Ser santo, na cultura popular e moderna, é meramente a característica daquele que é perfeito em toda a sua existência, que não tem qualquer mancha de erro, que tem uma espécie de super poderes, é alguém diferente dos outros. Contudo, quem começa a estudar a História da Igreja com alguma profundidade, rapidamente se apercebe que isto não poderia estar mais errado.

Olhando para os Doze Apóstolos e para Paulo, retirando a fé destes homens em Cristo Ressuscitado, o que observamos é a normalidade destes homens. Um vai trair o Senhor; outro negará três vezes; os outros, com a excepção de João, irão abandonar Jesus na Cruz; Paulo irá matar, perseguir e torturar cristãos, até à sua conversão; Todos estes homens, apesar de conviverem diariamente com Jesus, comerem com Ele, aprenderem de perto todos os seus ensinamentos, chegando a ser privilegiados na explicação de certas parábolas (Mc 4:10-11; Mt 13:10-11). Estes só reconheceram verdadeiramente o valor do Senhor e de tudo aquilo que tinham visto, quando viram o Senhor Ressuscitado. Só nesse momento, realmente, compreenderam a dimensão da sua missão: pregar o Evangelho de Cristo, «Porque Deus amou tanto o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigénito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3:16). Veja como Pedro por exemplo, de negador do Senhor, vem a tornar-se “Rocha” sobre a qual o Senhor edifica a Sua Igreja Viva; Paulo, de perseguidor, torna-se perseguido e vai ter uma missão importantíssima para a conversão do mundo pagão.

Arrependeram-se, pediram perdão e sairam a anunciar o Evangelho pelo mundo, prontos para sofrer aquilo que o Mestre tinha sofrido. Sabiam a dimensão da sua missão evangelizadora. Cada um, viria a sofrer o martírio, ficando felizes e alegres por receber o martírio por causa do Nome de Jesus, tal como Este os avisara.

Ser santo é isto mesmo: cair, mas voltar sempre a levantar-se; errar, mas pedir perdão; não procurar a sua própria graneza, mas a de Cristo e a dos irmãos. Que ganharam estes homens com isto tudo, pergunta o caro leitor? Pois bem, ganharam tudo: a Eternidade, ganharam a Comunhão com Cristo, com o Amor Eterno, com a Própria Vida. Aos olhos do mundo, não ganharam nada, aos olhos de Deus, tudo. A incredulidade que vemos nos relatos dos mártires faz-nos perder o verdadeiro sentido do martírio. Perdemos de vista o Céu e a Comunhão com Deus e apenas observamos dor, miséria, tristeza e morte. Pergunto: quem não daria a vida por alguém que ama? Acaso uma mãe não seria capaz de se anular completamente pelo amor que tem a um filho? Foi isso que estes homens e mulheres fizeram ao longo de mais de 2000 anos de História da Igreja (claro, se contarmos com o Antigo Testamento e os “santos” desse tempo, ascendemos rapidamente para mais uns milhares de anos).

Uma sociedade que não conheceu o Amor, também não irá entender Deus. Como pode um filho sentir-se amado se não vê esse mesmo amor entre os pais ou entre os seus próximos, se apenas vê discórdia, manipulação, ira, mentiras e agressões físicas… A sociedade entregou-se às suas paixões mais primitivas. A embriaguez tornou-se estatuto entre jovens e a nudez já nem sequer é um sinal de pureza, beleza ou pudor, mas antes de controlo, poder, fama e dinheiro. Através de Cristo, fonte de água viva, não voltamos a sentir sede, pois através da Sua Graça, encontramos a Verdadeira liberdade e a verdadeira felicidade, que não residem na busca do prazer momentâneo, mas antes da entrega fiel a Deus. O reflexo de um mundo sem Deus, um mundo em que perdemos o sentido de viver e vamos alimentando falsas esperanças vãs. Nietzsche afirmou que Deus estaria morto e que a sociedade era culpada. Jean Paul Sartre, compreendia que não existindo um Bem Supremo, uma Moralidade Universal e Objectiva, tudo seria permitido e que cada indivíduo teria que se esforçar para encontrar os seus próprios valores morais e éticos. Aquilo que observamos é que no próprio ateísmo literário e filosófico, o desejo de bem é uma condição natural do ser humano. A compreensão da má-fé não é meramente subjectiva, nem o vazio que se sente pode ser ignorado.

Hoje, no dia da morte do Santo Padre, Sua Eminência Reverendíssima o Papa Francisco, recordo a sua exortação apostólica que convidava a este chamamento universal à Santidade, Gaudete et Exsultate, em que dizia «(O Senhor) Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. Com efeito, a chamada à santidade está patente, de várias maneiras, desde as primeiras páginas da Bíblia; a Abraão, o Senhor propô-la nestes termos: «anda na minha presença e sê perfeito» (Gn 17, 1)». Como o próprio Papa nos ensinou, a santidade é um caminho para todos, onde cada um de nós, é chamado individualmente  a ser luz no mundo e a caminhar com o Senhor. Recordemos para sempre a sua vida e o seu pontificado e peçamos a Deus pelo seu descanso eterno.