No fundo, as biografias que escrevemos de figuras públicas que nunca chegámos a realmente a conhecer são muito mais biografias de nós mesmos. De quem éramos antes de descobrir o biografado e de quem somos depois. Do que nos deu, de como nos transformou, de como, eventualmente, o abandonámos. Porque, se a nossa perceção sobre Vasco Pulido Valente mudou ao longo dos anos, não foi certamente porque VPV mudou – VPV não era dado a esse tipo de frescura. Nós é que mudámos.

Para um jovem aspirante a escritor e cronista, VPV teve, durante anos, o mais elevado dos estatutos possíveis na imprensa: o de razão de se comprar o jornal.

Primeiro na edição de sábado do DN, diluído entre outras boas razões: o DNA de Luís Osório e Pedro Rolo Duarte, o DN+ de Nuno Galopim, a crónica de abertura de João Lopes desmontando as imagens mais emblemáticas da semana ou as reflexões de Adriano Moreira sobre a política internacional. Depois, já num Público que ficava cada vez mais magro, resistindo como esteio e motivo daquele euro e tal entregue no quiosque todas as manhãs. O pretexto para, já que estávamos ali e ele só vinha na última página, desfolhar todo o jornal, parando aqui e acolá, como em suaves preliminares.

Durante anos, VPV representou para nós a crónica curta sempre certeira, infalível. A frase breve, o adjetivo implacável, a passada de tal modo certa que, no fim, nunca ficava uma palavra a mais nem outra por dizer.

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