Em 2016, quando foi eleito pela primeira vez, Donald Trump afirmou várias vezes que os Estados Unidos deveriam deixar de ser o polícia do mundo: deixar de pagar a defesa dos seus aliados, deixar de intervir militarmente em países estrangeiros e, acima de tudo, deixar de participar em guerras eternas. Há menos de dois anos, o seu actual vice-presidente, JD Vance, afirmava que o isolacionismo era um bom motivo para apoiar Trump.

No seu segundo mandato, Donald Trump já bombardeou o Irão, capturou um chefe de Estado de outro país (Nicolas Maduro) e ameaça agora, de forma repetida, uma intervenção na Gronelândia, um território de um país aliado e democrático. Nestas matérias, as previsões raramente acertam. Ainda assim, não creio que seja provável uma acção militar contra a Gronelândia. Trump tentará obter o controlo da Gronelândia por outras vias. Por outro lado, quer as operações na Venezuela, quer as aspirações relativamente à Gronelândia representam uma ambição expansionista norte-americana no hemisfério ocidental.

O que motiva este expansionismo estratégico e geopolítico de Donald Trump no seu segundo mandato, em contraste com as suas posições isolacionistas iniciais? O que pensa a sua base eleitoral (MAGA), que supostamente é contra o intervencionismo militar dos EUA no resto do mundo? Como conciliar as motivações de uns e de outros? São perguntas repetidas quer por parte daqueles que tentam perceber a ideologia e a mundivisão de Trump, quer por parte daqueles que desejam entender a lealdade eleitoral dos seus apoiantes.

Alguns respondem que Donald Trump arrisca perder apoio eleitoral sempre que inicia acções aparentemente impopulares e de fim imprevisível. Quantas guerras, que mais tarde se tornam impopulares, começaram porque as partes calcularam mal? Ninguém deseja começar uma guerra eterna: no início, todas as operações são pequenas e contidas. As guerras eternas surgem porque é impossível controlar tudo e todos, muito menos as reacções dos outros, sejam eles inimigos, terceiros ou complicações locais.

Outros respondem que nem Trump nem os seus eleitores têm uma ideologia coerente que guie a sua acção, mas sim estados emocionais e opiniões instáveis, frequentemente irracionais e facilmente intrujáveis. Segundo esta corrente, entre flutuações emocionais e ideológicas, a administração Trump vai tomando decisões ao sabor do momento. A sua base eleitoral aceita tudo porque segue sempre o líder e o sentimento de grupo.

Creio que esta explicação deixa muito a desejar e subvaloriza as motivações políticas e ideológicas de todos – políticos e eleitores. Ignora a complexidade humana e a diversidade interna das elites políticas e dos seus apoiantes.

Há outra explicação. Os eleitores rejeitaram guerras eternas em 2016 porque, após quinze anos de intervenção no Médio Oriente, estavam fartos de suportar os custos financeiros, humanos, militares e reputacionais daquelas guerras, que pareciam não trazer grandes benefícios. Em abstracto, ninguém apoia desperdiçar recursos ou começar guerras só porque sim. No entanto, isto não significa que, mudando o contexto e as motivações apresentadas, os mesmos eleitores rejeitem novas intervenções. Especialmente porque as consequências de longo prazo são frequentemente imprevisíveis e, por isso, omitidas dos cálculos.

Todos nós temos múltiplas posições políticas em simultâneo, sobre variados assuntos. Frequentemente, estas crenças e intuições são inconsistentes entre si. Os mesmos eleitores que não gostam de intervenções externas valorizam recursos naturais abundantes e riqueza. Valorizam também controlo fronteiriço e políticas anti-imigração. Querem combate duro contra o tráfico de droga e cartéis violentos da América Central e do Sul e desejam derrotar simbolicamente regimes socialistas. Todas estas justificações podem ser mais ou menos correctas, mas são apresentadas aos eleitores.

E, claro, os mesmos que dizem não gostar de guerras eternas e de ser polícias do mundo gostam de projectar uma imagem simbólica de força dos EUA no mundo. Isto não quer dizer que as preferências sejam vazias, nem que o apoio seja incondicional, mas sim que os políticos podem jogar com as motivações múltiplas dos eleitores. As várias componentes ideológicas nem sempre se harmonizam de forma perfeita e geram contradições e múltiplos caminhos possíveis de acção.

Com Trump, aconteceu algo análogo. Na sua base temperamental, é avesso a começar guerras. Mas também sabemos que o mesmo adora projectar uma imagem de força. São duas inclinações ligeiramente contraditórias. Sabemos que Trump não confia nos (ex-)parceiros da NATO e da Europa, que lhe parecem militar e ideologicamente fracos e, ainda por cima, caros. E, quantas mais operações bem-sucedidas e sem resistência colecciona no continente Americano, menos avesso fica a futuras acções. O problema, claro, é a hubris.

A Casa Branca deu várias justificações para a intervenção na Venezuela: narcotráfico, petróleo, natureza do regime, imigração, etc. Provavelmente, várias elites da administração tiveram motivações diferentes para o mesmo curso de acção, sendo necessárias somar várias justificações para formar uma coligação. Mas, lendo o substrato, há duas explicações estruturais que não podemos ignorar.

Primeiro, os presidentes norte-americanos têm muito mais margem de acção e muito mais poder em política externa do que em política doméstica, onde estão constrangidos por tribunais, burocracias, instituições domésticas, governos estaduais, partidos políticos e considerações eleitorais. Pelo contrário, em política externa, os constrangimentos institucionais são mínimos, perante a fraqueza do direito internacional e a força da hegemonia norte-americana.

Em segundo lugar, é inegável que estas operações – sobretudo as aspirações na Gronelândia – assentam numa visão coerente do papel dos EUA no palco internacional. Essa visão consiste, entre outras coisas, em enfraquecer a NATO e a ligação à Europa e em dominar o hemisfério ocidental de forma mais assertiva.

No essencial, a visão da administração Trump assenta na premissa de que o domínio dos EUA não se deve basear na legitimidade normativa de uma ordem global liberal, onde os aliados confiam no Estado norte-americano e cooperam voluntariamente para a sustentar. Essa ordem só funciona se os outros países observarem que o poder hegemónico os protege com autocontenção (self-restraint) e boa-fé. E se os aliados mais fracos confiarem na credibilidade das promessas norte-americanas (da defesa à economia) e na sua provisão de bens comuns globais.

Pelo contrário, na visão de Donald Trump, as grandes potências – EUA, China, Rússia – não têm de pedir licença a ninguém. Não precisam de legitimidade nem de instituições de cooperação; muito menos de autocontenção. Podem usar a força para obter o que querem nas suas regiões.

O que poderá correr mal com esta visão? Muita coisa. Primeiro, a cooperação, a previsibilidade e a estabilidade são eficientes e vantajosas. Nem grandes potências têm capacidade para dominar pela força bruta em todo o lado e ao mesmo tempo: a atenção e os recursos são sempre limitados.

Em segundo lugar, como salientou Gideon Rachman, trocar o domínio norte-americano do hemisfério ocidental pelo domínio chinês da Ásia e do Pacífico será o negócio do século para a China, considerando os contornos da economia e da população globais. Acrescento a seguinte questão: a prazo, quererão os EUA ser número um regional, mas número dois global?

Terceiro, quando os mais fracos apenas obedecem por medo – e não por vontade de cooperar em nome da confiança mútua e de valores – esta obediência gera ressentimento e afastamento. Isto não é apenas um problema psicológico. Se a cooperação se baseia unicamente no medo, e sem travões aos caprichos e à violência do elo mais forte, os outros começarão a procurar outside options. Ou seja, começarão a procurar alternativas noutros poderes globais e regionais para obter negócios mais vantajosos, bem como mais autonomia e independência. Gradualmente, a antiga coligação dissolve-se. Esta dinâmica acelera porque a soberania é divisível – é possível fazer acordos separados em várias áreas e sectores (económicas, tecnológicas, militares, recursos naturais, propriedade intelectual, etc.).

Há ainda outro problema. Atiçar as forças do ressentimento e do nacionalismo pode gerar muitos problemas, mesmo para as grandes potências. O nacionalismo e a ideologia levam frequentemente populações de países mais fracos, com menos poder material e militar, a resistir, a revoltar-se, a sacrificar e, acima de tudo, a causar problemas e imprevistos para os grandes poderes.

Sabemos sempre que ordem estamos a destruir e podemos até ter planos para o depois; a história mostra, porém, que raramente sabemos que ordem a substituirá.