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Crónica

Também tem um bieberino em casa?

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Que se passa na cabeça dos pais que deixam as filhas e os filhos acamparem dias e noites ao pé das salas de concerto, tal como vimos na semana passada no Meo Arena, por causa do Justin Bieber?

Durante os próximos meses, muitos jovens do mundo inteiro todo vão ter a sorte de ver ao vivo o seu herói, o seu deusinho, o seu deusinho do amor… o seu Justin Bieber.

Muito pouca coisa de sensato acontece na cabeça de adolescentes apaixonados pelo seu ídolo-teenager. Eu sei. Eu fui uma adolescente assim.

Nesses anos difíceis, tive cartazes e posters de Duran Duran a cobrir todas as paredes do quarto, e quase me convenci de que ia casar com o John Taylor. Tudo o que sabia sobre John Taylor era o que lia nas revistas juvenis, ouvia na rádio ou via nos breves interlúdios dedicados à música pop na televisão. Na altura, em Inglaterra, tínhamos só dois programas com música popular: o “Top of the Pops”, que consistia em meia hora dos hits da semana, e “The Tube”, a partir de 1982, no novo Channel 4. Não havia MTV nem canal Entertainment, não estava ainda desenvolvida a cansativa e esgotante cobertura noticiosa das “estrelas”, nem ainda tinha sido inventada a internet para podermos seguir todos os passos e delinquências dos nossos ídolos. Nas nossas cabeças, eles eram o que queríamos que fossem, anjos lindos e ricos, longe de drogas e de mau comportamentos, matéria perfeita para serem os maridos com que sonhavam as nossas cabeças simples de 13 anos.

Hoje, porém, as teenagers (e os teenagers, mas já que a maior parte dos bieberinos são bieberinas, fiquemos com “as”) sabem perfeitamente o que o Justin Bieber (e os outros ídolos) é e não é. Elas acompanham a sua vida continuamente, na TV e na net. Seguem o seu êxito estratosférico e o seu comportamento diabólico, viram-no crescer de puto pré-pubescente até se tornar o puto temperamental e perturbado de 22 anos. Dispõem de toda a informação para perceber que ele não é um anjo, nem sequer, provavelmente, boa pessoa. Mas ainda assim, gostariam de casar-se ou pelo menos de namorar com ele.

É, no entanto, compreensível. Os adolescentes são idiotas. É essa a sua função na sociedade: serem idiotas… Todos fomos idiotas nessa idade – eu também, e muito. E quem é que nunca adorou um menino mau? Há décadas que os adolescentes desmaiam em frente aos seus ídolos, pelo menos desde que o Elvis começou com aquela coisa que fazia com as ancas.

O que não é compreensível é que, pelo mundo fora, os pais deixem as suas filhas e filhos ir para longe de casa e acamparem dias e noites ao pé das salas de concerto, tal como vimos na semana passada no MEO Arena, e tal como vi quando (sob muita coação, claro) levei a minha filha, então com 13 anos, ver já não sei que banda de putos. Miúdas de 13, 14, 15 anos, acampadas nos passeios durante três dias, sem se lavar, a faltar à escola, a comer comida de plástico, à chuva e ao frio, só para conseguirem chegar o mais perto possível do palco – imaginem o cansaço delas ao chegar finalmente ao tal palco … como aguentaram? Bem, são adolescentes, aguentam.

Estes pais que permitem às filhas, algumas vindas de longe, ficarem na rua, sozinhas, sem abrigo, estão, sem dúvida a dizer a si próprios que proporcionaram às miúdas uma experiência incrível, uma aventura… que estão a deixá-las seguir o seu sonho.

Mas o sonho – sonho desorientado com hormonas – das teenagers é o quê? Querem que o Justin as veja, que veja as suas proclamações de amor escritas em cartazes, que descubra a sua incrível beleza natural (por baixo da sujidade, fedor e cansaço de três dias passados na rua)? Querem que ele as leve para o tourbus ao fim do espectáculo, para serem a sua última conquista fácil, querem instagramar-se na cama do Justin, fugir com ele e serem as mães solteiras dos seus bebés-justinos?

Estes pais, tal como as filhas, sabem perfeitamente o que se passa na vida do Justin Bieber, o seu êxito estratosférico e o seu comportamento de rapaz mauzinho, e ainda as despacham… sozinhas… para longe, armadas só com o guarda chuva, um cobertor e uma bolsinha de dinheiro… sozinhas… para seguirem o seu sonho…

Mas, enfim, é tão fofinho mostrar interesse pelos sonhos dos filhos.

Traduzido do original inglês pela autora. Lucy Pepper é autora do livro “Como não morrer de fome em Portugal” (Objectiva, 2016).

Bieberinos

For the last few months and for the next few months, adolescent girls and boys from all over the world are getting the chance to see their hero, their god… their love god, their Justin Bieber.

There is little that is useful that goes on in the young adolescent mind that has been taken over by a crush on their teen idol. I know, I was one of them.

I had posters of Duran Duran all over my walls, and was almost entirely convinced that I would marry John Taylor. All I knew about John Taylor was what I read in the teen magazines, heard on the radio and saw in brief moments on the television. Back then, we had only just got the fourth TV channel. On the BBC there was one show a week dedicated to music, Top of the Pops, half an hour of chart hits and, when Channel 4 began, The Tube, a magazine show that lasted for a couple of hours. No MTV, no Entertainment Channel, no exhausting and exhaustive 24 hour coverage of “the stars”, no internet to follow the meanderings, misdemeanours and private lives of our idols. In our minds, they were the people that we wanted them to be, glorious drug free, artistic, lovely rich angels who were perfect husband material to our simple 13 year old minds.

Today, though, the current crop of simple minded teenagers knows exactly what Justin Bieber (and all of his teen idol friends) is and isn’t. They follow his life continually, on the TV and on the net. They follow his soaring success and his bad behaviour, watch his growing up from prepubescent boy to troubled, temperamental boy in his early 20s, with plenty of evidence to see that his is not a glorious angel, and yet they still want to marry him.

Still, it is understandable. Teenagers are idiots. It’s their job… and who never loved a bad boy? We’ve been watching teenagers collapsing in front of their idols since Elvis started swinging his hips at them.

What isn’t understandable is that, all over the world, parents are happily sending off their daughters and sons to camp outside arenas, just as we saw last week in front of MEO Arena, just as I saw when One Direction played at Dragão when I (under extreme duress) took my then 13 year old. Young kids of 13, 14, 15 years, camping out on the pavements outside for up to three days, unwashed, missing three days of school, eating plastic food, in the torrential rain and bitter cold, to make sure they get to the front – they’ll have been so exhausted by the time they got inside, it’s a wonder how any of them made it through the concert.

These parents who allow their kids to travel across the country alone, to stay alone outside, with no shelter are, no doubt, telling themselves that they are allowing their children to have an incredible experience, to see their idol, to have an adventure… to follow their dream.

The teenage, hormone addled dream is what, though? Do they want Justin to see them, to see their proclamations of love written on a card, to be the one to see their incredible natural beauty through the three days of grimy living and exhaustion? Do they want him to whisk them away to his tour bus after the show, to be his latest easy conquest, to instagram themselves in his bed, to run away with him and be his baby mother?

These parents also know what goes on in Justin Bieber’s life, his soaring success and his terrible behaviour. They know almost as much as their kids do and still happily send them off with an umbrella, a blanket and pocket full of cash, to follow that dream, all on their own.

But, hey, isn’t it nice that they are so interested in their kids dreams?

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