No passado dia 18 de Fevereiro do ano da Graça de 2026, os Católicos em todo o mundo, celebraram a Quarta-Feira de Cinzas, iniciando assim a Quaresma, com a piedosa tradição da imposição das Cinzas.
Este gesto muito antigo relembra-nos da nossa condição humana: «Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter» (Gn 3, 19). O grande embaixador da língua portuguesa e fervoroso jesuíta, Padre António Vieira, sintetizou esta questão na sua homilia proclamada no final do séc XVII na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma: «O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança».
Assim, solenemente, começámos a nossa preparação até à Páscoa, intensificando o momento de penitência, através da tríplice fórmula clássica propagada pela Santa Igreja: jejum, esmola e oração.
Sendo este um dos momentos da mais excelsa importância ao longo do ano litúrgico, notaria, e bem, o atento leitor, quando repara uma certa ausência por parte dos media em relatar determinado acontecimento. Algo também não seria de estranhar, pois estes apresentam-se constantemente sob o véu de uma pseudo-laicidade ou de uma falsa aparência de religião meramente cultural.
Perante este ruidoso silêncio dos media face a este momento tão importante da vida espiritual dos fiéis, a pergunta que nos deveremos colocar, não deixa de recordar a própria perplexidade da pergunta que Pilatos faz a Cristo: «O que é a Verdade?» (Jo 18,38). Quero salientar exatamente que o principal problema desta tamanha omissão reside nesta pequena, mas complexa, pergunta.
À primeira vista, parece uma pergunta demasiado abstracta, sem uma resposta rápida e clara, o que também só acaba por revelar o próprio tempo em que vivemos onde parece imperar a dúvida, a mentira, a falsidade, o conflicto… O Homem sem esperança, que não vê além do seu próprio umbigo e do mal presente, realmente passa uma tremenda dificuldade perante tudo isto. Não conseguindo apresentar respostas, acaba por cair em desespero.
Para um cristão, a Verdade é o próprio Cristo. Não é um algo, mas um Alguém. Cristo é a correspondência perfeita entre aquilo que se proclama e a realidade, Ele próprio o afirma quando diz: «Eu Sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). Deus é realmente o único que “É” (YHWH, “Sou Aquele que Sou”, (Ex. 3,14)). Ele é a Sabedoria Encarnada, sabedoria que governa toda a ordem da criação e governo do mundo. Por isso, no Credo, dizemos que Cristo é «Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro». Só Cristo pode ser o único caminho capaz de aquietar todos os nossos anseios. Santo Agostinho sintetizou isso mesmo nas suas Confissões: «Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.».
Vemos a total ausência de qualquer notícia face ao início da Quaresma, muito menos assistimos a um discurso institucional por parte de um líder internacional a saudar o início deste tempo. Pelo contrário, António Guterres, saudou o início do Ramadão muçulmano, provavelmente igualmente importante na cabeça do Sr. Guterres… Também os canais generalistas portugueses consideraram mais relevante abordar o início do Ano Novo Chinês, e como viver melhor este Ano do Cavalo de Fogo.
Tudo isto serve para contrastar o ambiente de fervor religioso que se viveu nas várias Igrejas de Lisboa, a realidade com a qual tenho contacto. Alegremente, os fiéis, reconhecendo a sua condição de pecadores, de uma vida terrena efémera e a necessidade de conversão, com as suas cruzes de cinza na testa, com um jeito exterior mais rigoroso, acabaram por encher as ruas da Baixa de Lisboa, procurando dignificar Cristo Jesus que deu a Sua vida na cruz por todos nós.
Fomos feitos para muito mais, não nos enganemos, nem deixemos que nos afastem desse caminho de conversão. Os cristãos ainda existem e têm que recuperar de um sono profundo que já leva demasiados anos. Acordemos! Procuremos viver este tempo com disciplina, empenho e espírito de sacrifício.
Uma Santa Quaresma a todos vós!