Num país em que o discurso sobre coesão territorial é constante, raramente se aborda com frontalidade uma realidade desconfortável: as cidades capitais de distrito do interior estão a definhar, mesmo quando as regiões que lideram crescem económica e produtivamente. Esta contradição profunda é um dos grandes bloqueios ao verdadeiro desenvolvimento equilibrado de Portugal.

Ao longo da última década, muitas sub-regiões do interior alavancaram o seu PIB graças à modernização agrícola, à expansão da agroindústria, às energias renováveis e ao investimento estrangeiro. Mas as cidades que deveriam funcionar como centros motores dessas dinâmicas continuam sem transportes eficientes, sem capacidade de atração para talento jovem, sem polos universitários relevantes e, acima de tudo, sem ambição política clara.

A coesão territorial não se faz apenas com produção no campo ou crescimento industrial disperso. Exige cidades capitais capazes de concentrar, organizar e redistribuir o valor económico da região, oferecendo serviços públicos de qualidade, cultura, inovação e oportunidades. Quando essas cidades falham, toda a lógica de desenvolvimento regional fica incompleta — e o país, inevitavelmente, desigual.

Vejamos o caso emblemático de Beja: capital de uma região em crescimento, mas com a cidade em estagnação. Temos mais uma quantas cidades na mesma situação, mas Beja destaca-se por ser a capita do distrito onde estão a 2ª e a 5ª região com o maior PIB per Capita do país. Analisemos então este caso

Portugal tem vivido um fenómeno curioso: algumas das regiões tradicionalmente vistas como periféricas — como o Alentejo Litoral e o Baixo Alentejo — tornaram-se verdadeiros motores da economia nacional. Os dados do PIB per capita entre 2009 e 2021 mostra isso com clareza: enquanto a Área Metropolitana de Lisboa e Porto estagnavam ou crescia de forma modesta, o Alentejo Litoral disparava, atingindo níveis de PIB per capita comparáveis ou superiores às regiões metropolitanas. Mas esse sucesso regional não se reflete na sua capital administrativa e simbólica: Beja. A cidade permanece parada no tempo, com um centro histórico cada vez mais vazio, sem polos tecnológicos relevantes, sem universidades dinâmicas, sem transportes condignos — e sem ambição política.

O paradoxo do sucesso económico… sem cidade

O Baixo Alentejo e o Alentejo Litoral alavancaram o seu crescimento com base numa agricultura intensiva e modernizada em energias renováveis e economia verde, exportações agroindustriais, logística internacional e turismo quase tudo com grande investimento estrangeiro;

No entanto, Beja, a capital do distrito que integra grande parte deste território, continua à margem desta transformação. Os jovens partem. Os serviços públicos encerram ou são esvaziados. O aeroporto não tem voos. A ferrovia não tem eletrificação. A cidade parece viver numa bolha alheia à vitalidade que a rodeia.

Não basta que uma região produza riqueza. É preciso que tenha uma cidade central capaz de a articular, de a representar e de a transformar em desenvolvimento social, cultural e tecnológico e as sucessivas gestões da Câmara da Cidade têm estado distraídas com outros assuntos em vez de procurar aproveitar o dinamismo da região para fazer crescer a cidade.

A Câmara de Beja tem sido incapaz de se assumir na cidade. A responsabilidade não é apenas do poder central: (que durante muitos anos foi da mesma cor politica da Câmara) é também do poder local, que ao longo de mandatos sucessivos (não conseguiu — ou não quis — posicionar a cidade como uma plataforma de modernidade e inovação.

Enquanto isso, cidades como Évora ou até Sines (sem estatuto de capital) conseguem atrair empresas tecnológicas, universidades com vocação internacional, incubadoras de empresas e investimento qualificado. Beja fica de fora.

Este desfasamento entre o crescimento regional e a estagnação urbana tem consequências sérias como sejam a perda de população qualificada, que procura cidades com mais oportunidades a incapacidade de reter investimento tecnológico, que procura ecossistemas urbanos dinâmicos e a desvalorização do papel institucional da cidade, enquanto centro de decisão e representação.

A médio prazo, este modelo põe em causa a coesão territorial: uma região não se sustenta se a sua capital murcha. Não se desenvolve plenamente sem uma cidade que concentre, distribua e projete o seu valor económico e simbólico.

Beja não precisa de ser Lisboa ou Porto. Mas precisa de ser a cidade que o Baixo Alentejo e o Alentejo Litoral merecem: viva, moderna, conectada, inclusiva, estrategicamente posicionada no coração de uma das regiões com maior crescimento do país.

Porque a política não pode ser apenas a arte do marketing, é dever dos autarcas exigir ao Governo central o respeito institucional por Beja como capital de uma região em crescimento — seja qual for a cor política de quem governa local ou nacionalmente. A exigência tem de ser coerente e constante, e não apenas usada como arma de arremesso quando o poder central pertence a outro partido. É demasiado fácil fazer barulho quando não se está alinhado com Lisboa; o verdadeiro desafio está em manter essa exigência firme quando se governa em sintonia partidária — aí sim, vê-se quem defende verdadeiramente o território e quem se limita a proteger o partido.

O ciclo de desinteresse e resignação chegou a tal ponto que Beja, ironicamente, viu nascer uma das figuras políticas mais qualificadas da sua geração: Carlos Moedas, hoje presidente da maior câmara do país, com um percurso internacional notável, passado por Harvard, Goldman Sachs, comissário europeu e ministro. E, no entanto, a própria cidade natal entrega-se ao oposto: um presidente de câmara sem qualquer experiência relevante fora da politica, sem contacto, sem capacidade de influencia no seu próprio partido, como se demonstra o facto de não ter conseguido nada de relevante das mãos de António Costa. E isso não é só uma tragédia local: é um travão à coesão e ao progresso de todo o país

O tempo das desculpas acabou. Os números mostra-nos a evidência: o território avança, mas a cidade ficou para trás. Compete aos eleitores largar a tolerância e os brandes costumes e ser exigente para com o poder local!

A tolerância é a virtude do homem sem convicções. (G. K. Chesterton).