Longe vai o tempo em que a televisão nacional ostentava na sua variada programação de um domingo à tarde longas-metragens que colavam famílias mais ou menos numerosas ao ecrã. Tempos idos e malogrados, esses. A “coisa” agora é outra, mais alienada, até: programas que duram meia dúzia de horas, em directo, geralmente de uma pequena qualquer localidade em que haja uma festividade a acontecer, expositores, sonoridades de aspecto discutível, povo a quem se possa dar brindes publicitários sem utilidade alguma e uma bela dose de “760”, qualquer coisa, qualquer coisa.

Mas, no seio desta paródia que transpira o espírito domingueiro, importa reter a excentricidade destes eventos: o malandro do vírus, à primeira vista, não entra nestes terrenos! Há duas ou três semanas que é assim, especialmente no que diz respeito ao programa do género no canal quatro da grelha. Dão-se ao luxo (são uns rebeldes, pá!) de, imagine-se, pôr um autocarro descapotável, a caminhar a passo de um caracol paraplégico, com um indivíduo de barriga saliente na cimeira do veículo, de microfone na mão e a solicitar à massa humana que o acompanha cá em baixo para “saltar, saltar, saltar…” e fazer “barulhoooo…”. Todo este cenário idílico aconteceu com a Rita Pereira ao lado do rapaz, a dizer coisas banais, sem interesse (até um diálogo com uma fatia de presunto me suscitaria mais atenção). Adiante! Abaixo do autocarro apreciava-se um empolgante mar de gente, de braços erguidos em direcção aos céus, a maioria na casa dos 60 anos de idade, bem juntinhos e sem máscaras, na generalidade. Autoridades? Nem vê-las! Mas compreendo: é chato interromper uma festa patrocinada por uma estação  televisiva, onde os “festivaleiros” sexagenários, por norma com uma imagem de um arco-íris ou da Virgem Maria no perfil do Facebook, dançam com o seu semelhante, sem nada a temer: qualquer vírus que se preze, jamais irá abancar num evento no qual está a Mónica Sintra, a Micaela ou o “Zé do Pepino Maduro”.

São estes mesmos “festivaleiros” que condenam e insultam os jovens – em alguns casos sugerindo uma década de prisão – por se juntarem com os amigos para beberem uns copos, de modo a festejarem o final do ano lectivo. Neste caso, de pronto se vêem dispersados pela polícia. Sim, porque é mais simples desmobilizar uma ou duas centenas de adolescentes do que terminar com uma festa da estirpe “760…” com milhares de pessoas. Programas, esses, salvos do abismo mais bimbo pelas mostras gastronómicas e pouco mais. Adiante! Nem é tanto pelo vírus que este tipo de malta crucifica os jovens e respectivos ajuntamentos. A isso se junta, quer queiramos, quer não, uma inveja por já não o ser. Uma forma rasteira de despertar aquela máxima de quem já viveu o mesmo e que mergulha de forma quadrada no “se eu não saio, tu também não. Fiquem em casa, enclausurados”. É mais ou menos isso.

No saco das excentricidades estão, igualmente, as manifestações da extrema-esquerda sindicalista, da extrema-direita neofascista e de uma “Festa do Avante!” que teima ir… avante, perante uma crassa submissão e um silêncio estrepitoso por parte de quem manda. São factos! Vertentes curiosas, só vistas em regimes de cariz ditatorial, onde emerge a máxima de “dois pesos, duas medidas”. As cobaias e bodes expiatórios destas excentricidades, das quais o malandro do vírus parece não surgir, são os jovens, que pagam por tudo e quaisquer surtos. Sim, escorraçar a malta da calçada – e já que os bares encerram às 23 horas – é a solução desta pandemia, sem dúvida. Aliás, sabem aqueles 2400 adolescentes holandeses, vindos de Amesterdão, em viagem de finalistas? Pretendiam mesmo o quê? Que estes se sentassem nas esplanadas da Oura a ler Florbela Espanca e fossem dormir às 22 horas para estarem porreiros no dia seguinte para visitarem o Museu do Fado? Adiante, meus caros! É um vírus que se mostra malandro apenas para alguns, tal e qual como quem manda nisto.