A política protecionista de Trump veio expor ou confirmar a fragilidade da União Europeia enquanto verdadeiro bloco económico no sistema internacional.

A propósito da atual trajetória da União Europeia (UE), Draghi sublinhou recentemente que durante muito tempo a UE acreditou que o seu peso económico era acompanhado de poder e influência geopolítica nas relações comerciais internacionais, mas este ano ficará gravado nas nossas memórias como o ano em que esta ilusão foi destruída, com a Europa a resignar-se às tarifas impostas pelo seu maior parceiro comercial e aliado de longa data.

Subscrevo esta visão. A UE é uma estrutura permeável, não tem uma verdadeira política comum de mercado único. Com uma diversidade de interesses nacionais, não existe um mercado de capitais único, como também não existe uma política fiscal comum. Poderia citar muitos outros exemplos na falta de harmonização, quase sempre com impacto na competitividade da atividade empresarial.

A Europa não pode ser uma “manta de retalhos” e “curvar-se” perante blocos económicos que tendem a “dominar” o mundo. A UE tem capacidade para reduzir as suas vulnerabilidades e atuar como um verdadeiro bloco económico. Ainda muito recentemente provou que é capaz. Todos nos recordámos do período da pandemia por Covid-19, onde demonstrou a sua adaptação a uma situação de emergência, ao avançar com um programa de compras conjuntas e um plano de recuperação para mitigar os impactos negativos da pandemia. É esta estratégia de interesse comum que deve ser potenciada, agindo com determinação para enfrentar os novos desafios a nível global. Porque o mundo não se coíbe de impor a sua força sobre a Europa!

Draghi e Letta, nos seus relatórios, sinalizam de forma muito clara a importância de uma Europa forte e os caminhos para lá chegar, através de investimento massivo, nomeadamente em inovação, para evitar o declínio e reduzir o fosso face aos EUA e à China, que galopa no desenvolvimento da sua capacidade industrial, escoando agora uma parte significativa da sua produção para a Europa, perante o acesso limitado ao mercado americano. Também, através da eliminação da burocracia e da remoção interna de barreiras desnecessárias que impõe a si própria.

Perante a assimetria de poder, a Europa tem de formular uma resposta coesa e eficaz, com decisões ágeis, numa era de reconfiguração da ordem internacional. Sem uma estratégia verdadeiramente comum, assertiva e visionária, arrisca-se a continuar a reagir, em vez de agir, face às grandes potências, comprometendo a sua autonomia estratégica e a sua relevância global.

O lançamento, por parte da Comissão Europeia, do processo de ratificação do acordo comercial entre a UE e o MERCOSUL é um passo importante para diversificar relações comerciais e fortalecer laços económicos e políticos com parceiros estratégicos.