À luz dos resultados eleitorais, multiplicam-se os diagnósticos: os portugueses votaram mal. Trocaram, dizem, a solidariedade pelo egoísmo, a razão pela raiva, a inclusão pelo preconceito. A esquerda, ou o que dela subsiste, apressa-se a imputar culpas: ao populismo, à ignorância, ao clima político global, às redes sociais, à imprensa, ao medo.

Tudo serve para justificar o infortúnio, menos a hipótese mais incómoda: a de que perdeu porque já não representa os seus. Não representa os aflitos, nem os trabalhadores, nem os pequenos empresários sufocados por impostos. Não representa os jovens que partem. A esquerda não caiu por acaso – caiu porque há muito que deixou de traduzir a vontade geral do povo, servindo antes a vontade de alguns imposta sobre todos os outros.

O povo não é estúpido. Quando vota, fá-lo com base na sua experiência, e não em abstrações ideológicas. Aqueles que vivem sob salários indignos, com serviços públicos em declínio, sem casa acessível nem futuro previsível, não querem saber se o PIB cresceu ou se a taxa de pobreza ajustada diminuiu. Querem que alguém os veja. Que os ouça. Que os leve a sério. O erro da esquerda foi confundir a vontade de todos – ou seja, a soma de interesses particulares de grupos ativistas, classes urbanas privilegiadas e aparelhos do Estado – com a vontade geral: aquela que nasce do sofrimento comum, do que une o país, do que se partilha independentemente da profissão, do sotaque ou do código postal.

Em vez de escutar, a esquerda preferiu julgar. Transformou-se numa casta moral, convencida de que tem o monopólio da decência. Quem se desvia da cartilha é racista, ignorante, reacionário. Ora, ninguém gosta de ser tratado com desdém, muito menos por aqueles que deviam estar ao seu lado. O povo pode aceitar a desigualdade com resignação. Pode tolerar a corrupção com cinismo. Mas nunca perdoa o desprezo. E foi isso que sentiu nos últimos anos: que se tornou um fardo para quem se dizia seu representante.

A análise convencional tende a descrever o voto no Chega como irracional, ou, no mínimo, emotivo. Mas quem dedicou tempo a entender Nietzsche reconhece, por trás desta escolha, uma expressão visceral da condição humana: o desejo de recuperar agência, de romper com o fatalismo político, de voltar a ter controlo. A política tornou-se, para muitos, uma estrutura opaca e impenetrável – moralista nos princípios, indiferentes nas consequências. O voto, nesse contexto, deixa de ser uma escolha e torna-se uma afirmação: “eu ainda posso decidir”.

O erro da esquerda foi presumir que bastava ter razão. Que bastava ter os factos. Que bastava denunciar o adversário. Mas quem está no limiar do desespero não procura explicações; procura impacto. Procura a sensação, ainda que ilusória, de estar no comando do seu destino. E o Chega, com todo o seu ruído e dissonância, oferece precisamente isso: a encenação de um poder recuperado.

Quando se ouvem comentadores a dizer que “a votação no Chega é a prova da estupidez de demasiados portugueses”, não se está a fazer análise política – está-se a praticar o mesmo desprezo que empurrou centenas de milhares de votos para partidos de rutura. Nem todos votaram assim por iliteracia. Votaram por vingança. Votaram porque estavam fartos de ser ignorados, de ser envergonhados, de serem tratados como um erro de cálculo.

Importa ainda mencionar que, durante demasiado tempo, o PS não foi apenas um partido – foi poder. E como qualquer estrutura que se cola ao Estado, atraiu todo o tipo de oportunismos. Ser socialista passou a significar pouco mais do que “estar do lado certo”: o lado dos concursos públicos, das assessorias, dos jantares com ministros. Quando o poder começou a escorregar, essa lealdade desvaneceu-se. Os que estavam com o PS não por convicção, mas por conveniência, saltaram. E muitos saltaram para onde se sentia força: para o Chega. O resultado é claro. Onde antes havia voto de pertença, hoje há voto de utilidade. Onde havia fidelidade partidária, há rotação de clientelas. A esquerda esqueceu-se de que o poder não é um direito; é uma delegação. E que os que o detêm por demasiado tempo sem se renovar acabam cercados de gente que lá está apenas enquanto compensa.

Curiosamente, a direita moderada não foi vítima da ascensão do Chega – pelo contrário, venceu. A Aliança Democrática, apesar da fragmentação do espaço político, resistiu sem perder eleitorado, tendo-o até conquistado. Isso mostra que o centro político continua a ser não só possível, como desejado. Há milhões de portugueses que não se revêem em extremismos, mas também já não acreditam na velha narrativa do progresso automático, fruto de défices crónicos. Esses eleitores continuam à espera de respostas realistas, sérias e estáveis.

E se o centro está a renascer à direita, é porque a esquerda o abandonou voluntariamente – por arrogância ou por medo de ser chamada centrista. Talvez esteja na hora de regressar a esse espaço, ou de, pelo menos, o começar a disputar.

A esquerda não foi traída pelo povo. Foi abandonada por já não ser o que prometia, ou por insistir em promessas que já não cativam a populaça. E o mais trágico é que, em vez de se perguntar “o que fizemos para chegar aqui?”, pergunta apenas “como é que eles ousam votar noutros?”. Enquanto continuar a olhar para os eleitores como um problema, em vez de como um espelho, continuará a perder. Ir para as redes sociais chamar de fascistas ou xenófobos os que votaram no Chega não só não reverte nada como mostra que ainda não perceberam por que razão perderam. É evidente que há eleitores do Chega com motivações abjetas, e ninguém deve fingir que não existe racismo em Portugal – mas reduzir mais de 1,3 milhões de votos a isso é insultar ainda mais o povo que se diz defender.

Não se reconquista o povo insultando-o. Reconquista-se representando-o. E quando o povo deixa de se rever nos que o deveriam servir, não é ele que se afastou da democracia – são eles que se esqueceram do seu ofício. Parafraseando Nietzsche, não há forma mais eficaz de corromper uma sociedade do que ensinar os seus membros a estimar mais quem pensa como eles do que quem ousa pensar diferente.