Política

Viver sem ideias /premium

Autor
258

Nenhum regime é apenas o que existe e como tal pode ser descrito. É também o que os seus líderes propõem, as expectativas e a confiança que as suas ideias são capazes de gerar.

O Estado Novo foi uma ditadura, mas também a ideia de que Portugal podia ser um mundo aparte, um Estado intercontinental quando os outros Estados europeus descolonizavam, e um regime corporativo enquanto as outras sociedades ocidentais admitiam divergências e conflitos.

A revolução de 1974-1975 também não foi apenas uma semi-ditadura militar, mas a ideia de que competia aos portugueses tornarem-se, no ocidente da Europa, um entreposto de socialismo terceiro-mundista, com as forças armadas a fazer de “movimento de libertação”.

Tudo acabou quando essas expectativas acabaram, isto é, quando deixou de ser possível escamotear as desvantagens de ser o último império ou a primeira Cuba da Europa ocidental. Até porque havia uma alternativa mais digna e mais próspera — já escolhida, aliás, pelas centenas de milhares de portugueses que, durante uma década, haviam passado legal ou ilegalmente a fronteira em direcção à França ou à Alemanha: ser simplesmente um país como os outros países da Europa ocidental.

O actual regime levantou-se em cima dessa possibilidade. Por isso, não foi apenas uma oligarquia de partidos subsidiados pelo Estado, mas também a expectativa de Portugal, um dia, vir a ser um país com as instituições e a fortuna dos países ricos e livres do norte da Europa.

Eis o que ficou em causa nos últimos anos, quando se tornou notório que o país, sobrecarregado por um Estado endividado e clientelar, não consegue aproveitar a integração europeia para continuar a convergir com a Europa. A partir daí, deixámos gradualmente de acreditar em quase tudo.

A actual maioria das esquerdas demonstrou que ninguém acredita verdadeiramente numa alternativa ao ajustamento orçamental dirigido por Bruxelas, a menos que aceitemos que sacrificar serviços públicos para pagar salários é acabar com a austeridade.

A actual liderança da direita provou, por sua vez, que, apesar de a coligação PSD-CDS ter ganho a eleição de 2015, ninguém acredita numa alternativa ao governo socialista, a menos que se considere que mudar a composição da maioria parlamentar de apoio a António Costa faça diferença.

Como podia ser diferente? Vivemos num dos países mais endividados do mundo, onde a falta do BCE significaria provavelmente uma bancarrota instantânea, e onde a política está reduzida a distribuir rendas entre os grupos de interesses que dependem do Estado e de que os governos dependem para terem boa imprensa e boas eleições.

Em Portugal, não há o Vox da Espanha nem os coletes amarelos da França. Há apenas abstenção, uma espera receosa do fim da actual festa, da última estação deste tempo de vésperas em que os juros baixos e os saldos permanentes disfarçam a perda de rendimentos e a renovação de casas para alojamento local esconde a degradação dos transportes públicos. Aguardamos – não já, como na década de 1990, pelo dia em que o nosso PIB per capita coincida com a média europeia, mas pelo dia em que os juros subam ou os turistas descubram outros destinos, e a nossa vulnerabilidade nos bata na cara.

É nestas condições que nos pedem este ano para votar, isto é, para escolher líderes e optar entre programas, quando sabemos que não há escolha nem opção. Vai ser uma experiência interessante. Em 1871, um jovem poeta impertinente perguntou a um chefe de governo se era possível viver sem ideias. Parece que estamos condenados a fazer regularmente essa pergunta.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Austeridade

Nunca tão poucos enganaram tantos /premium

Rui Ramos
2.381

Em 2016, disseram-nos que a austeridade era uma página, e que estava virada. A austeridade, porém, não é uma página. É um livro inteiro, de que já ninguém lembra o princípio e ninguém sabe o fim.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)