Agora que os pais têm estado em casa com os filhos, pode ser que estejam a reparar mais no que eles estudam na escola. Foi o caso de uma amiga, quando leu uma peça de teatro do seu filho no 8º ano da escola pública, chamada “Vanessa Vai à Luta”. A peça acaba assim: “Seis meses depois. Vanessa está sentada na sala, de metralhadora em punho, ao lado do berço. Ouve-se o choro do bebé… Quando cresceres, forte e bonita, vais poder ser aquilo que quiseres. Podes ser  taxista, se quiseres. Podes ser polícia. Ou astronauta. Piloto de corridas de automóveis. Podes ser professor de karaté e os rapazes vão gostar muito de ti, muito, muito. Se não gostarem, pior para eles. Podes ser guerreiro do espaço. Tudo o que quiseres. Futebolista. E ai de quem nos disser que não. Deixa comigo. Eu estou cá para te proteger. Dorme. Não te preocupes. Eu trato de tudo.’”

Esta peça foi escrita por Luísa Costa Gomes, com o apoio da escrita dramatúrgica pela Fundação Gulbenkian, encenada por Manuel João Borges, em 1998, na Igreja do Convento de S. Francisco pela Companhia de Teatro de Portalegre. A leitura encontra-se na página 74 do Referencial da Educação para a Saúde e no Manual “Diálogos 8” para a disciplina de Português.

Ao ler o argumento, percebe-se em Vanessa uma personagem de carácter forte e com vontade de mudança. No entanto, para além de apresentar qualidade literária e dramatúrgica questionável, esta peça apresenta uma ideologia errada e nefasta, especialmente para jovens do 8º ano.

Qual luta, Vanessa? Gostava de perguntar à “criadora” da “Vanessa” qual é a luta dela. Luta implica usar ou desenvolver ferramentas interiores para superar um obstáculo exterior. A Vanessa tem sete anos e está revoltada porque os pais não querem que ela brinque com brinquedos mais associados a meninos. Ela sente que tem que lutar contra uma injustiça que não lhe permite tomar todas as opções que gostaria.

Na verdade, a Vanessa é livre para ser taxista, polícia, mesmo que tenha que lutar contra a opinião dos seus pais quando for maior de idade e mesmo se tiver que, com luta, ganhar o seu próprio dinheiro e seguir a sua escolha de formação. Aliás, isso sim, seria uma verdadeira luta: se a Vanessa superasse a adversidade para chegar a uma meta.

Pelo contrário, a Vanessa está a “lutar” contra os seus pais. Mesmo que os pais da Vanessa tivessem uma opinião errada, eles não teriam direito de a exprimir sem censura? Em vez de serem calados com ameaça de metralhadora? A luta da Vanessa consiste em ser mal-educada com os pais, de não lhes responder ou responder mal, de os desprezar e caricaturar num estereótipo de antiquados e ignorantes.

O feminismo liberta da cozinha e da limpeza? Esta peça toca-me pessoalmente, eu que escolho por livre opção, ficar em casa a cuidar dos meus filhos pequenos. Muito deste trabalho inclui “espanadores, aspiradores, esfregonas, baldes, tachos e panelas” como diz a Vanessa, para além das partes mais sujas das fraldas e roupas. Considero o cuidado da minha família e da nossa casa a tarefa mais nobre possível. O discurso da Vanessa desde o início ao fim da peça é de um de feminismo exacerbado.

O feminismo vem libertar a mulher de quê? Das panelas e dos tachos? Ou não será libertar a mulher para ela poder tomar a sua opção livremente? Que nenhuma opção esteja fechada à mulher, que pelo seu trabalho e esforço igual ao do homem possa aceder a qualquer campo de saber e ocupação que ele tem. No entanto, não é preciso desprezar o trabalho de cozinhar e limpeza. O que diz a Vanessa a uma mãe de família, como eu, que conto cada acto de cozinhar e limpeza como acto de amor para os meus filhos? O que diz Vanessa a uma senhora de limpeza numa escola ou num hospital, que o seu trabalho não é digno? O que diz a Vanessa a uma cozinheira num café ou restaurante, que devia de fazer um tiroteio aos seus clientes?

A Vanessa parece supor que o feminismo acaba com a feminilidade. Se isto assim fosse, seria a imposição dum regime ainda mais asfixiante. Todas as mulheres teriam que escolher profissões e brinquedos geralmente mais escolhidos por homens. Todas as mulheres teriam que adoptar, quer queiram quer não, qualidades mais naturalmente masculinas.

O feminismo deve garantir que todas as opções estejam abertas para as mulheres. Algumas mulheres podem querer continuar a escolher profissões mais naturalmente associadas à maternidade, como ficar em casa com os filhos. Algumas podem querer escolher profissões mais competitivas ou com mais exigência física, como professora de karaté ou polícia. Algumas meninas podem querer continuar a brincar com bonecas. Outras meninas podem querer brincar com carros ou armas. O feminismo deve abrir mais possibilidades para as mulheres, mas não anular a feminilidade e especialmente à força ou com uma metralhadora. Interessante como há tantas notícias que correm de school shootings e de controlo de armas especialmente nos Estados Unidos, e a solução para o problema desta peça é a violência com uma arma de fogo.

A nossa sociedade é herdeira duma grande cultura ocidental onde começaram as universidades (a Universidade de Coimbra foi fundada em 1290) e onde se defendeu a liberdade de expressão e o diálogo. Havia diálogo na cultura grega e diálogo nas primeiras universidades medievais com o “disputatio”. Hoje em dia, na esfera pública, não se pode dialogar com alguém que tenha uma opinião contrária. Há uma verdadeira censura e imposição da opinião considerada “certa”, como a da Vanessa, pela violência. Não é preciso ler só livros antigos para ler livros bons, mas convém ler os clássicos para perceber o que é bom, pois perduraram no tempo. E assim se reconhece a boa qualidade literária na literatura actual. Assim se podia dizer na arte e na música. Um pianista moderno não terá uma lacuna se não sabe quem é Mozart e não consegue tocar uma peça dele? Um pianista moderno poderia compor boa música se não estudou antes peças clássicas?
Para além da ideologia errada desta peça, a qualidade literária e cultural poderiam ser melhores. Será que a autora, Luísa Costa Gomes, já leu a “Antígona” de Sófocles? Se leu, não se reflecte na sua escrita. Imagino que seria mais benéfico para o(a)s aluno(a)s do 8º ano o nosso país a exposição desta peça “Antígona”, um excelente exemplo de heroína feminina.

Um apelo aos pais, aos professores e ao Ministério de Educação para que considere substituir a peça “Vanessa Vai à Luta”, uma tragédia de escolha por ser manifestamente ideológica e redutora, por uma peça cuja qualidade passou a prova do tempo, por exemplo a “Antígona” de Sófocles. Ou então qualquer outro dos textos e substituição do programa do 8º ano, como por exemplo “O Adamastor” de António Pina. Proponho aos pais e aos professores que vão à luta pela educação dos portugueses.