Já escrevi neste jornal digital umas palavras acerca de Tomáš Halík [TH], inclusive, embora muito brevemente, acerca dos problemas do influxo do pensamento de Carl Jung na espiritualidade daqueloutro (e na católica em geral). Regresso agora a este tema que, não obstante ter passado desapercebido, tanto mal fez a tantas pessoas que têm ‘devorado’ os livros de TH.
Enquanto psicanalista junguiano que é, tudo o que TH publica está marcado pelo dito pelo sincretismo mitológico pseudocientífico de Jung. Desse modo, TH reduz a Teologia a uma abordagem política, a política a uma sociologia e esta a uma espiritualidade que denomino ‘chiclete’. Algo que, na melhor das hipóteses, «se prova, mastiga e deita fora, sem demora».
Com efeito, Jung estima que deus possui em si mesmo o bem e o mal. Havendo-nos criado à sua imagem, é natural que quer Jung, quer TH, desejem integrar, a par, o sombrio e o luminoso que existem em nós. Um deus, pois, com quem temos que ter ‘paciência’ para realizarmos a mencionada articulação gnóstica e anti-cristã, de forma a não cairmos na ‘precipitação’ ateia.
Acontece que TH parece ignorar que a experiência cristã dessa sombria ‘noite’ é distinta da dos ateus. Um ateu genuíno faz a vivência, psicológica e voluntária, de que deus não existe (embora nunca logre provar tal inexistência). Já um cristão pode percecionar o aparente afastamento do Deus-Amor que existe (mesmo sem saber provar a Sua aseidade). Esta diferença é capital.
Como seres humanos que são, ambos (o ateu e o cristão) possuem uma dimensão espiritual que Jung e TH reconhecem. Contudo, se para estes autores a supradita integração é capital para a maturação espiritual, os cristãos ortodoxos estimam que precisa de ocorrer uma mudança do desamor para o amor; do ‘ego’ (o ‘eu’ sem Cristo) para o ‘eu’ autêntico (o ‘eu’ com Cristo).
Eu também tenho a certeza que toda a pessoa possui uma vertente espiritual, mas não posso acolher o que TH sustenta na esteia de Jung. A saber: que devemos fazer uma introspeção psicológica (que não chega à dimensão espiritual) em busca da nossa infinidade mais profunda e salvífica num ‘arquétipo colético’. A salvação cristã vem de fora; vem de Deus; vem do mais exterior feito o mais íntimo de nós (onde está a esfera espiritual que a psicologia não alcança).
Assim sendo, em TH há uma diluição panteística junguiana da diferença entre a natureza e o amor de Deus a ser-nos dado. Claro que a natureza já é efeito desse amor que também permeia a dita natureza, mas ignorando-se o Transcendente sobrenatural, meta e fonte do mesmo amor, acaba-se por desnaturalizar o natural. Eis, assim, o surgir de espiritualidades maníacas e de manias espirituais, também decorrentes dos escritos de TH não conduzirem a Cristo, mas a si.
Como disse Máximo o Confessor, a meta do ser humano é «ser, pela graça, o que Deus é pela natureza». Acontece que isto não é uma auto-apoteose de identificação absoluta, mas um dom total que respeita a diferença criatural. Mas seguindo Jung, TH reforça o subjetivismo e, assim, tal dom tende a desaparecer no relativismo e no individualismo, que também o levam fatalmente a negar o relevo do dogma e a distorcer o Corpo ‘místico-real’ de Cristo – a Igreja.
Ocorre que, por um lado, o ser humano em Cristo é um ‘nós’ e não um ‘eus’, e, por outro lado, cada dogma é um mínimo de termos que nos dão segurança na liberdade. Sim: o dogma impede que reconciliemos a mentira com a verdade e o mal com o bem, e isso, como se vê nos escritos de TH, é problemático para quem segue a um Jung que crê o mal e a mentira são neutros.
Todavia, para um cristão autêntico, a religião não seve ser um meio de justificar os próprios pecados, mas de os evitar cada vez mais, diminuindo a força do ‘ego’ e aumentando a do ‘eu’ e, assim, a do ‘nós’. Sei que o paganismo nietzschiano de Jung não dá alforria a TH para se orientar pelos afetos de Jesus. Mas a cada um o seu ‘barco’; e TH vai precisar de um maior (“Tubarão”).
É justamente este o motivo de TH não ver que a maturidade de que fala é uma imaturidade espiritual. Uma imaturidade sartriana que rejeita o transmitido em favor de uma experienciação sem limites e de um Cristianismo indefinido. Um em que não há um Caminho, mas em que cada um precisa de o edificar sem se orientar pela ‘agulha’ cruciforme da sua ‘bússola’.
Apesar TH não propor ações missionárias diretas, estou totalmente de acordo com ele quanto à importância de a Igreja ser ‘peregrina’ ou intencionalmente evangelizadora. E de o ser nomeadamente junto dos ‘Zaqueus’ que andam perto das ‘fronteiras’ do que é a fraternidade cristã. Por outras palavras: a Igreja não deve atacar o Mundo, antes servi-lo deferentemente, mas precavendo-se para que não seja moldada pelo mundano do comum dos ‘areopagitas’.
Dito isto, não me engano por quem se serve desses ‘leitmotivs’ para esconder uma espiritualidade traumatizada, traumática e da ansiedade sem resposta. Uma espiritualidade da neo-libertação, da rutura, da substituição, do discernimento avulso, da acusação rápida e sem reflexão das causas para o surgir do acusado, e, para não ir além, da junguiana neofilia populista.
Aqueles teólogos que, como TH, dizem escrever para quem ‘está fora da Igreja’ acabam a escrever para ninguém. É claro que a missão da Igreja pressupõe a escuta, a humildade e o diálogo com todos. Mas este diálogo só faz sentido se for orientado à conversão e não à indiferenciação junguiana pautada pela ideia da ‘fabricação’ de deus postulada por Lunacharsky.
Pude ler TH afirmar que tinha algo como «desdém» por quem não pensava como ele. Não seria melhor, como eu tento fragilmente fazer, adotar uma bondade epistémica e promover uma hermenêutica humilde face aos demais? Sim: Deus é mistério, como repisa TH, mas não um mistério qualquer. Ele é um Deus que é Amor misterioso e, assim, se é mistério, não é miséria.
TH acredita optimistamente no ressurgir da espiritualidade, mas não se pense que isso é garantia do crescer eclesial. Não é. Para a maior parte das pessoas, a espiritualidade confunde-se com os prazeres da vida diária, sem qualquer ligação ao que de objetivo há na mensagem cristã (notavelmente a realidade de «Jesus [ser] um facto!», como disse Flannery O’Connor).
Não tenho problema algum com «os prazeres da vida diária», mas não posso ignorar as dificuldades de diminuição e de crescimento. Claro que como junguiano, TH terá dificuldades em aceitar que os factos históricos interfiram nas expressões simbólicas da experiência interior, mas esse não é o caminho cristão. Não é o caminho das lágrimas de alegria do Sepulcro Vazio.
Defendo abertamente que devemos ter misericórdia para com Deus – e já treslera Jung o dito (para mim maravilhoso) de Nietzsche de que «o [n]osso amor [deve ser] piedade para com os deuses sofredores e velados». Mas será que isso, como sustenta TH, implica não dar respostas a perguntas, antes vivê-las pacientemente na ‘noite’? Não creio. Nos nossos dias repletos de alterações dramáticas, será mais saudável espiritualmente dar respostas convincentes e sérias.
Termino. Era bom que TH: se libertasse da altivez magnética de Jung e se apoiasse na humildade de Jesus; não deificasse a ‘psiquê’ nem ignorasse a metafísica com repetidas asserções paternalistas; não postulasse, como também fez Jung, que o inconsciente é sádio (apenas o consciente crístico o é); e, para não me estender, não defendesse a auto-ajuda (e, já agora, tudo o que é ‘auto-‘ e não ‘com-‘), pois é egoísta por excelência, como demonstrou Nicholas Lash.
Em suma: eu sei que a vida está difícil para quem deseja ser honesto, mas gostaria que TH deitasse fora (desapegando-se do seu ‘ego’) a ‘chiclete’ que o prende. Só faria bem ao seu ‘eu’ genuíno e a quem o viesse a ler daí em diante. Garanto. Seria como usar ‘fio espiritual’ para cuidar da ‘higiene do coração’ e não andar a colocar interrogações onde Deus pôs exclamações.