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As críticas que tenho ouvido recentemente em Portugal, sobre as medidas tomadas por alguns governos para tentarem reduzir o fluxo de refugiados para o seu país, tornam bastante evidente o desconhecimento de partes importantes da realidade. Aqui deixo alguns apontamentos sobre mais alguns lados desta questão, a partir do que observo aqui em Berlim.

Todos os dias chegam à capital alemã centenas de refugiados. Os serviços estatais responsáveis pelos refugiados já estavam a trabalhar no limite das suas possibilidades antes de ter começado esta onda imparável de pessoas em terrível estado de necessidade. Centenas de pessoas diariamente, que é preciso registar, que é preciso controlar cuidadosamente (depois do 13 de Novembro em Paris foi imperativo aumentar as medidas de segurança; depois de Colónia acresceram as preocupações de identificar potenciais delinquentes misturados com o grupo), para as quais há que arranjar alojamento, comida, cuidados médicos (acrescidos para quem fez milhares de quilómetros em terríveis condições), e apoio psicológico (muitos estão profundamente traumatizados). É preciso arranjar tradutores de árabe.

Há um batalhão de voluntários a ajudar imenso. Alguns envolvem-se em disputas com os funcionários, há azedumes e críticas de parte a parte. Os media dão uma e outra vez notícias de situações de grande desumanidade, por falta de organização dos serviços. As queixas nos tribunais multiplicam-se, e são sempre casos de muita urgência (geralmente pessoas que esperam semanas e meses para se registarem, porque só depois disso recebem ajuda do Estado), o que significa que se atrasam ainda mais os casos de alemães à espera de uma decisão sobre apoios da Segurança Social.

Esta semana um voluntário inventou a morte de um refugiado de 24 anos em Berlim. As redes sociais incendiaram-se em desabafos muito emocionais e em críticas duríssimas aos serviços (“quantos mais terão de morrer até eles começarem a fazer o que devem?”, “mais valia acabar com o LaGeSo!”), até que se descobriu que era tudo mentira. Um ministro do governo regional berlinense criticou a chefe desse grupo de voluntários, e esta respondeu que se está nas tintas para a opinião do ministro.

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Na semana passada os media russos divulgaram o caso de uma menina russa de 13 anos, vítima de rapto e violação colectiva por refugiados em Berlim. Um escândalo, acusações gravíssimas de a polícia estar a encobrir o caso para proteger a fama dos refugiados – e afinal tinha sido tudo invenção. Possivelmente haverá um grupo de extrema-direita por trás deste incidente, com o intuito de aumentar o medo e o sentimento de insegurança. E não é caso único. Multiplicam-se as queixas de violações cometidas pelos refugiados, as redes sociais agitam-se (acusando os media de serem mentirosos, porque ocultam estas notícias assustadoras) e dias mais tarde a investigação policial revela que muitos desses casos são invenção. A polícia queixa-se: enquanto anda a investigar mentiras, perde tempo que era muito necessário para fazer o seu trabalho.

Os refugiados continuam a chegar, e são alojados em sítios inacreditáveis. Muitos deles escapam aos dormitórios colectivos e são acolhidos por famílias, o que deixa os apartamentos sobrelotados, os vizinhos e os senhorios inseguros e desconfiados. Quando pensámos disponibilizar o minúsculo apartamento do nosso filho, durante uma prolongada ausência sua, ouvimos muita gente dizer: “cuidado, não se metam nisso, ao fim de uma semana têm lá dez pessoas!”

Fala-se em cancelar eventos importantes para dar lugar aos refugiados. Ou então leva-se mil refugiados de um armazém para outro ainda pior, para não ter de cancelar uma feira internacional.

Há bandos mafiosos árabes a ganhar muito com a situação, e a envolver refugiados numa rede da qual dificilmente se poderão libertar. Há casos de refugiados que vendem o cartão que recebem quando chegam a Berlim, para terem acesso a comida e aos transportes públicos, e vão pedir um novo. Para evitar este tipo de burla, dá-se uma pulseira às pessoas, como nos hotéis “all inclusive”. O que cria um certo mal-estar. Pensa-se numa nova solução – cartões com um chip e a fotografia do portador. Decisões tomadas a toda a velocidade, sem tempo para pensar, porque o afluxo de refugiados não pára. Continuam a chegar às centenas, diariamente. Alguns imigrantes há muito instalados, e que ajudam a traduzir e a organizar, tentam usar esse poder de mediador para instalar na sua área de influência uma certa ordem islâmica. O que tem como consequência, entre outros, haver refugiados cristãos que escondem a todo o custo a sua religião, com medo de sofrerem represálias dos outros. Isto passa-se no coração de Berlim.

Os media tentam dar uma perspectiva equilibrada da realidade, e evitar ao máximo – sem prejuízo dos seus deveres de informação – alimentar a xenofobia, mas são acusados de serem parciais e até de mentirem. Confesso que me incomoda que só mostrem imagens de crianças e famílias para ilustrar notícias sobre os refugiados, quando todos sabemos que a maior parte dos refugiados são homens jovens. Muitas pessoas sentem-se mais que incomodadas – sentem-se amordaçadas, obrigadas a engolir os seus medos para não ficarem mal na fotografia. Na intimidade das famílias e dos amigos multiplicam-se os desabafos e os boatos: os professores que se sentem incapazes de disciplinar adolescentes que se recusam a ficar sossegados a trabalhar como os outros, ou que não respeitam a professora por ela ser uma mulher; os casos de abuso sexual de que nenhum jornal quer falar; o refugiado que defecou num jardim; os espertalhões que se portam como se tudo lhes fosse devido; etc.
Haverá com certeza entre um milhão de refugiados algum para quem é normal defecar num jardim, adolescentes (traumatizados?) que se portam mal na sala de aula, espertalhões que acham que podem tudo porque “foram convidados pela Frau Merkel”. Mas no espaço reservado das casas e das mesas de café estes casos isolados desenham o retrato robot do refugiado, e tudo o que os media possam fazer para o corrigir reforça a ideia de uma imprensa manipuladora e parcial.

Entretanto, as ruas da Berlim estão cada vez mais esburacadas, e em inúmeras escolas não há aulas de ginástica, porque os ginásios estão a servir de camaratas. Para dar apenas dois exemplos de problemas práticos. Isto, em Berlim – que nem é a cidade em situação mais difícil.

Noutras cidades já há grupos de cidadãos a fazer patrulhas nas ruas, porque sentem que a polícia é incapaz de responder a todas as necessidades. E há localidades onde de repente passou a haver mais refugiados que alemães.

O Estado de Direito está a chegar ao limite das suas capacidades, e os governos tentam responder adequadamente para que o país continue a funcionar em normalidade democrática. Entretanto a Áustria tenta ser apenas um corredor, a Alemanha sente-se aliviada por cada refugiado que resolve continuar caminho, a Dinamarca espera que eles sigam para a Suécia, a Suécia devolve-os à Dinamarca e insiste que é preciso respeitar Dublin.

O sentimento geral é de que estamos perante uma nova vaga de “invasões dos bárbaros” (em alemão diz-se Völkerwanderung, migração de povos – não tem o sentido pejorativo e ameaçador do português). Os alemães vêem o estado de necessidade das pessoas que aqui chegam e sentem que têm de ajudar, mas também estão apreensivos sobre o que isto possa significar de mudança nos hábitos e no nível de vida (nomeadamente as mulheres terem medo de andar na rua, ou uma redução drástica dos apoios sociais, nomeadamente os cuidados de saúde, devido a este enorme acréscimo de despesas). Apesar disso, continua a haver uma multidão de voluntários que sabem focar-se no essencial: ajudar estas pessoas, que precisam tanto. O país olha para os voluntários com gratidão. Em 2015 contaram-se cerca de 800 ataques contra os refugiados. Ninguém contou os gestos de acolhimento, mas são milhões.

Este domingo, mais de 80 instituições culturais berlinenses abrem as portas aos voluntários, oferecendo gratuitamente a entrada em museus e exposições, visitas guiadas, peças de teatro e concertos para os que ajudaram a acolher 70.000 refugiados em 2015. É a iniciativa “Berlin sagt Danke!“ (“Berlim agradece!“)
E na segunda-feira chegarão mais autocarros. E na terça, e na quarta, …

Ninguém sabe quantos milhões entrarão na Alemanha em 2016.

Helena Araújo é tradutora, autora do blogue Dois Dedos de Conversa e residente em Berlim