O acordo entre a União Europeia e o Mercosul é apresentado como moderno, sustentável, estratégico e inevitável. Quatro palavras respeitáveis. O problema começa quando se raspa o discurso e se encontra, por baixo do verniz, uma lógica antiga. Muito antiga. Tão antiga que nos leva diretamente a 1703, ao Tratado de Methuen.

Na altura, Portugal exportava vinho e importava tecidos ingleses. O negócio parecia razoável. Funcionava. Até deixou boa memória. O problema é que não criou indústria, não criou autonomia, não criou futuro. Criou dependência. Uma dependência confortável, civilizada, quase elegante, mas duradoura. Durou séculos.

Hoje, a escala é outra. Já não estamos a falar de dois países, mas de dois blocos continentais. Ainda assim, a mecânica é surpreendentemente semelhante.
A Europa vende indústria, tecnologia, máquinas, automóveis, marcas.
A América do Sul vende carne, soja, açúcar, minérios.

Não é que a América do Sul não tenha indústria. Tem. Mas é uma indústria frágil, muitas vezes dependente, quase sempre periférica. Monta carros que não desenha. Transforma recursos que não controla. Exporta volume onde outros exportam valor. A abertura quase total aos produtos industriais europeus dificilmente corrigirá isso. Pelo contrário: tende a cristalizar o papel que o sistema mundial lhe atribuiu há muito tempo – fornecedor de matérias-primas, consumidor de tecnologia alheia.

Quem ganha com isto?

Ganha a grande indústria europeia, que precisa desesperadamente de novos mercados para escoar carros, máquinas e sistemas. Ganha também o grande agronegócio sul-americano, altamente mecanizado, exportador em massa, pouco dependente da pequena exploração familiar.

Quem perde?

Perde a agricultura europeia tradicional, sobretudo a de média escala.
E perde, acima de tudo, a possibilidade de a América do Sul sair do lugar onde sempre esteve na economia mundial: integrada, mas subordinada; incluída, mas não decisora.

E Portugal?

Portugal não é a Inglaterra do século XVIII.
Também não é a América do Sul.
Está no meio.

A nossa salvação, se houver alguma, não virá da indústria pesada nem da tecnologia de ponta, onde somos estruturalmente fracos. Virá do mapa. Da geografia. Dos portos. Do Atlântico. Portugal pode funcionar como plataforma logística, como charneira entre continentes, como espaço de circulação e não apenas de consumo. Pode safar-se. Mas só se for inteligente. Só se souber o que está a fazer. Caso contrário, limita-se a assistir.

O acordo UE–Mercosul não é o Tratado de Methuen.
Mas rima com ele.

E a História, quando rima, costuma cobrar direitos de autor.