Aproxima-se a realização do XXVII Congresso do CDS, nos dias 10 e 11 de Março, em Lamego. O CDS define o seu futuro e talvez a sua existência como referência doutrinária da política portuguesa.

O CDS, Partido fundado a 19 de Julho de 1974, que comemora este ano 44 anos, vive um dos seus momentos mais decisivos naquilo que vai definir o seu futuro. A crise de “meia idade” que agora enfrenta tem essencialmente a ver com o tipo de Partido e de acção política que os congressistas e militantes têm de escolher.

Vejamos, o CDS nasce de uma carta fundacional absolutamente doutrinária, a sua Declaração de Princípios de 1974, assente na Democracia Cristã.

A partir daqui o CDS reuniu portugueses corajosos, patriotas e livres que sem medo, com determinação e convicção, lutaram e resistiram, entre outros acontecimentos, ao cerco das esquerdas violentas ao Palácio de Cristal no Porto, momento emblemático da sua vida.

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Foi o único Partido a votar contra a Constituição Marxista/Socialista de 1976 que ainda vigora, Constituição esta que é em grande medida um entrave ao avanço do País e um anacronismo gritante, desfasado da realidade política, social e económica em que vivemos.

Ao longo da sua existência foi o Partido nacional que, assente na sua forte doutrina, mais estudou, reflectiu e produziu pensamento e acção políticas assentes na sua razão de ser, nos seus princípios e valores. Tornou-se por isso um partido de Causas que em muito influenciou a vida política nacional, no bom sentido.

O PS e o PSD, vazios em termos doutrinários e muito similares, afirmando o socialismo democrático, tornaram-se no espaço do “Catch all party”, do aqui cabem todos, onde se pode defender um conceito ou uma ideia e o seu contrário, ao mesmo tempo.

No oposto do CDS, o PCP e o BE afirmam-se como partidos de pensamento, mas ideológicos e não doutrinários. É talvez por isso que um ainda resiste e persiste e o outro cresce.

Ao longo dos últimos anos o CDS “descafeinou-se”, ou seja, foi perdendo gradualmente o orgulho na sua identidade e a convicção na afirmação dos seus valores e princípios. O Partido passou a olhar mais para os resultados eleitorais, para os votos e para a ambição, natural e desejável, de ser poder, de estar no Governo.

Esta visão, mais pragmática da acção política, não foi acompanhada pela necessária reflexão doutrinária nem pela formação política dos seus agentes, tornando-se o liberalismo quase exacerbado na sua principal linha de acção, integrando militantes que defendem em temas essenciais o oposto do CDS. O oposto dos seus valores e da sua carta fundacional democrata cristã.

Hoje temos duas visões para o futuro do CDS, um pragmático e vazio de doutrina e outro que se quer afirmar assente na sua doutrina, na sua razão se ser.

Temos pois, neste Congresso, oito moções globais que se diferenciam claramente entre as pragmáticas e as doutrinárias. Principalmente a de Assunção Cristas, assumidamente pragmática e despida de doutrina, e as da Juventude Popular e da TEM – Tendência Esperança em Movimento, como pilares de afirmação doutrinária para a acção política e crescimento do Partido, assentes na Democracia Cristã.

A Moção de Cristas reune todo um conjunto de personalidades veteranas do Partido que remontam aos 16 anos de Portismo, subsistindo há muitos anos nos lugares de liderança e destaque.

Por outro lado, a moção fortemente doutrinária da Juventude Popular de Francisco Rodrigues dos Santos e da Esperança em Movimento protagonizada pelo autor deste texto, constrastam de forma gritante quer nos seus intérpretes quer em termos de propostas para o País e o Partido.

A verdade é que o CDS tem vindo a perder expressão, tendo hoje menos deputados do que o BE, e não se pode invocar o bom resultado eleitoral de Lisboa, fruto de circunstâncias muito especiais, como sendo o futuro do CDS no País. É preciso lembrar que o CDS já teve 42 deputados e 37 Câmaras, sendo que hoje tem 18 deputados e 6 Câmaras.

O CDS só pode crescer, afirmando de forma clara os seus valores, diferenciando-se do PS e do PSD, recuperando os votos dos 50% de eleitores que não votam, descrentes que estão na política e nos políticos.

Querer ser um PSD azul e branco, querendo captar os descontentes do original para votarem na cópia, não terá sucesso nem sentido, podendo redundar na fragmentação do CDS.

Todos sabemos que os jovens captam bem e interpretam ainda melhor as tendências de futuro. A Juventude Popular é hoje a juventude partidária que mais cresce, estando prestes a tornar-se na maior do país, sendo o verdadeiro motor do CDS, o que a todos nos motiva e anima.

Rodrigues dos Santos conseguiu, talvez, criar e ter a melhor juventude partidária que o CDS e o País já tiveram. Coesos, fortemente doutrinários e esclarecidos, não fazem proposta nem acção política que não resida na afirmação das suas ideias, valores e princípios, sendo essa a razão principal do seu enorme crescimento, coesão e sucesso.

Este será sem dúvida alguma o futuro do CDS, adiá-lo, negando a doutrina, atirando-a para debaixo do tapete como coisa que incomoda e que queremos esconder, só nos atrasa no crescimento e na afirmação do CDS e do modelo de sociedade que desejamos.

Verdadeiros movimentos das bases militantes, como a TEM – Esperança em Movimento, surgem também por percebermos que existem jovens com capacidades, motivação e valores que nos fazem acreditar que afinal ainda vale a pena participar na política.

A vasta maioria do eleitorado CDS, dos seus simpatizantes e militantes, quer um caminho de futuro que não dilua o CDS na amálgama vazia da ausência do pensamento e da reflexão políticas.

É entre estas duas visões de Futuro do CDS que o Congresso de Lamego se irá debater. Nós, não temos dúvidas, não queremos rasgar a carta fundacional do CDS!

1.º Subscritor da Moção “Portugal a Sério” da TEM/CDS. Fundador da TEM/CDS – Tendência Esperança em Movimento