No princípio do semestre pedi aos meus alunos da cadeira de Global Supply Chain Management do Mestrado para me trazerem o seu pensamento sobre cadeias de abastecimento globais na era Donald Trump. Com exemplos. Ou seja, cadeias de abastecimento globais que viessem a sofrer do efeito “fechar mercado ao exterior” como bem queria o novo inquilino da Casa Branca.

Donald Trump tinha acabado de ser eleito. O México e a China estavam debaixo de fogo. Penso que os meus alunos terão ficado também, coitados, debaixo de fogo, pois a pergunta era no mínimo provocatória e não era de resposta simples. O que é isso de cadeias de abastecimento (não) globais na era Trump? Ele há professores loucos mesmo, terão pensado. Mal sabiam eles que eu achava impossível, neste caso concreto, ver o mundo ao contrário. Mas fui absolutamente genuíno quando resolvi perguntar-lhes o que achavam e se achavam possível.

Dois fins-de-semana antes de fazer esta pergunta aos meus alunos tinha estado a falar demoradamente com um amigo meu que dizia, não sei se teimosamente (eu achei na altura que sim), que estava a emergir um novo paradigma. O local contra o global. Uma espécie de contra movimento liderado pelo populismo (local e em defesa do local) mas que teria impacto irreversível nas economias. Disse-lhe que seria complexo, não que estivesse a nascer um novo paradigma, mas que ele fosse traduzido por um local no combate ao global já que o mundo estava, e está, todo balanceado não apenas para o global mas até, em certa medida, para fora dele.

Prova do que acabo de dizer são as fronteiras que se têm vencido em espaço e tempo, por exemplo, com drones (ocupar espaço não ocupado para uma nova mobilidade), com impressoras 3D (que trazem uma nova “geometria” produção-distribuição e, na cabeça de alguns, representam o local e não o global – esquecendo as matérias-primas e a alimentação da nova “geometria”), com IoT e objetos comunicantes (tornando o mundo cada vez mais pequeno e cada vez mais global, facilitando o movimento), com realidade virtual, realidade aumentada, machine learning, big data, com tanta novidade que mal conseguimos juntar tudo num novo mapa mental. Mas e se conseguirmos, com tudo isto, desenhar um novo mapa mental…ele será certamente um mapa mental global e não local. Será, porventura, um outro o paradigma nascente – que não a volta ao local, tout court.

Eu gosto de pensar o mundo ao contrário, sempre gostei (como hipótese!), e queria passar-lhes, aos meus alunos, um desafio que me fizesse “acreditar” (ou ver com outros olhos) que era possível ver um mundo global…não global. Nunca achei possível mas há (ou havia) um presidente recém-eleito que o dizia e queria. Deveria o homem (desculpem, o presidente) ter mais informação que eu. Sempre fui o tipo de pessoa que acha que se deve ouvir o pensamento antes de criticar de forma fácil. Neste caso era ainda mais difícil dada a natureza do homem (desculpem, presidente). Ou seja e repito: como ver um mundo global…não global? Dificílimo. Mas foi isso mesmo que acabou de ler: ver um mundo global não global.

No fundo, no fundo era o que Donald Trump estaria a dizer. “Parem lá de ser globais que agora apetece-me ser local”. Pode-se chamar-lhe os piores nomes mas é importante, antes de chegar ao “que estupidez”, pensar se eventualmente seria possível. E foi assim: <<pensem lá se isso é possível, os meus amigos (alunos), que têm cabeças ótimas, novas e frescas?>>

As empresas, soube-se de alguns exemplos concretos, terão olhado para Trump com desconfiança, muito boa cabeça C-level terá coçado o frontal e o occipital a sério e perdido algum cabelo, terão imaginado que seria difícil mas que, no final, o homem (desculpem, o presidente) poderia querer fazer das suas muito embora pudesse não estar no seu total juízo. Terão eventualmente feito uns riscos num papel em branco e alguns desenhos de cadeias de abastecimento a começarem nos EUA e a acabarem nos EUA. Bom, faltaria volume, faltaria especialização, faltariam salários baixos, faltariam pessoas, faltaria tanta coisa. E faltariam as Foxconn deste mundo. E seria difícil replicá-las em território americano, pois bem.

É certo que Barry Lynn, em 2005, previa num livro chamado “End of the Line: The Rise and Coming Fall of the Global Corporation” o fim da empresa global. Dez anos depois o mundo e as empresas ainda estão mais globais que há uns anos atrás e vários são os indicadores que o testemunham (leading indicators económicos, com leituras por vários ângulos, mostram-no de forma clara). Poder-se-á dizer, não obstante, que há globalização mas que foi entretanto construída alguma redundância, i.e., mais capacidade instalada global, não vá o diabo tecê-las. Mas o mundo está inexoravelmente mais global. Há origens e destinos em todos os cantos do mundo e há fluxos de e para todos os cantos do mundo.

É evidente que não esperava facilidades para o lado dos meus alunos quando lhes pedi isto mas devo confessar que todos eles me surpreenderam pela positiva pois acabaram por trazer o exemplo de uma ou mais empresas americanas com cadeias de abastecimento globais imaginando-as americanas com cadeias de abastecimento quase locais (dentro dos EUA). Ter-se-ão sentido pequeninos porque pedir a uma geração global para ver o mundo não global é o mesmo que pedir a um escritor para não escrever, a um jogador de futebol para não jogar ou a um professor para não dar aulas (se bem que conheça vários que adorariam não as dar; confesso que nunca percebi o fenómeno – mea culpa).

Não faz sentido um mundo global…não global. Não fazia sentido quando lhes perguntei, aos meus alunos. Não faz nenhum sentido hoje. E não faz sentido algum no futuro, próximo ou não. Ou seja, mesmo as respostas deles, genuínas e boas, muito boas, que passavam quase sempre pela taxação superior sobre produtos pertencentes a empresas americanas à entrada do território americano para que fossem vendidos no mercado dos EUA (complicado?), envolviam sempre, incontornavelmente, retirar competitividade a essas mesmas empresas.

Baixariam lucros às empresas, poderiam desfazer uma boa parte das empresas tecnológicas que hoje conhecemos (para só mencionar algumas óbvias), e nas cadeias de valor onde antes víamos mais margem passávamos a ver hoje e no futuro mais custos, indiretos, e menos margem. E onde seria suposto ir buscar valor, e continuar a criá-lo, estaríamos a retirá-lo (via impostos). E estaríamos a acreditar que as empresas americanas continuassem alegremente no território americano.

Já agora, como ver o futuro imediato de coisas absolutamente simples como o programa Erasmus, as viagens que fazemos ao mundo, o trilhar outros mundos e o mundo onde quase ninguém foi, como ver o futuro dos produtos <<made in China>> ou <<made in Taiwan>>? Como ver a reintrodução das fronteiras na Europa? <<Ok, chegas a Badajoz de carro e paras de novo! Nada a fazer. Estás no Caia e tens de abrir a mala para mostrar o que levas.>> Acreditam nisto? Ninguém acredita.

Não há essa coisa de mundo global, não global. Quer dizer, haver há mas apenas na cabeça e nos sonhos mais negros e distorcidos de algumas mentes. A realidade, porém, é totalmente ao contrário e sê-lo-á cada vez mais. Trump ganhou os EUA mas já perdeu inúmeras vezes no Senado e na questão da globalização. Le Pen não ganhou. Como já na Holanda não tinha ganho Wilders. Como ninguém conseguirá parar a globalização, queira-se ou não. É natural que outro paradigma esteja a nascer mas não será, seguramente, um get back to local.

Pode haver aqui e ali umas tentativas populistas que nos empurrem para formas de governar mais auto-centradas. No final do dia, não esperem que novos cidadãos do mundo possam comprar teorias destas. Quando são eles mesmos o cânone do mundo global vão querer, apoiar e viver num mundo local? Ninguém pode contrariar o óbvio. O bom senso manda e custa a alguns. Mas a pouco-e-pouco a geometria de mundo aberto – entrecortada pelos também inevitáveis assomos da ira (e era) terrorista – vai sendo reposta. Não há como acabar com cadeias de abastecimento globais. A não ser que as locais fossem mais rentáveis. E aí sim, estaríamos a mudar alguma coisa. Mas até lá, e quem manda, é a riqueza das nações. E das empresas.

E não, ninguém quer ter de novo os caramelos de Badajoz escondidos debaixo do banco de trás do carro para polícia não ver. Não, não voltaremos aos Caramelos de Badajoz.

Professor Catedrático, NOVA SBE – NOVA School of Business and Economics, crespo.carvalho@novasbe.pt