus conservadores.

A civilização ocidental parece caminhar em direcção à decadência, ao ocaso, ao abismo, atraída pelo chinfrim dos flautistas niilistas da sua própria etimologia: o Ocidente, confessa o étimo, é a terra onde o sol se põe. Scruton, o ocidental, já se pôs. E, com a sua deposição, também o sol, no Ocidente, se pôs mais um pouco e se pôs mais fundo. Está de facto mais escuro o céu desde 12 de Janeiro de 2020. Mas apesar de, com a descida à terra de Scruton, ter ficado mais escuro na terra onde o sol se põe, a hora, embora triste, não pode ser de desânimo. Porque a luminosa lição de Scruton – «why beauty matters?» – autoriza-nos a imaginar que, no momento em que escureceu na terra onde o sol se põe, o filósofo já saudoso soube respirar fundo, abrir os olhos uma última vez e dizer: «Que belo se põe o sol».