Teletrabalho! Teletrabalho! Teletrabalho! O mundo inteiro vai retomar em uníssono a retórica do bem-estar da Era Pós-Covid! Este facto transforma o teletrabalho num fenómeno que ultrapassará certamente a economia, tornando-se quase um desafio para a sociedade. No entanto, é necessário ter em conta que se o teletrabalho é um dos conceitos mais difíceis de circunscrever, podendo os métodos e resultados variar de país para país, de população para população, de uma empresa para outra, parece-nos que a primeira tendência emergente é a de uma sociedade a duas velocidades, as PME e as grandes empresas por um lado, uma elite business ocidental, e, por outro lado, numerosos outros países que nunca adotarão o teletrabalho por questões culturais. O teletrabalho criou um mundo a duas velocidades. No que diz respeito à França, o recente barómetro de Viavoice demonstra que 71% dos dirigentes não aceitam perpetuar esta prática, 77% dos dirigentes de PME com menos de 100 empregados e 20% no que toca às grandes empresas com mais de 1000 trabalhadores!

Por outro lado, são as empresas com menos de 50 trabalhadores – menos salários, maior paternalismo e menos R & D (Research and Development) na digitalização – que não beneficiam dos efeitos positivos sobre a produtividade (Monteiro e al. (2019)). Nalgumas PME, podemos lamenta-se a ampliação dos circuitos de decisão, uma vez que é a proximidade, a fluidez dos intercâmbios e a reatividade que fazem a riqueza das PME. Outros lamentam as dificuldades de pagamento claramente causadas pelo teletrabalho, ou simplesmente a qualidade do trabalho posta em causa. Enfim, no seio de uma verdadeira grande empresa já existe, de facto, o hábito de trabalhar à distância! Suprimir um posto de trabalho num open space de uma grande empresa faz sentido, no entanto fechar um escritório numa PME nem por isso.

De uma forma geral, 78% dos dirigentes anticipam os impactos negativos do teletrabalho na produtividade, com 22% que anticipam um forte impacto negativo e somente 15% acreditam que não haverá nenhum impacto sobre a produtividade. Este cepticismo reflete-se em torno de um certo número de fatores e permanece bastante concentrado sobre as PME: numerosos pais têm necessidade de cuidar dos filhos pequenos com pressões adicionais, tirando tempo de trabalho não remunerado (o stop and go ligado à guarda de crianças aumenta o número real de horas trabalhadas). Aliás, no seio das PME existem mais queixas relativamente à falta de meios no que toca à guarda de crianças do que nas grandes empresas. Finalmente, numerosas PME ainda não possuem processos nem modos de comunicação e colaboração fundados no teletrabalho, reduzindo consequentemente a produtividade.

No entanto a Covid acelerou, a passo forçado, o teletrabalho no mundo… sem dúvida! Mas existem, também, disparidades importantes segundo as culturas de cada país. A pandemia revelou uma série de coisas: as estatísticas indicam que, em média, 44% dos trabalhadores do planeta são capazes de exercer as suas funções em teletrabalho, enquanto 24% de trabalhadores não podem exercer o teletrabalho nas suas respetivas profissões. Evidentemente, são os países mais ricos que possuem a quota-parte mais elevada de empregados capazes de exercer as suas funções à distância, respetivamente 38%, contra 25% para os países na categoria de rendimentos média-alta, 17% para os países de baixo e médio rendimento, 13% para os países com rendimentos muito baixos.

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Por conseguinte, poucos são os trabalhadores a exercerem o trabalho à distância na categoria de baixos rendimentos. Segundo este mesmo estudo, se o acesso ao teletrabalho duplicou desde 2011, 54% dos empregados mencionam, atualmente, terem a oportunidade de o exercer.

As empresas com mais oportunidade de efetuar o trabalho à distância pertencem às áreas dos seguros e tecnologias de informação, com 74% dos empregados que afirmam já terem exercido o teletrabalho. A este respeito convém salientarmos diferenças culturais importantes. Observamos que somente 60 % dos empregados de países com rendimento elevado, como os Estados Unidos e Suiça, são incapazes de trabalhar à distância, e que esta proporção se eleva a mais de 80-90 % para economias tais como o Egipto ou o Bangladesh.

Estes resultados devem ser atenuados por setores de atividade. A área das finanças, dos seguros e dos serviços profissionais de informação situam-se na camada alta, enquanto os setores de assistência às pessoas, o setor alimentar, a agricultura, o setor retalhista, a construção e o transporte oferecem poucas oportunidades de teletrabalho.

Deste modo, mais do que um impacto significativo sobre a produtividade, o teletrabalho surge como um desafio para a sociedade, desenhando os contornos do mercado de trabalho de amanhã no mundo ocidental das grandes empresas, uma vez que a maioria dos estudos permanece circunscrita aos países ocidentais e às atividades dos trabalhadores que podem realmente exercer o teletrabalho, constituídos por quadros do setor terciário, o que pode, por vezes, transmitir a ideia de que este é bastante positivo.

Finalmente, a melhoria da produtividade através do teletrabalho está tão circunscrita a determinadas populações, a determinadas metodologias de avaliação, a determinadas funções, a certos países, a certas culturas, que o teletrabalho é acima de tudo um projeto de sociedade e não uma estratégia de produtividade. Há quem possa aderir livremente ou não, segundo determinados critérios, mas não será certamente por uma questão de volume de negócios com o propósito de generalizar a ideologia de uma élite business ocidental aos universos culturais.