Recentemente, cerca de 130 cientistas e académicos de diversas universidades de todo o mundo assinaram uma petição apelando a que a vacina da Covid-19 fosse considerada como um Bem da Humanidade acessível a todas as pessoas. Será possível?

O que assistimos desde o surto do coronavírus em Wuhan na China é semelhante ao que aconteceu em 1916 nos Estados Unidos com o vírus da poliomielite, ou pólio, que, em vez da população mais idosa, como no caso da Covid-19, atingia mais as crianças. Tudo começava com uma febre, depois a paralisia e, numa parte significativa dos casos, o desfecho era fatal. Nesse ano morreram cerca de 6000 pessoas, e milhares ficaram paralisadas para toda a vida. Existem certos traços na história da vacina do pólio, relatada por Jeffrey Kluger no seu livro Splendid Solution, que poderão servir para entendermos o que fazer, hoje, em relação a esta pandemia.

Pólio

Em 1921, esta doença de paralisia infantil atingiu Franklin D. Roosevelt que acabou por criar a Fundação Nacional para a Paralisia Infantil dedicada à investigação de uma vacina para o pólio. Mas somente a 12 Abril de 1954, após um período duro de trabalho e luta contra a desinformação, rivalidades científicas, e outras adversidades, a Fundação anuncia ter uma vacina graças a uma pessoa, Jonas Salk.

Jonas Salk (1914-1995) nasceu em Nova York numa família de origem judaica. Em criança lia muito, era séria e curiosa. Apesar de desejar estudar Direito para seguir uma carreira política, a City College onde estudava tinha o hábito de orientar os curriculos dos seus estudantes para disciplinas completamente diferentes, de modo a assegurar que esses estariam a fazer as escolhas certas. No caso dos estudantes de Direito, como Salk, com o olhar voltado para as cadeiras do Congresso americano antes de chegarem aos trinta anos de idade, mandavam-lhes para as aulas de química. Se não fosse essa política de ensino, talvez a história da vacina para o pólio fosse diferente.

A inovação de Salk consistia em estimular o sistema imunitário para a criação de anti-corpos contra o vírus, usando pequenas doses de vírus morto. Na altura, toda a atenção estava voltada para o recurso a pequenas e inofensivas quantidades de vírus vivo. Esta segunda opção possuia a vantagem de poder ser uma vacina introduzida pela boca, em vez de uma seringa como no primeiro caso. Porém, embora seja uma solução mais prática, sobretudo para aplicação em massa como nos países em vias de desenvolvimento, os resultados não são tão eficazes como a vacina baseada em vírus da poliomielite mortos, como na ideia de Salk.

A experiência de Jonas Salk com a vacina do pólio é útil para entender o percurso a fazer na actual situação de pandemia para encontrar a vacina do coronavírus por dois motivos: lidar com a desinformação; e ponderar a vacina com Bem da Humanidade.

Desinformação

A desinformação no tempo de Salk fazia-se usando pedaços de verdade dispostos de tal forma que acabavam por distorcê-la. O triste entretenimento que Donald Trump proporciona ao mundo com as suas intervenções mediáticas levou a que a situação da Covid-19 nos Estados Unidos atingisse proporções talmente invulgares para um país que afirma ter os melhores médicos e laboratórios do mundo.

O mundo vive de elevados fluxos informação e quando esses são manipulados para entreter, todos pagamos o preço. Pelo facto da capacidade que temos de transmitir informação ser imensa, incluindo a que desinforma, corremos o risco de prejudicar os trabalhos daqueles que se esforçam por encontrar uma vacina para vírus letais como este.

O modo temos de combater a desinformação é simples: não partilhar. Mas essa atitude deve ser acompanhada de uma procura pelas fontes seguras de informação. Daí que o papel dos jornais e revistas credenciados é mais importante hoje do que nunca.

Bem da Humanidade

No percurso para superar a actual pandemia, a importância de uma vacina é tal que deveria ser considerada um Bem da Humanidade, acessível a todos, independentemente da nação, raça ou religião.

No caso da vacina da poliomielite, o Presidente Eisenhower deu ordem para partilhar a fórmula, gratuitamente, com 75 países, incluindo a União Soviética. Mas hoje vivemos numa sociedade global, e foi neste contexto cultural que a neurocientista francesa, Catherine Belzung, propôs uma iniciativa que nos envolve a todos. Diz Belzung estar — ”a pensar em todas as pessoas que estão doentes, nas pessoas que morreram, sabendo que a única solução é dispôr de uma vacina. E questionei-me: como será possível aos países pobres ter a vacina? O único modo seria colocá-la à disposição de todos, e os governos deveriam disponibilizá-la gratuitamente.” O desafio desta solução está no custo associado à propriedade intelectual.

Depois de anunciada a vacina, Jonas Salk recebeu em sua casa imensas cartas de agradecimento vindas de todo o mundo, mas também dinheiro oferecido por pessoas a título individual, ou comunidades, como acto de pura generosidade. Salk doou tudo o que recebeu à Fundação que apoiou a sua investigação.

Cada vez que um país sofre com um desastre natural, graças à conectividade digital planetária, o mundo inicia toda uma onda de solidariedade para apoiar financeiramente esse país. Do mesmo modo, no caso da vacina da Covid-19, poderia ser criada uma onda de solidariedade em que não só os países, mas cada pessoa, pudessem contribuir para apoiar o laboratório que descobrir a vacina, as empresas responsáveis pela produção das mesmas, e as que garantiriam a sua distribuição por todos os países do mundo — segundo o manifesto de Belzung, supervisionada por uma entidade reguladora credenciada.

Há mais humanidade em dar do que em cobrar. Por isso, o valor de algo com tamanho impacto humanitário suplanta o seu valor financeiro e adquire uma conotação ética que inclui também o crédito dos inventores.

Um apelo mundial

Salk deu o crédito da sua invenção a 1.8 milhões de crianças, e outras pessoas envolvidas na Fundação Nacional para a Paralisia Infantil criada por Roosevelt, em vez de focar na sua pessoa ou equipa (uma gafe que viria a ser superada mais tarde). Nesse sentido, não seria lógico que a vacina com Bem da Humanidade pudesse ser uma expressão de todos nós que o pedimos a uma só voz? Foi com esse propósito em mente que Catherine Belzung iniciou um apelo que todos podemos assinar.

Petição para que a vacina contra o Covid-19 seja de domínio público

A pandemia da Covid-19 alterou o nosso modo de vida de um momento para o outro. Esta não é a primeira pandemia da história humana, ou a primeira corrida para encontrar uma vacina. Sabemos que podemos aprender com o passado, mas teremos coragem para isso? Ou ficará a nossa acção presa por questões financeiras ou de dar o devido reconhecimento a quem merece?

Este não é o tempo para exigir reconhecimento (esse virá), ou de enriquecer à custa do sofrimento e do medo (devida compensação chegará). Este é o tempo de sermos uma só família humana, onde muitas e diferentes vozes se juntam num só apelo mundial.