A Síria caiu nas mãos daquilo que mais temia: uma nova ditadura vestida de democracia. O regime de Bashar al-Assad ruiu sob o peso da guerra e do isolamento internacional, mas o sistema que o sustentava apenas trocou de rosto. Chamaram-lhe “as primeiras eleições livres em décadas”. Na verdade, foi apenas a velha coreografia autoritária com nova música: o povo continua sem voto, e o poder continua onde sempre esteve.

O novo presidente interino, Ahmed al-Sharaa, apresentou-se como o rosto da reconstrução nacional. Falou em reconciliação, em dignidade e em futuro. Mas quando chegou o momento de votar, a esmagadora maioria dos sírios ficou fora do processo. Não houve partidos políticos, não houve campanha livre, e cerca de um terço dos deputados foi diretamente nomeado pelo próprio presidente.

A ONU confirmou que não foi sequer convidada a observar as eleições. Quem organiza uma farsa não quer testemunhas. Ironia das ironias, o mesmo presidente que impediu a entrada da ONU no seu país foi recebido em Nova Iorque com todas as honras diplomáticas. Ahmed al-Sharaa discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas, o primeiro dirigente sírio a fazê-lo em quase sessenta anos. Ainda sob sanções internacionais e com um passado extremista, aproveitou o púlpito da ONU para pedir o fim das sanções à Síria, criticar Israel e proclamar o apoio ao povo de Gaza. Um Presidente sírio pôde ir à ONU, mas a ONU continua impedida de ir à Síria.

Os resultados foram tudo menos inclusivos. O novo parlamento é dominado por homens sunitas ligados a elites locais e grupos armados. As mulheres conquistaram apenas 4% dos assentos. As minorias curda, cristã e drusa ficaram praticamente sem representação. A promessa de um novo início para a Síria terminou num velho cenário de exclusão e medo. A diferença é que agora a opressão vem mascarada de consenso.

O que está a acontecer em Damasco é um golpe político travestido de progresso. Uma tentativa sofisticada de consolidar o poder sob a aparência de normalidade institucional. O Ocidente, cansado da guerra e sedento de estabilidade, parece disposto a acreditar. Aceita-se a farsa porque é conveniente. Porque é mais fácil celebrar

uma transição do que admitir que a Síria continua refém de um sistema autoritário que sobreviveu à própria queda do ditador. Mas a democracia não nasce de decretos, nem de gabinetes provisórios. Nasce da confiança nas urnas, da liberdade de escolha e da proteção das minorias. E é precisamente isso que continua ausente. Quando uma eleição exclui metade da população e silencia comunidades inteiras, não é um passo em frente, é um círculo vicioso.

A história recente está cheia de ditaduras recicladas, regimes que aprenderam a falar a língua da democracia enquanto mantêm o punho de ferro. A Síria é apenas o exemplo mais recente de uma tendência global. O autoritarismo aprendeu a disfarçar-se, a usar a gramática das liberdades para perpetuar o controlo. Chamam-lhe transição, mas é apenas continuidade.

O país precisava de reconstrução, não só de edifícios e estradas, mas de instituições, confiança e dignidade. Em vez disso, está a ser reconstruído o medo. O medo de falar, o medo de escolher, o medo de voltar a sonhar com um país livre.

Hoje, a Síria vive o seu maior paradoxo. Derrubou um tirano, mas não o tiranismo. E o mundo, cúmplice por conveniência, volta a aplaudir como se a encenação bastasse para substituir a verdade.