“Na minha vez de ser adulta, até a tensão 12/8 decidiu que já não é considerada normal”, escreveu-me uma seguidora das redes sociais. Reclamava, e com razão. Os valores que durante anos nos deixaram descansados são agora vistos como um sinal de alerta para risco cardiovascular. O mesmo se passa com os valores de colesterol: nas novas guidelines [normas] europeias de 2025 os alvos tornaram-se mais exigentes.

Mas afinal, porque é que isto importa tanto?!

Primeiro, porque as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal e na Europa. Segundo, porque nos referimos a fatores de risco cardiovascular modificáveis. Ou seja, que podemos alterar através de estilos de vida e/ou medicação, alcançando valores que não traduzem risco. E, por fim, porque estas doenças são silenciosas. Raramente alguém marca uma consulta por “sentir tensão alta” ou “colesterol elevado”. Cabe muitas vezes ao médico perguntar, medir e sensibilizar.

Frases como “sempre tive a tensão assim, é normal em mim” ou o “meu colesterol é um pouco alto, nada de especial”, parecem inofensivas. Porém, o corpo não negoceia com as estatísticas. E é precisamente essa perceção errada de segurança que adia o diagnóstico e, por vezes, a vida.

O novo (2024) enquadramento da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) — em conjunto com as Sociedades Europeias de Endocrinologia e de Acidente Vascular Cerebral — veio redefinir o que entendemos por “normal”.

Atualmente, valores de 120-129/70-79 mmHg já representam uma pressão arterial “elevada”, ou seja, um risco que precisa de ser acompanhado.
A hipertensão instala-se quando a pressão arterial é igual ou superior a 130/80 mmHg. Todavia, não significa que “estamos todos doentes”. Significa apenas que queremos intervir mais cedo, prevenir mais eficazmente através da alteração do estilo de vida para hábitos mais saudáveis e evitar que a primeira manifestação de um problema seja um enfarte ou um AVC. O alvo ideal agora é atingir uma tensão arterial inferior a 120/70 mmHg, sempre que tolerado.

Esta medição deve ser feita com rigor: em repouso, repetida, e idealmente em casa ou com monitorização ambulatória da pressão arterial (MAPA). Um número isolado nunca conta a história toda. Até porque o valor no ecrã depende de múltiplos fatores: stress, café, tabaco, sono, medicação, dor.

Medir a tensão tem que ser visto como um gesto de prevenção, tão essencial como medir a febre.

O mesmo raciocínio aplica-se ao colesterol. As novas normas da ESC e da Sociedade Eeuropeia de Aterosclerose reforçam metas mais rigorosas para o LDL, o chamado “mau colesterol” nos seguintes casos:

  • Em pessoas de risco cardiovascular muito elevado, o objetivo é < 55 mg/dL
  • Em risco elevado, < 70 mg/dL.

Pode parecer extremo, mas a ciência é inequívoca: não existe um “limite mínimo” conhecido de LDL a partir do qual o risco aumente. O que existe é uma relação direta entre os níveis de colesterol e eventos cardiovasculares: quanto mais baixo o LDL, menor o risco cardiovascular. Isto significa que mesmo quem se sente bem deve olhar para os seus valores com espírito crítico.

Em Portugal, quase 60% dos adultos portugueses têm colesterol elevado, mas poucos estão controlados. Não é por falta de medicamentos, é por falta de perceção do risco.

Como médica, vejo todos os dias o resultado daquilo que não foi prevenido.
A hipertensão e o colesterol alto são silenciosos, não vão doer, não causam febre e não vão impedir de trabalhar. É como uma torneira que pinga lentamente para um balde, até este transbordar.

Quando a ciência muda, a medicina deve adaptar-se. E nós, médicos, temos o dever de traduzir essas mudanças em linguagem que as pessoas entendam. Sem alarmismos, mas com clareza.

Medir a tensão arterial, controlar o colesterol, parar de fumar, mexer-se mais, moderar o stress, dormir melhor, comer com menos sal e menos gorduras trans, são decisões simples que mudam o curso e a qualidade da vida. As novas normas não vieram assustar-nos ou dificultar-nos a vida. Vieram lembrar-nos de que viver bem é uma escolha diária, e que cuidar do coração e do cérebro é cuidar de tudo o resto. Porque o amanhã começa hoje.

Ana Isabel Pedroso é médica especialista em Medicina Interna, Intensiva, e de Urgência e Emergência. Criadora do projeto “Medicina sem Filtros” (Dokinni) usa a comunicação para aproximar a ciência das pessoas e promover escolhas de saúde mais conscientes. Autora do livro Para Além do Medo [ed. Zero a Oito] e da TEDxTalk homónima, é uma das cronistas convidadas do Arterial, a secção do Observador exclusivamente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.

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