A Comissão Europeia divulgou ontem as previsões para a economia portuguesa para 2020. Uma queda de 9,8% do PIB. Na área do euro e na União Europeia, os valores são de 8,7% e 8,3%, respetivamente.

Na passada sexta-feira, a Assembleia da República aprovou o Orçamento Suplementar, no qual se estima uma queda de 6,9% do PIB. Na elaboração do Orçamento, o Governo optou por não ouvir os especialistas do Conselho de Finanças Públicas (CFP) em relação ao quadro macroeconómico. Na sua análise da proposta de alteração ao Orçamento, o CFP chama a atenção para a falta de transparência  das previsões macroeconómicas constantes no documento. Este facto não incomodou os partidos com assento parlamentar. Continuaram a discutir medidas orçamentais num contexto macroeconómico irrealista.

Numa altura em que devíamos todos tentar perceber e antecipar as dificuldades que temos pela frente, preferimos a ilusão. Preferimos acreditar que o défice vai ficar pelos 6,3% e que a dívida pública não vai além dos 134,4% do PIB. De facto, é assustador encarar um cenário tão negro. Uma queda do PIB em torno dos 10%. As insolvências. O aumento do desemprego. A queda das receitas fiscais e contribuições sociais. O aumento da despesa pública. Uma dívida pública que poderá galgar os 140% do PIB em 2020.

As dolorosas consequências da manipulação das contas públicas no período 2009/2011 devia ter-nos servido de lição. Não utilizar a melhor informação disponível e ser ultrapassado pela realidade sai muito caro.

Desde muito cedo nesta crise se percebeu que a palavra-chave era ‘velocidade’. A velocidade a que o vírus se disseminava. A velocidade a que a atividade económica colapsava. A velocidade a que os governos, a União Europeia e o BCE tomavam medidas. A velocidade a que as pessoas mudavam comportamentos.

Os portugueses e o Governo foram rápidos na fase do confinamento. As escolas foram fechadas e grande parte da população resguardou-se em casa. O comércio fechou, as ruas das cidades ficaram desertas, os transportes públicos ficaram vazios e as estradas sem tráfego. O controlo da pandemia parecia ter sido bem-sucedido.

A recuperação da atividade económica exigia um processo de desconfinamento rápido. A proximidade do Verão e da época turística acentuaram a urgência do processo de desconfinamento e de reabertura da economia. De acordo com os dados da Comissão Europeia, no segundo trimestre, o PIB terá caído 14,1% face ao primeiro trimestre.

O turismo era visto como a tábua de salvação do Verão e da economia em 2020.

A imposição de quarentena pelo Reino Unido às pessoas provenientes de Portugal foi um balde de águia fria e representa o falhanço do processo de desconfinamento. A dificuldade em controlar os surtos de covid-19 na região de Lisboa colocou Portugal entre os países europeus com maior incidência de casos por 100 mil habitantes.

A verdade é que o sentimento de segurança nunca chegou a ser restaurado entre os portugueses. As escolas e as universidades permaneceram fechadas. Alunos e professores continuaram em casa. A recuperação do consumo está a ser muito lenta. Nos restaurantes, no comércio, nos transportes públicos continua a registar-se uma frequência muito baixa.

Seria sempre muito difícil restaurar a confiança dos estrangeiros sem previamente restaurar a confiança dos portugueses.

E o que falhou no processo de desconfinamento?

Para o processo de desconfinamento ser bem-sucedido, era necessário definir uma direção clara. Uma direção que permitisse criar confiança na população para que esta regressasse à sua atividade normal, no respeito das novas regras de segurança.

Nada prejudicou mais a confiança dos portugueses do que o fecho das escolas e universidades. O seu encerramento reflete a incapacidade de organizar o ensino presencial neste novo contexto e, de caminho, não induz na população comportamentos sociais que limitem a propagação do novo coronavírus.

Seria possível reabrir os hotéis sem primeiro reabrir as escolas?

Sabia-se que o desconfinamento ia ser um processo muito complexo. Num contexto de mudanças rápidas e de elevada incerteza, seria necessário utilizar o máximo de informação, muita organização e beneficiar do aconselhamento dos melhores especialistas. No processo de desconfinamento, tudo isto parece faltar.

No início do mês de junho tornaram-se evidentes as dificuldades no controlo de novos surtos de covid-19 na região de Lisboa. As dificuldades em recolher e tratar informação, típicas da administração pública portuguesa, ficaram mais uma vez à vista de todos. Houve dificuldades de contabilização dos casos por localidade. Nestas condições, não surpreende a incapacidade em identificar a causa dos surtos e em definir medidas eficazes para os conter. Também não se percebe a falha na garantia de condições de segurança nos transportes públicos, essenciais para as populações da periferia de Lisboa. Essa necessidade estava sinalizada há muito tempo.

A falta de uma direção clara no processo de desconfinamento põe em causa a velocidade da recuperação da economia. Se nos atrasarmos na recuperação em relação às outras economias europeias, voltaremos aos processos de ajustamento habituais. Os mais jovens, que são muitas vezes os mais qualificados, serão os primeiros a ser despedidos. E, quando as outras economias recuperarem, também serão os primeiros a emigrar.