31 de janeiro de 2020. Quando o Reino Unido saiu da União Europeia, o debate centrou-se sobretudo nas suas consequências políticas, económicas e diplomáticas. Menos evidente, mas igualmente relevante, foi o impacto dessa decisão na forma como viajamos. Seis anos depois, essa mudança existe, mesmo que nem sempre nos apercebamos dela. E reflete-se nos comportamentos: o Instituto Nacional de Estatística diz-nos que o peso do Reino Unido nas viagens internacionais dos portugueses diminuiu nos últimos anos, mesmo depois da retoma do turismo após a pandemia, que afetou todos os mercados.
O Reino Unido continua a ser um destino familiar para os portugueses. Londres, Manchester ou Edimburgo mantêm-se no imaginário coletivo como cidades próximas, acessíveis e culturalmente familiares. Essa perceção faz sentido: a língua, a história recente de mobilidade e os laços pessoais e profissionais mantêm-se fortes. O que mudou não foi o destino, foi o enquadramento em que essas viagens acontecem.
Antes do Brexit, viajar para o Reino Unido inseria-se, na prática, na lógica europeia de mobilidade. Apesar de nunca ter feito parte do espaço Schengen, o país beneficiava de um enquadramento comum que tornava as deslocações simples e previsíveis para os cidadãos da União Europeia. Bastava decidir, pegar no Cartão de Cidadão e partir. Esse modelo deixou de existir.
Hoje, viajar para o Reino Unido continua a ser simples, mas já não é automático. Desde 2021, deixou de ser possível entrar no país apenas com Cartão de Cidadão, sendo obrigatório passaporte. A partir de 2025, passou também a ser exigida uma autorização eletrónica de viagem para cidadãos europeus, o ETA. Nenhuma destas mudanças representa, por si só, uma dificuldade significativa. Mas todas simbolizam uma alteração clara: viajar implica hoje mais verificação prévia, mais atenção às regras e mais planeamento do que antes.
Esta transformação ajuda a explicar por que razão, nos últimos anos, os portugueses retomaram as viagens internacionais privilegiando sobretudo destinos dentro da União Europeia, onde a mobilidade continua praticamente sem fricção. O Reino Unido não desapareceu do mapa turístico, mas perdeu centralidade relativa. Esta alteração não deve ser encarada como um entrave, mas como um sinal dos tempos. Viajar em 2026 não é o mesmo que viajar em 2016. O mundo tornou-se mais complexo, as regras tornaram-se mais específicas e a responsabilidade individual no planeamento das viagens ganhou peso. O Brexit não criou esta tendência, mas tornou-a mais visível.
Um dos domínios em que essa mudança se torna mais concreta é o da saúde. Fora da União Europeia, deixam de se aplicar plenamente os mecanismos comunitários que durante anos garantiram aos viajantes europeus um acesso mais simples aos cuidados de saúde. Um problema médico inesperado pode traduzir-se em custos elevados, uma realidade que reforça a importância de integrar a proteção e o seguro no planeamento da viagem, algo que antes muitos davam por adquirido.
Nada disto significa que o Reino Unido seja hoje um destino menos atrativo ou mais arriscado. Significa apenas que deixou de existir aquela sensação de continuidade europeia que durante décadas simplificou a experiência de viajar. O Brexit não retirou liberdade aos viajantes, retirou-lhes a automaticidade.
Viajar continua a ser uma das experiências mais enriquecedoras que podemos ter. Mas viajar bem, hoje, exige mais informação, mais atenção ao contexto e mais consciência das regras que enquadram cada destino. Num mundo em mudança, planear deixou de ser um detalhe – passou a fazer parte da própria viagem.