A TAP nacionalizada é um luxo, que só tem par maioritariamente em monarquias, ditaduras ou países pobres.

Existem no mundo cerca de 800 companhias aéreas comerciais a operar com voos regulares, oficialmente reconhecidos.

Em 2019, 56 países eram donos, na totalidade, do capital de 63 companhias aéreas em África, na Ásia, no Médio Oriente, na Oceânia, na Europa, na América Central e do Sul.

Tendo acesso à lista de empresas, e analisando os seus países de origem, conseguimos depreender que mais de metade destas empresas estão sediadas em países cujo regime é autoritário, incluindo, em seis deles, regimes monárquicos.

Menos de um terço das companhias aéreas estatais, pertencem a democracias, sendo que 60 por cento das mesmas estavam, em 2019  e de acordo com o Banco Mundial, entre os países com pior rácio PIB/Paridade do Poder de Compra.

Será que isso significa que, para termos a TAP, o Dr. António Costa ou o Professor Marcelo Rebelo de Sousa terão de assumir uma função de Reis ou Ditadores? Caso esta hipótese não seja aceite, a alternativa será passar a ser um país pobre com diferenças generalizadas nos padrões de vida gerais da população, diferenças essas cada vez mais acentuadas. A ser este o caso, vamos no bom caminho.

Para que é que queremos uma transportadora aérea nacional? Será que os privados não sabem transportar passageiros?

Portugal superou, em 2019, os 60 milhões de passageiros, com mais de mil voos diários para os dez aeroportos nacionais: Lisboa, Porto, Faro, Beja, Funchal, Porto Santo, Ponta Delgada, Santa Maria, Horta e Flores.

A TAP anuncia no seu site, que transportou 17 milhões de passageiros em 2019. Apesar da grande dimensão deste número, significa que 43 milhões de passageiros voaram para Portugal usando outras companhias aéreas.

Não é de admirar, porque para além da Easyjet, que transportou quase 7 milhões de passageiros para Portugal, existem mais de 50 outras companhias aéreas a voar para e de Portugal.

Orgulho nacional versus realidade?

Será que só temos uma companhia aérea por orgulho? Será que é porque não há um só político que tenha a coragem de dizer: “Basta!”?

Um passageiro, especialmente um passageiro frequente, procura numa companhia aérea voos directos, pontualidade, segurança e conforto a um preço justo. Não posso pôr em causa a segurança da TAP, mas a pontualidade não é o seu forte e o conforto, seja nos assentos, seja na comida, seja no entretenimento, são, para não me alongar muito, sofríveis, especialmente nos voos de curto e médio curso. Por último, para a maior parte dos destinos que a TAP voa, existem várias opções, muitas vezes mais baratas.

Se a TAP acabar, for vendida, incorporada noutra companhia, será que os portugueses vão ficar desmoralizados? Ou não será o dinheiro que todos lá iremos colocar, em tempos de escassez, muito mais desmoralizante?

E depois de amanhã?

Como consequência da crise que o sector atravessa, vários são os governos que insistem que as companhias aéreas são activos estratégicos – pelo que contribuem para o PIB e pelo emprego que geram – e estão em curso vários pacotes de resgate para ajudar as companhias a sobreviver à crise, já aprovados ou a serem negociados. No entanto e acompanhando a imprensa europeia, constatamos que, até ao momento, não há mais companhias aéreas nacionalizadas do que no ano passado.

Será que os governos têm mesmo de nacionalizar, único meio que têm para garantir que vão recuperar os empréstimos e as ajudas dadas ao sector?

Parece que nos preparamos para seguir o exemplo dos Italianos – espero que não seja apenas porque as cores da Alitalia são parecidas com as da TAP – e espero que, desta vez, este Governo seja muitíssimo claro e transparente em relação a este processo.

Não podemos aproveitar a crise que a pandemia trouxe à aviação, e a consequente necessidade de rever modelos de funcionamento e organização para, de uma vez por todas, resolver a eterna crise da TAP? E, como é intenção anunciada pelo ministro Pedro Nuno Santos, reestruturar a empresa e vender este activo a quem o saiba gerir melhor?

No meio de tudo isto, não haverá uma grande injustiça? O Estado salva a TAP, mas deixa cair as pequenas empresas? Deixa cair empresas, por exemplo, onde é credor e devedor, por não ter um mecanismo que permita o acerto de contas e por ser habitualmente mau pagador?

Quanto contribuirão as PME, agora em grandes dificuldades e que não serão nacionalizadas, para o nosso PIB e para a criação de emprego?

Aqueles que, de uma vez por todas, venderem a TAP aos privados, terão o voto dos que estão fartos de desembolsar dinheiro para tentar salvar o que não tem salvação.