Os vencedores já sabemos, simplificadamente, quem são. António José Seguro com a sua campanha serena e sem se deixar afectar pelos socialistas, que o tentaram menorizar, é o grande vencedor desta primeira volta das presidenciais. E, claro, André Ventura que, apesar de ter tido menos votos do que nas legislativas, declarou-se já como líder da direita, perspectiva que tem todas as condições de reforçar na segunda volta, com todas as consequências que daí vêm para o Governo.
Luís Montenegro, Luís Marques Mendes, Henrique Gouveia e Melo e João Cotrim de Figueiredo são os grandes vencidos da noite, uns enfrentando desafios mais complexos do que outros. Como vencidos foram os partidos à esquerda do PS. E se dúvidas existissem, estas eleições voltam a mostrar que o país virou à direita e que há uma parte dele, especialmente o mais jovem, que anseia por soluções que não considerem ser mais do mesmo. E é aqui que vamos então primeiro para as preferências reveladas nesta primeira volta destas eleições.
E a primeira lição, exposta nas preferências reveladas pelos eleitores, é que Luís Montenegro tem de fazer, não só mais e melhor, como diferente. Tem de ter mais visão e mais coragem para que se vejam resultados e não apenas anúncios. Nada que não esteja a ser identificado pela maioria dos analistas, com alertas dos mais diversos. Se o primeiro-ministro continuar a fazer uma gestão corrente do Governo, sem rasgo nem coragem, está condenado e vai conduzir o país para os braços de André Ventura.
A segunda revelação destas eleições é que é mais castigado o candidato alvo de suspeitas de ter ganho muito dinheiro, com a sua profissão de advogado de negócios, do que um candidato suspeito de assédio. Luís Marques Mendes não soube – ou não quis – defender-se das suspeitas que lhe foram lançadas por Henrique Gouveia e Melo e viu a sua preferência nas sondagens afundar-se, para acabar com uma derrota histórica para quem foi apoiado pelo PSD.
João Cotrim de Figueiredo escolheu um modelo para se defender das suspeitas de assédio que, em si, seria ilustrativa dessas mesmas acusações. Bastaria ter dito que era mentira e que ia recorrer aos tribunais, mas escolheu ir mais longe, ele e a sua equipa, lançando-se contra a potencial vítima e até contra a comunicação social. Mas, aparentemente, os eleitores não o castigaram – ou castigaram-no pouco, o que poderemos saber com mais rigor quando existirem estudos eleitorais. Tudo isto pode revelar uma hierarquia de valores marcada pelo machismo – sim, a palavra está fora de moda, mas o seu conteúdo, pelos vistos, não está -, em geral sonso e disfarçado de modernidade. Ou pode ser uma tendência reforçada por uma reacção à cultura woke.
A própria batalha política reflectiu essa hierarquia de valores mais amiga de atitudes marialvas e menos amiga do sucesso financeiro. Henrique Gouveia e Melo não se coibiu de lançar suspeitas sobre a actividade profissional de Luís Marques Mendes, sem provas concretas. Mas não houve um candidato que quisesse fazer uso das suspeitas de assédio que recaíram sobre João Cotrim de Figueiredo. Neste domínio é interessante verificar como o argumento, no caso do assédio, é o da falta de provas e até a necessidade de se esperar pelos tribunais. Argumento que não foi usado para Marques Mendes.
Luís Marques Mendes cometeu o grave erro de considerar que bastava ter notoriedade, tal como aconteceu com Marcelo Rebelo de Sousa, para ganhar eleições. Dizer hoje que tinha a rejeição do PSD é não recordar que partiu para estas eleições como um dos preferidos, acabando como um dos grandes vencidos. E essa tendência só parece demonstrar que cometeu erros durante a campanha, nomeadamente por não ter reagido devidamente às acusações de Henrique Gouveia e Melo. Porque é que não explicou o que fazia profissionalmente é uma questão que ficará em aberto.
Outra questão é o que ganhou Henrique Gouveia e Melo com a sua estratégia de luta na lama. O almirante partiu também para esta campanha como um dos preferidos e acabou na galeria dos vencidos. Quis destruir Marques Mendes e afundou-se com ele. Erro da estratégia de campanha? Outro tipo de cumplicidades que o futuro poderá revelar? Não sabemos.
Vencido é igualmente João Cotrim de Figueiredo. É preciso recordar que foi o candidato da Iniciativa Liberal o primeiro a lançar suspeitas contra Marques Mendes, tendo depois recuado no debate com ele. Fez de facto uma campanha notável, conseguindo sair da liga dos últimos, mas pode ter sido sobrevalorizado, fruto exactamente da notoriedade que conseguiu. Na última semana de campanha, marcada pela suspeita de assédio e pela posição sobre André Ventura, acabou por revelar um perfil que, se era do conhecimento de alguns, não o era da maioria. Sem sabermos as consequências que tudo isso teve, o certo é que o seu resultado eleitoral acaba por ser bastante afastado das ambições que teve de ir à segunda volta.
Finalmente Luís Montenegro que é sem dúvida o vencido que enfrenta desafios mais difíceis de ultrapassar. Neste momento, como dizem os brasileiros, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Se apoiar André Ventura corre o risco de dividir ainda mais o partido – e de sair de novo derrotado. Se apoiar Seguro pode dividir menos o partido, mas dá campo aberto a Ventura para o seu discursos anti-sistema. Mas o pior dos seus problemas está para chegar ao longo deste ano. Tudo indica que Ventura não ganha as presidenciais, mas vai ter uma votação que lhe permite dizer que é o líder da direita. O que fará Ventura com essa liderança? Mais do que responder a essa pergunta, Montenegro vai ter de ser capaz de ter um golpe de génio que faça o seu eleitorado acreditar, especialmente o mais jovem, que está a resolver os problemas do país. Tem à sua frente um desafio de sobrevivência.