Este texto não é sobre Montenegro e Spinumviva, fala nisso, mas é sobre jornalismo.
Instalou-se, no espaço público, a ideia de que Montenegro inicialmente se recusou a dar explicações sobre a Spinumviva e, inicialmente, apresentou-a como uma empresa criada para gerir uma herança familiar e, talvez, fazer uma adega com os lucros.
A ideia é tão consensual que é repetida vezes sem conta, por alguns jornalistas, comentadores ubíquos e de maneira geral bem informados, como Susana Peralta, apoiantes não militantes como Pedro Adão e Silva, e até Pedro Garcias, na sua coluna semanal sobre vinhos, escreve, com certeza convencido de estar a escrever uma verdade inegável: “Já não nos lembramos, mas a primeira explicação que Montenegro deu para a existência da empresa era a de que tinha sido criada para gerir o património da família e que os proveitos obtidos se destinavam à construção de uma adega”.
A parte rigorosa do que escreveu está, no entanto, restringida ao “já não nos lembramos”, tudo o resto é falso (com uma pequena parte de verdade na eventual afectação de lucros à construção de uma adega).
O que é exemplar no conto que vou contar, é que a primeira vez que Montenegro falou sobre o assunto está perfeitamente documentada, foi na sua primeira intervenção no debate da moção de censura do Chega, em 21 de Fevereiro, que pode ser visto aqui.
É claro que não é Montenegro que resolve trazer para o debate os seus terrenos, é o Chega, a generalidade da oposição e a imprensa (desculpem o pleonasmo) que centram a moção de censura na questão do imobiliário e o associam à alteração da impropriamente chamada lei dos solos;
Montenegro começa a sua intervenção exactamente com as razões para a criação da Spinumviva, ligando-a ao facto de ter solicitações fora da advocacia, para as quais tinha, entretanto, feito alguma formação. Fala de facto nas partilhas da família, mas em complemento das razões principais.
Taxativamente, diz que decidiu fazer a empresa para o trabalho fora da advocacia.
Logo na sequência, diz que é um absurdo dizer que a actividade ligada aos terrenos é central para a empresa, falando no seu objecto amplo, que inclui consultadoria, exploração agrícola e turística, organização, planeamento e controlo de informação de gestão, gestão de recursos humanos e nesse objecto amplo refere que também está a gestão da tal herança.
Logo nessa altura faz uma descrição da facturação, totalmente assente na prestação de serviços, e descreve também os clientes, em termos tão pormenorizados que, ainda no decurso do debate, Pedro Nuno Santos identifica um desses clientes como sendo a Solverde.
Explica, inclusivamente, o pico de facturação que a empresa teve em 2022 e é evidente, a partir da descrição feita, que a saída de Montenegro da empresa leva a uma quebra de receitas substancial (na altura não o disse explicitamente, embora se possa perceber isso a partir da descrição da actividade recente da empresa que Montenegro faz, mas sabe-se hoje que a actividade da empresa afunila na protecção de dados, deixando de ter actividade relevante no apoio à gestão de empresas fora desse âmbito).
E, a certa altura, quando fala no destino dos lucros e na opção pela não distribuição dos resultados pelos sócios, lá vem a possibilidade de eventualmente investir numa adega e numa start-up tecnológica.
Sendo isto assim, como de facto se pode verificar na ligação para o debate em que Montenegro pela primeira vez fala na empresa, por que razão é tão espalhada e pacífica a ideia, falsa, de que Montenegro apenas falou na gestão da herança familiar, escondendo a actividade real da empresa?
A minha primeira explicação é que a generalidade das pessoas, como eu, se perguntam se vale a pena ir à procura de informação primária e contestar ideias feitas deste tipo, com largo apoio da imprensa, porque para aprender é preciso querer aprender, e há demasiada gente, no espaço público, com agendas claras e que jamais deixará que os factos influenciem as suas ideias.
O resultado mais provável é saltar-se por cima da informação primária verificável para se centrar a crítica na discussão das motivações escondidas para “defender” Montenegro, como se ser factual seja defender o que quer que seja, para além da decência.
A minha segunda explicação é a de que os jornalistas são excelentes leitores de jornais, com uma enorme reverência para com argumentos de autoridade, pelo que ao fim de três ou quatro afirmações taxativas de três ou quatro autoridades mediáticas, já ninguém vai verificar fontes primárias e muito menos está disponível para dizer a um desses colossos mediáticos que está a dizer uma coisa que totalmente falsa.
E assim se consolida, reforçando-se a cada repetição, a ideia, totalmente falsa, verificadamente falsa, de que Montenegro começou por justificar a Spinumviva com o seu sonho de produzir umas garrafas de vinho.