Já se sabia, agora não se pode ignorar. O jornal inglês The Telegraph noticiou, em 10 de Dezembro, que o grupo terrorista Hamas guardou, para impedir a sua distribuição, leite destinado a bebés. Aliás, consumiam-no e até o revendiam (pasme a esquerda, que consentiu servilmente num casamento morganático com o Hamas) a preço de mercado.  O objectivo era claro, agravar a crise humanitária em Gaza para diabolizar Israel.

Esta sinistra campanha de relações públicas, que instrumentaliza os filhos do seu próprio grupo, deveria dizer tudo a quem não tiver perdido de vez a audição. Talvez por isso se tenha abatido sobre ela o silêncio. Os meios de comunicação social nada disseram. O Observador não noticiou o caso, o Público não noticiou o caso, o Expresso não noticiou o caso, o Diário de Notícias não noticiou o caso; nem o fizeram a RTP, a SIC ou a TVI. Nem o fez essa espécie de escritório oficioso do Hamas em Portugal: a Lusa. E, no entanto, noticiaram – leia-se: repetiram em total abstinência das regras deontológicas da profissão – a propaganda do Hamas, no figurino do Ministério da Saúde de Gaza ou por vezes, com mais acerto, do Ministério da Saúde do Hamas. No meio da destruição, da fome e do medo que reinavam em Gaza, nunca esse ministério foi estorvado na sua contabilidade, actualizando com precisão laboratorial, dia após dia, uma contabilidade jamais posta em causa.

Por esses dias, não faltaram igualmente apelos lancinantes a exigir a entrada de jornalistas em Gaza, que agora, estranhamente, não põem lá os pés. Abriram-se os diques, e a comunicação social despejou torrentes de indignação pela sorte das crianças de Gaza. A compaixão por esse sofrimento, superlativamente inocente e, por isso, superlativamente injusto impunha a condenação de Israel. Uma condenação em nome da humanidade, para lá de qualquer divisão política, de qualquer história, de qualquer cultura. A humanidade, porque era una, acusava e condenava soberana e legitimamente, porque era absolutamente universal. O destino das crianças de Gaza servia, bem entendido, para fazer de Israel a personificação do mal absoluto, tendo em vista igualizá-la ao nacional-socialismo e, desse modo, pôr fim ao crédito moral do país – a quem já se esqueceu basta lembrar a imagem do refém a cavar a sua sepultura.

Meses a fio, a catadupa noticiosa usava e abusava da muleta do «sem precedentes». E o Secretário-Geral, António Guterres, o hediondo gnomo no jardim de plástico em que se transformou a ONU, também comia da mesma malga. A fome em Gaza era sem precedentes, a crueldade de Israel era sem precedentes. E as crianças, as crianças sofriam também sem precedentes. Nenhum ser humano digno desse nome deixaria de ser identificar com tamanho sofrimento, nele se dissolvendo, a trautear talvez Je suis à toi. Uma tal sobreidentificação impunha o dever da denúncia. E, se, nas palavras de Samuel Johnson, o patriotismo é último refúgio de um canalha, viu-se que a compaixão ainda mais o era. Os editoriais, e em menor escala as notícias, tornaram-se um caso de olimpismo imundo. Teve início uma prova; citius: para ver quem era mais rápido na denúncia; altius, para verificar quem subia mais alto no tom; fortius, quem inflacionava a expressão.  Nunca por decisão própria, claro está. Era a compaixão, inexorável, que o ditava.

Assistiu-se assim ao desfile mediático dos compassivos porta-vozes da humanidade (em que o filósofo José Gil ganhou de longe o galardão desse género patético-metafísico). Agora, sem surpresas, emudeceram; a compaixão evolou-se: os desportistas do verbo permanecem calados. Esse pacto tácito de silêncio, que é o seu sigilo profissional, constitui a prova, mais uma, de que as flores de retórica, a que prodigalizavam tantos e tais desvelos, exalam um odor de putrefacção; neste caso, da putrefacção dos bebés e das crianças que o Hamas matou. Mas os canalhas dormem bem. Sempre dormiram.