Nestas, como em muitas eleições, foram feitas inúmeras análises sobre os resultados e as leituras que estes permitem fazer sobre o desempenho dos partidos e das perspectivas que se lhes abrem.
E os resultados geraram, na maioria dos comentadores, a ideia de que se estabeleceu uma nova hegemonia de um domínio político do PSD na liderança das estruturas governativas do nosso país.
Contudo, e ao contrário dessa opinião, eu não acho que haja essa hegemonia, pois quem efectivamente ganhou estas eleições foi maioritariamente a AD e não o PSD.
Isto poderá parecer pouco relevante numa primeira análise deste tema, mas é muito mais relevante se atentarmos ao detalhe daquilo que foi efectivamente acontecendo nas várias eleições em que a presença do CDS foi realmente determinante para o ganho ou perda de cada autarquia.
Se atentarmos ao resultado da AD no Porto, uma das mais vividas contendas ao longo da noite eleitoral, sem a aliança com o CDS, a vitória teria sorrido ao rival socialista e não teria sido uma bandeira desta vitória da direita.
Se formos olhando várias das vitórias conseguidas em diferentes regiões, muitas vezes foi aquela aliança que fez toda a diferença na noite vitoriosa e festiva que vivemos no fim de semana passado.
Noutra perspectiva, casos houve também em que a exclusão da aliança da candidatura eleitoral acabou por resultar em derrota, e que teria sido mais uma vitória se a aliança tivesse sido a candidata, como foi evidente no caso de Viseu, entre outros.
Na verdade, e ao contrário daquilo que era a percepção generalizada de políticos e comunicação social, o CDS autárquico mostrou que é uma força real, que tem tração nos eleitores e que é uma realidade com que se tem que contar.
Ao conseguir crescer uma câmara às seis que já detinha, ao conseguir apresentar candidaturas em muitos dos círculos eleitorais, ao conseguir aumentar o número de mandatos autárquicos, com mais presidências de juntas de freguesia, o CDS mostrou que não só é a quarta força política no mapa autárquico, mas mostrou também que está num processo de regeneração que poucos acreditavam que poderia acontecer.
Ora, ainda que seja justo e fundamental reconhecer que foi o apoio do PSD que permitiu, numa primeira fase da tentativa de recuperação de um partido que, por culpa própria sofreu uma crise brutal em 2022, a verdade é que, neste momento, a sua participação na coligação está a ganhar um peso maior e poderá vir a ser uma componente mais forte da caminhada vitoriosa desta direita que hoje assume o poder em Portugal.
E é importante que esta realidade seja comunicada e apreendida por dois tipos de razões.
Em primeiro lugar pela relevância dos princípios e valores que a democracia cristã defende e preconiza que aportam a uma direita que é sempre forte na construção de uma economia, os valores sociais da distribuição e desenvolvimento inclusivo tão essencial a uma sociedade estruturada e promotora de uma qualidade de vida partilhada por todos os seus membros.
Por outro lado, o posicionamento de um CDS forte e que defende aqueles princípios e valores poderá e deverá ser uma excelente arma de captação para o projecto de uma aliança de direita, de muitos dos votos descontentes desta área política que não reconhecem ao PSD a defesa dos seus interesses e que se refugiaram em alternativas mais radicais, e que poderão ser essenciais para uma continuidade desejável na reconstrução de uma sociedade que garante uma vida decente e um respeito pelas instituições, destruído nas governações anteriores.
O CDS não será a alternativa à governação, mas é seguramente uma charneira fundamental para a reconstrução de todos os pilares que reforçam a estrutura da sociedade de que necessitamos para que este povo possa receber aquilo que tanto merece.