O verão começa, lentamente, a mostrar a cara. As roupas encolhem, até se ficarem por calções e tshirts diminutas.  Mamas, rabos, coxas e barrigas estão finalmente expostas ao nosso escrutínio, e hoje em dia, para nosso entretenimento, muitas dessas áreas corporais trazem agora ilustrações. A pele à antiga, simples e despojada, já não chega.

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Toda a gente em Portugal começou a tatuar-se, dos adolescentes às sexagenárias. Os homens mais velhos sempre tiveram tatuagens, geralmente relíquias da sua passagem pelo exército na década de 1960, entretanto reduzidas a borrões pelos anos, em que é difícil ler “Angola 1967”.

Mas as tatuagens já não estão hoje reservadas a militares ou aos “alternativos” … Espalharam-se, chegaram ao mundo quotidiano.  Podem ser lindas: grafismos simples, a preto e branco, ou imagens gigantes, com todas as cores, podem ser, quando bem executadas, interessantes de contemplar na tela humana. Mas também podem ser fabulosamente feias: especialmente as horrendas “tramp stamps” que saem das cuecas pelas costas acima, como um bicho extraterrestre que acabou de nascer e está agora pronto para se juntar aos seus irmãos extraterrestres.

A extrema popularidade das tatuagens deve muito aos reality shows sobre lojas de tatuagens nos Estados Unidos ou aos concursos televisivos para encontrar o “melhor artista de tatuagens”, em que os seres humanos são utilizados como telas experimentais.  Os shows mostram as mais vazias das pessoas a entrar nas lojas desesperadamente à procura de algo nas suas vidas, e a encomendar tatuagens a artistas de glamour, eles próprios cobertos de tinta, os quais exprimem a sua individualidade vestindo-se todos da mesma maneira. O cliente quer geralmente imortalizar o seu chihuahua tatuando no rabo uma imagem foto-realista do cão, ou deseja celebrar que já não é viciado em “crack” com uma frase do género “todos os dias são preciosos”, ou pura e simplesmente pretende cobrir uma outra tatuagem, péssima, que fez quando altamente pedrado no mesmo “crack”.

Sempre quis ter uma tatuagem, mas duas coisas pouparam-me a essa asneira. A primeira coisa foi a promessa da minha mãe, ainda em vigor, de que, ao mínimo sinal de tatuagem, me deserdava. E ela ainda continua a dizer isso com toda a convicção. A segunda, foi esta: sei que acabo sempre por me enfadar com todas as coisas. Da mesma maneira que a cor do cabelo me aborrece um dia, sei que me ia aborrecer com a tatuagem. E mais: tal como a coloração de cabelo, também as tatuagens envelhecem.  Sangram, descolorem, desfocam-se e caem, como o resto do nosso corpo.

Ontem a noite, no supermercado, tive de fazer fila atrás de uma rapariga incrivelmente bonita, acompanhada pelo namorado também muito bonito, ambos com vinte e poucos anos. Estavam cobertos de tatuagens frescas e lindas, de traços finos, com grafismos do Dia Mexicano dos Mortos e coisas góticas, entrelaçados com arbustos e pássaros. Imagens lindas, decorativas, e essencialmente sem sentido, pintadas (não, pintadas não… raspadas, arranhadas e agulhadas na pele) por todo o lado, nos braços, nas pernas, nas costas, no peito e pescoços. E não consegui deixar de pensar em como estes dois lindos jovens vão envelhecer, na tristeza com que vão notar que os desenhos perdem o brilho e o foco ao longo dos anos, e como será tarde demais quando finalmente se aborrecerem com a sua própria pele.

Porque só há uma solução para o envelhecimento das tatuagens: é esperar até aos oitenta anos para as fazer.

(tradução da autora)

 

The naked tattoo

Summer is gradually showing its face. Clothes are gradually coming off, but for the scantest shorts and tiniest tshirts. Boobs and bums and thighs and bellies are all out for everyone’s perusal, and, these days , many of those body parts are illustrated, to keep us entertained. Bare, beautiful Portuguese skin is so dull, isn’t it?

Everyone in Portugal is getting tattooed, from teenagers to women in their sixties. Men in their sixties already have them, left over from being in the army in the sixties and seventies, smudgey blurs of what they once were. It’s now hard to read that they originally read “Angola 1967”.

Tattoos are no longer the reserve of the “alternative” and the military… they have spread to the world of the mundane. They can be fantastically beautiful. Simple black graphics to full colour bodies-full of glorious imagery, when done well, can be interesting to watch on a human canvas. They can be fantastically ugly, too, of course, especially those horrible tramp stamp things that look like an alien bug is crawling out from someone’s knickers, having gestated down there, ready now to join its sibling alien bugs.

The TV reality shows about tattooing must have contributed to the huge upsurge in tattoo take up. The shows are about tattoo parlours in the states and  competitions to find the “best tattoo artist” with an elimination competition… using real people as experimental canvasses. They depict the most vacuous of people filing through the doors, desperate for something in their life, requesting tattoos from technically amazing, glamorous artists, themselves covered in ink, who express their individuality by all dressing the same as each other.  The clients come to immortalise their dead chihuahua with a photorealistic copy of said dog’s head on their arse or to celebrate that they are no longer a crack addict, by using a new tattoo to “give them strength and remember that every day is precious” or some such twaddle, and probably to cover up the even worse one they got when they were stoned out of their boxes on crack.

I always wanted a tattoo but knowing two things always stopped me. Firstly, my mother swore, and still swears, that if I were ever to get a tattoo, she would cut me out of the will. I know that she means it. Secondly, I know that I get bored with things. In the same way that I get bored with my hair colour, I would get bored with a tattoo. And just like hair colour from a bottle, tattoos age. They bleed, they fade, they blur and they sag, along with the rest of us.

Last night, in the supermarket, I stood behind an incredibly beautiful young woman, with her handsome boyfriend, both in their early twenties. They were covered in fresh and very lovely tattoos, fine-lined, all Mexican Day of the Dead and gothic stuff, intertwined with shrubbery and birds. Beautiful, decorative and ostensibly meaningless imagery painted (no, not painted… scraped and scratched and stabbed into the skin) all over their arms, legs, backs, chests and necks. And all I could wonder was how these two beautiful young things will age, how they will watch with dismay as their drawings blur with age, how it will be too late once they get bored with their own skin.

There’s one obvious solution to the ageing tattoo, of course. Wait until you’re eighty to get one done.