Não obstante as sondagens darem uma vitória ao candidato Jair Messias Bolsonaro na segunda volta das presidenciais brasileiras, o melhor é esperar pelos resultados finais. Nos últimos anos, as surpresas são numerosas.

Digo desde já que, se eu fosse brasileiro com direito a voto, eu não apoiaria nenhum dos candidatos, pois se algumas das declarações radicais de Bolsonaro me preocupam se forem levadas à prática, Fernando Haddad representa as forças políticas brasileiras que conduziram à grave situação em que o país se encontra.

Fiquei surpreendido com a quantidade de abaixo-assinados com os nomes de numerosas figuras conhecidas do mundo político e cultural português apelando aos brasileiros que não votem em Bolsonaro. Mas não me recordo de ter sido feito o mesmo quando Lula da Silva e Dilma Rousseff pilhavam o seu país. Talvez, no último caso, se tratasse de “uma ingerência num país irmão soberano”.

Tendo uma excelente oportunidade de conseguir fazer com que o Brasil desse um grande salto no campo social, económico e político, o Partido dos Trabalhadores e seus aliados roubaram, no sentido real e figurado, essa oportunidade. É verdade que milhões de brasileiros simples passaram a viver melhor, mas apenas foram migalhas que caíam das mesas fartas dos banquetes organizados por Lula da Silva e Dina Rousseff. Os pedaços mais suculentos foram parar aos bolsos de uma minoria corrupta.

Esta política levou a que milhões de brasileiros vejam em Bolsonaro não o candidato ideal para Presidente do país, mas um político capaz de, pelo menos, começar a reforma do sistema político do Brasil com vista à sua retirada do pântano da corrupção e do banditismo. Para muitos, é um grito e um voto de desespero. É verdade que isso não é o melhor conselheiro na hora da tomada de posição tão responsável, mas muitos irão arriscar.

Além do mais, ao escolher para candidata ao cargo de vice-presidente a comunista Manuela D’Ávila, Haddad perdeu o apoio de muitos indecisos e de parte da esquerda moderada. A Venezuela, país onde tem lugar mais uma experiência de cariz marxista-leninista, faz fronteira com o Brasil e certamente que os brasileiros não querem ver no seu país uma coisa semelhante. A Nicarágua também não fica muito longe.

Tendo em conta a radicalização extrema das forças políticas, o vencedor das eleições, seja Bolsonaro ou Haddad, terá de colocar como tarefa prioritária reduzir o espírito de ódio e confronto existente no país. Combater a corrupção e a criminalidade, mas não utilizar isso para perseguir ou liquidar, física e politicamente, adversários políticos. Caso contrário, poderemos até acabar por ver um dos mais terríveis cenários: a desintegração territorial do Brasil com consequências catastróficas.

Eu acredito no bom senso e na inteligência dos brasileiros e vamos torcer para que saiam com dignidade deste momento difícil. Por isso, não nos apressemos a tomar ilações precipitadas.