A estratégia de combate à Covid-19 que está a ser seguida em Portugal e na generalidade dos países consiste em reduzir ao mínimo o contacto entre pessoas através do afastamento social com o objetivo de “achatar a curva” para diminuir o pico de afluência aos hospitais, que têm capacidade muito limitada – pessoal, material, ventiladores… – enquanto esperamos que seja desenvolvida uma vacina. Chamemos a esta estratégia “quarentena generalizada” – ainda que esteja muito longe do lockdown completo à Chinesa.

Esta quarentena generalizada ganha tempo precioso para o Serviço Nacional de Saúde, mas tem, infelizmente, dois problemas fundamentais.

Do ponto de vista epidemiológico, parece claro que vamos chegar ao fim da quarentena sem que haja imunidade substancial da população. À data em que escrevo (24 de março) há 2,362 casos confirmados (testados) em Portugal. Assumindo que o verdadeiro número de infetados (incluindo os não testados) seja de 20,000 e que este número dobre todas as semanas, chegaremos à Páscoa com cerca 160,000 casos, o que representa apenas 1.5% da população – na verdade penso que o número venha a ser muito menor que este. Posto de outra forma, mais de 98.5% da população vai continuar suscetível à epidemia! Se nessa altura acabar a quarentena, vamos ter mais cedo ou mais tarde um novo surto. E então o que fazemos? Retomamos a quarentena? Vamos ter uma sucessão de surtos e quarentenas até que seja desenvolvida uma vacina, o que pode levar um ano e meio?

O segundo problema é económico. Esta semana a Universidade Católica divulgou projeções para o impacto da epidemia na economia Portuguesa. Prevê-se uma queda do PIB entre 4% e 20%, com um cenário central de 10% – uma perda de rendimento de mais de vinte mil milhões de euros! Para comparação, em 2012, o pior ano da crise financeira recente, o PIB caiu apenas 4%.

Neste cenário central, ainda de acordo com a Universidade Católica, o desemprego poderá passar dos 6.5% atuais para 10.4% ainda este ano e o défice orçamental será certamente superior a 5% – estimativa minha para uma recessão desta magnitude. Este custo económico é colossal!

Para além do custo para as famílias Portuguesas desta queda de rendimento e aumento do desemprego, não é óbvio que o Estado – que já tem uma dívida superior a 120% do PIB – consiga financiar o défice e, por conseguinte, consiga manter as medidas de apoio à economia. Bem sei que o BCE vai aumentar o programa de compra de dívida pública, mas temos, infelizmente, ampla razão para ceticismo sobre a solidariedade europeia… Espero sinceramente que haja alguma mutualização da dívida, mas não faria planos a contar com isso.

Se tivermos uma sucessão de surtos e quarentenas durante mais de um ano, o custo económico é incomportável.

Parece-me que devemos começar a pensar seriamente na evolução da estratégia para a segunda fase do combate à epidemia a implementar (cautelosamente) a seguir à Páscoa: o fim da quarentena generalizada e a implementação de uma “quarentena direcionada”, concentrando os recursos na proteção da população de risco – idosos e pessoas com doenças crónicas – enquanto relançamos a economia.

Isto implica, por um lado, ir reabrindo gradualmente escolas, empresas, comércio e fronteiras e, por outro lado, que se direcionem os recursos de saúde para a proteção da população de risco até que chegue a vacina: quarentena rigorosa, testes periódicos aos próprios e cuidadores, desinfeção e material de proteção…

Esta estratégia de quarentena direcionada também tem custos elevados uma vez que vai levar ao contágio de uma maior proporção da população. Mas, para os mais jovens e de boa saúde, o risco do Covid-19 parece ser relativamente baixo e, na grande maioria dos casos, não requer assistência médica. Isto é, mesmo que a infeção seja rápida num grande número de pessoas deste grupo, não resultará na afluência em massa aos serviços de saúde. (Note-se que a estratégia atual prevê que a população geral seja eventualmente infetada, pretende-se apenas distribuir a epidemia ao longo do tempo – um tempo que vai ser muito longo e muito custoso ao ritmo atual.)

Se mantivermos a estratégia de quarentena generalizada durante vários meses, a economia não sobrevive. E uma recessão desta ordem de grandeza causa muita miséria humana! Pode ser menos visível nas redes sociais, mas é igualmente real.

Uma nota final que me parece fundamental: A falta de dados sobre a epidemia é aflitiva. Estamos a testar tão pouco e de forma tão enviesada que não conseguimos estimar com um mínimo de fiabilidade números tão fundamentais como as taxas de infeção ou de mortalidade do Covid-19. Devíamos começar imediatamente a testar todas as semanas uma amostra (aleatória) da população. Só é possível tomar decisões razoáveis, com dados de qualidade!