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Tempo para mais um Cinco Continentes na Rádio Observador com o historiador Bruno Cardoso Reis. Alô, Bruno, bom dia. Como é habitual começamos pela guerra entre a Rússia e Ucrânia. Vamos olhar para as notícias de novos apoios externo aos beligerantes que surgiram nos últimos dias, o apoio da Coreia do Norte à Rússia, por um lado, por outro, um novo apoio dos Estados Unidos à Ucrânia com o anúncio da chegada de tanques Abrams. Qual é o significado destes apoios, Bruno?
Em primeiro lugar, temos este dado importante que é as duas Coreias não só a Coreia do Norte, mas também a Coreia do Sul, são dos poucos Estados que têm continuado a preparar-se e a ter estruturas em termos de forças armadas, de reservas de guerra, até de indústria militar, realmente pra uma grande guerra convencional de grande intensidade. A guerra da Coreia terminou, na prática, em 1953, mas nunca houve verdadeiramente um acordo de paz e, portanto, os dois lados, os dois Estados continuaram a preparar-se pra possibilidade dela recomeçar a qualquer momento. Isso significa que os dois têm realmente muito daquilo que se revelou ser preciso para o tipo de guerra que está a decorrer agora na Ucrânia, por exemplo, grandes reservas de munições de artilharia, também uma grande capacidade de produção e exportação dessas munições e até também de equipamento de artilharia. A Coreia do Sul, por exemplo, está a fazer isso para a Polônia. Não está a fazer para a Ucrânia porque a sua Constituição impede a exportação para países que estão em conflito aberto. A Coreia do Norte, aparentemente, vai fazer agora isso para a Rússia. Em segundo lugar, mostra também que a Rússia não estava a dizer a verdade quando afirma constantemente que tem reservas mais do que suficientes de todo este equipamento militar e que aquilo que não tem está a ser produzido com grande eficácia pela indústria militar russa. É evidente que mesmo quando estamos a falar de munições de artilharia, que à partida são das coisas mais fáceis de produzir e que existiram em maior abundância nas reservas de guerra russas, aparentemente já há falhas que justificam Moscovo pôr de lado aquilo que tem sido também uma prioridade, que é evitar o alargamento deste clube nuclear de potências nucleares, muito exclusiva a que a Rússia pertence e que não tem nenhum interesse em termos dos seus interesses geoestratégicos, não tem nenhum interesse em que esse clube se alargue, nomeadamente na sua vizinhança, mesmo que estejamos a falar de países que são tradicionalmente aliados da Rússia, como é o caso da Coreia do Norte, e portanto isso claramente teve que ser posto de lado. Quanto a Blinken, não há dúvida nenhuma que ele é não só formalmente a voz da diplomacia norte-americana, mas é também quase que um alter ego do presidente Biden, isso dá-lhe uma enorme autoridade. Basicamente, ele trabalha com Biden nestas questões desde o tempo em que Biden era senador, há várias décadas atrás. E não há dúvida também que se Biden continuar a ser presidente, um aspecto fundamental desta visita, que foi a reafirmação por Blinken que o apoio à Ucrânia continuará pelos anos que for preciso, que isso se verificará. Agora, o grande problema, como sabemos e como temos falado aqui várias vezes, é que Biden tem 80 anos, terá 82 anos se for reeleito em novembro de 2024, e as últimas sondagens mostram que isso é uma grande preocupação mesmo para os eleitores democratas. 67% dos democratas acham que se calhar o candidato devia ser outro. Só 25% dos independentes é que acham que ele está em condições de continuar a ser presidente. Ele precisa dos independentes para derrotar os candidatos republicanos, como fez com Trump. E isso também se reflete nas próprias sondagens, em que basicamente ele está ou empatado ou tem uma ligeira desvantagem com praticamente qualquer candidato republicano, inclusive com o próprio Trump. Trump aparece com 47% de apoios nas sondagens, Biden com 46 na última sondagem da CNN. Por fim, há realmente essa referência que passou um pouco despercebida, mas que é potencialmente muito significativa aos tanques Abrams. Os tanques americanos são considerados os melhores a nível global e ele disse que eles iriam chegar neste outono. Ora, o outono começa daqui a poucas semanas. Não sabemos exatamente quando no outono, mas se estes sistemas de armamento chegarem antes das grandes chuvas das lamas que tornam problemático operações mais ofensivas, pode ter ainda um impacto nesta ofensiva ucraniana em curso.
E Bruno, nesta fase do conflito, até porque tivemos, por exemplo, restos de um drone russo caírem na Romênia, com tudo o que isso envolve, faz sentido também pensar numa zona de exclusão aérea nas fronteiras dos países da NATO?
Eu duvido que a questão seja colocada, a não ser que se continuem a multiplicar estes incidentes, ou seja, bombardeamentos russos, basicamente na linha de fronteira. No caso da Romênia, estamos a falar de bombardeamentos, por exemplo, no porto fluvial de Izmail, que fica basicamente do outro lado do rio Danúbio, que faz a fronteira com a Romênia, portanto, são poucas centenas de metros de um país da NATO. Mas no caso da Romênia, ela é menos assertiva talvez nas suas posições face à Rússia, mas se voltarem a acontecer incidentes como aquele que se verificou na Polônia, em que houve realmente vítimas, eu penso que aí poderá haver uma revisão de posição e que sobretudo a Polônia vai insistir em que haja uma revisão de posição. Evidentemente, isso teria de ter o acordo da Ucrânia e uma estreita coordenação, aliás, com a Ucrânia. Teria a vantagem para a Ucrânia, no entanto, libertar alguns meios antiaéreos dessa zona de fronteira Se ela passasse a ser coberta por meios antiaéreos dos países vizinhos da NATO. Imagino que a Ucrânia não se oporia a isso. Também há o argumento que isso seria uma escalada perigosa. Isso levou, aliás, a que no início da guerra se tivesse excluído essa possibilidade de uma zona de exclusão aérea, mas nesse caso, estamos a falar de todo o país, de toda a Ucrânia. E havia muito esta ideia de que isso implicaria necessariamente abater aviões russos. Ora, aqui estaríamos a falar da possibilidade de uma zona junto à fronteira dos países da NATO, portanto, uma coisa muito mais restrita, com uma óbvia justificação para isso, que era evitar que houvesse mortes, vítimas em países da NATO, que obviamente é algo que é inaceitável. E também já se percebeu que basicamente os aviões russos praticamente nem aparecem nos céus da Ucrânia e muito menos nesta zona junto à fronteira. Portanto, não há nenhuma razão para acreditar que essa questão se colocaria. Aliás, eu gosto de recordar este aspecto, quando se pensa aqui numa espécie de escalada inevitável para uma Terceira Guerra Mundial, se houvesse a possibilidade de abater um avião russo, eu gosto de recordar que em 2015 um país da NATO, a Turquia, abateu um avião de combate russo, que tinha invadido o seu espaço aéreo, mas apesar de tudo não tinha atacado ninguém na Turquia ainda, e isso não levou ao desencadeado uma Terceira Guerra Mundial, nem de um holocausto nuclear. Parece-me que já ficou claro que a elite do regime russo, Putin não tem realmente nenhum interesse em pôr em questão a sua própria vida, as fortunas que foram acumulando ao longo destas décadas no poder, desencadeando um holocausto nuclear.
Bruno, mudamos de tema e vamos olhar para o encontro dos G20 na Índia, com duas ausências de peso, Xi Jinping e Vladimir Putin, e também com sinais crescentes da formação de blocos numa Segunda Guerra Fria.
Sim, nós provavelmente voltaremos a falar disso na próxima semana, quando já se souberem os resultados da cimeira, mas eu desconfio que não haverá grandes decisões, nomeadamente por causa da ausência, sobretudo do presidente chinês, do presidente Xi Jinping. E eu aqui destacaria três pontos fundamentais. Primeiro, temos falado muito e temos ouvido falar muito dos países do Sul global e do surgimento de um bloco muito coeso e muito grande em termos de população, de recursos contra os Estados Unidos, contra os países ocidentais, por exemplo, falámos isso a respeito deste alargamento dos BRICS. E não há dúvida que estes países têm mais protagonismo, têm mais poder, são mais importantes, por exemplo, evidentemente o caso da China. Agora, o grande problema é sempre a questão da coesão. E este G20 revela exatamente isso. Ou seja, esta é uma iniciativa muito importante para a Índia, que preside ao G20, onde a cimeira se realiza. No entanto, um país tão importante como a China, o seu líder recusa-se a estar presente. E por quê? Este é o segundo ponto. Bem, a China tem sido muito crítica do que eles chamam mentalidade Guerra Fria, da reconstituição do mundo dividido em blocos. Insiste que toda gente deve falar com toda a gente. Ora, é precisamente agora Xi Jinping que não aparece. E isto por quê? Porque basicamente a Índia não aceita a hegemonia da China na Ásia, não aceita também a imposição pela China de fronteiras que alargam o território chinês em relação aos seus vizinhos, inclusive em várias zonas nos Himalaias com a Índia. E em terceiro lugar, isto realmente revela também uma grande hipocrisia da liderança chinesa, que tem passado este ano e meio a pregar a paz, a insistir que se deve chegar a compromissos, inclusive compromissos territoriais, para acabar rapidamente com o conflito na Ucrânia. Mas Pequim, que já é o quarto maior país do mundo, tem mostrado zero disponibilidade para ceder nem que seja um centímetro daquilo que considera que são os seus territórios, numa série de conflitos territoriais com os seus vizinhos, inclusive, neste caso, repito, com a Índia na zona dos Himalaias.
Bruno, e estamos a falar do G20 numa altura em que agora mesmo a BBC World News acaba de dizer que o primeiro-ministro indiano acaba de anunciar que foi encontrado um consenso para a declaração do G20, portanto, há acordo, ao que tudo indica, apesar de, diz a BBC, apesar de haver aqui diferenças grandes entre alguns membros quanto à questão da Ucrânia.
Sim, vamos ver exatamente depois o teor dessa declaração. Até que ponto é que é muito substantivo esse acordo ou não, mas em todo caso é uma boa notícia.
Bruno, vamos continuar na Ásia, vamos à Mongólia. Foi por lá que o Papa andou na última semana e vamos aproveitar a deixa para falar também um pouco sobre este país que tem uma longa história e que tem servido também, principalmente como Estado tampão democrático entre duas autocracias.
Sim, realmente tem uma longuíssima história e há uma longuíssima história em termos de relações diplomáticas entre o grande Império Mongol, fundado por Genghis Khan no início do século XIII, e o Papado. Logo nessa altura, há uma primeira embaixada papal logo em 1246, enviada pelo Papa Inocêncio IV para um dos sucessores de Genghis Khan, em Karakorum, na capital desse grande Império Mongol, que leva, aliás, ao surgimento da primeira obra sobre o Estado Mongol, de um frei franciscano, que é o líder dessa embaixada, Giovanni del Carpine. Curiosamente, havia mongóis cristãos, mesmo no tempo do Genghis Khan, por exemplo, a mãe de Kublai Khan, um dos sucessores de Genghis Khan, do grande imperador mongol da China com quem se vai encontrar Marco Polo, era uma cristã, embora de uma corrente do cristianismo oriental nestoriano. Portanto, realmente há aqui uma longa história. Agora, o que se destaca em termos geoestratégicos desta viagem? Primeiro é que o Papa Francisco sabe que a Mongólia tem pouquíssimos católicos, estimam-se em poucos milhares. É uma igreja extremamente jovem, basicamente só foi autorizada a existência de uma igreja católica e de missionação católica desde 1992, portanto, um ano depois da queda do regime comunista stalinista que dominava a Mongólia desde o início do século XX. Depois, e apesar disso, sobretudo, o Papa Francisco sabe que este enorme Estado tem um milhão e meio de quilômetros quadrados com apenas três milhões de habitantes, realmente funciona, como dizias, como um Estado tampão democrático, pelo menos para já, pluralista, relativamente livre, rodeado de duas grandes autocracias, encravado entre duas grandes autocracias, a norte a Rússia, a sul a China, e ambas são bastante hostis ao catolicismo. E portanto, no fundo, aquilo que o Papa Francisco faz é dar aqui um sinal de proximidade, de encorajamento aos católicos que vivem em situações de alguma perseguição e de muito condicionamento, sobretudo na China, mas mesmo também cada vez mais na Rússia. E portanto, é sobretudo esse o significado principal dessa viagem. Do ponto de vista da Mongólia, o que isso interessa? É que precisamente por causa desse encravamento face a dois vizinhos gigantes a norte e a sul, a Mongólia tem procurado, desde 1991, diversificar as suas relações externas a todos os níveis, em termos diplomáticos, econômicos, e obviamente aí as relações com o Papado são também interessantes. Sabemos que o Papa, em termos formais, é responsável, tem poderes soberanos numa pequeníssima cidade-estado do Vaticano, mas tem uma enorme influência a nível global como líder da Igreja Católica.
Bruno, vamos à América, aos Estados Unidos, de onde vêm boas e más notícias. Os Estados Unidos abrem mais embaixadas, nomeadamente nas Seychelles, mas têm menos generais bloqueados por um senador antiaborto do Alabama, que vamos ouvir.
É um assunto difícil de abordar, mas somos pró-vida e é assim que devemos ser. Somos republicanos. Sobre os militares, há uma questão importante. As Forças Armadas não são um empregador que oferece oportunidades iguais. Só interessa ser o melhor. Não há segundo lugar na guerra. Temos que ter o melhor. Atualmente estamos demasiado woke nas Forças Armadas. Estamos a perder recrutas a torto e a direito. O secretário Del Toro da Marinha tem de começar a construir navios, fazer recrutamentos e livrar-se dos movimentos woke na nossa Marinha. Temos pessoas a declamar poemas nos porta-aviões pelos alto-falantes. É uma loucura a direção que estamos a tomar nas nossas Forças Armadas.
Bruno.
Sim, por um lado, evidentemente, aqui o senador Tuberville encontrou uma forma de falarmos dele, até em Portugal. Ele é senador de um dos estados mais pobres dos Estados Unidos, do Alabama, só é senador desde 2021. Agora, o que isto nos recorda é, por um lado, o enorme poder, não só do Senado, mas de cada um dos 100 senadores, no campo, sobretudo, da política externa e da política de defesa. Basicamente, eles podem bloquear milhares de nomeações. Não estamos só a falar de ministros como o secretário de Estado, que é o responsável da diplomacia, ou o secretário da Defesa, mas de muitos cargos nesses ministérios, de embaixadores. Durante muito tempo, isso foi relativamente normal, ou começou a ser cada vez mais normal haver problemas nessas nomeações para cargos ministeriais ou para embaixadas. No caso, apesar de tudo, dos militares, onde mais uma vez estão em causa não apenas os ministros responsáveis pelas várias pastas, mas os chefes dos ramos e depois centenas de outros postos importantes. Realmente aí, por regra, havia uma grande deferência, uma grande preocupação em não afetar a política de defesa norte-americana. Ora, isto mostra que realmente esta enorme polarização, que está muito presente no discurso que ouvimos do senador Tuberville, esta ideia das guerras culturais, do anti-woke, etc, do aborto, tudo isso já chegou realmente até à nomeação para funções, para postos militares. É evidente que ele diz: "Bem, já temos generais suficientes, são mais de 40". Ora, nós estamos a falar de Forças Armadas americanas com um milhão e quase 400 mil soldados. Portanto, é evidente que 44 generais não é demais, sobretudo para preencher uma série de postos por todo o mundo que implicam um determinado posto na hierarquia militar, até para depois isso fazer sentido em termos de toda a hierarquia que está para baixo.
Uhum.
Portanto, é realmente um problema muito sério. Apesar disso, e como também dizias, há aqui um lado de boas notícias, é que realmente os Estados Unidos estão a expandir a sua rede de embaixadas numa série, sobretudo, de pequenos Estados insulares. Já falámos isso em relação ao Pacífico, por exemplo, nas Ilhas Salomão, em Tonga, agora no Índico, com as Ilhas Seychelles, vai passar a haver um embaixador residente ao fim de quase três décadas. E realmente, as Seychelles não são apenas um belo destino de férias, são também um país que tem o controle soberano sobre mais de 150 ilhas numa posição central no Oceano Índico. Portanto, é evidente que os Estados Unidos percebem que no contexto desta Segunda Guerra Fria não há Estados irrelevantes e eles têm de estar presentes, não podem só pedir a estes Estados que resistam à influência da China, têm também de mostrar que têm interesse, têm vontade de estar presentes, têm a disponibilidade para oferecer também alternativas à China nestes pequenos Estados insulares.
Bruno, tem de ser mesmo num minuto certinho. Damos um salto à África, à Cimeira Africana do Clima que aconteceu no Quénia. É uma cimeira que tem real importância, na tua opinião?
Sim, tem real importância e duas notas muito rápidas. Uma é para dizer que os líderes africanos têm toda a razão, nomeadamente o presidente do Quénia, que organizou esta cimeira, quando diz que África é um dos continentes mais afetados pelo clima, pela mudança climática, por exemplo, pela questão da desertificação na zona do Sahel, depois até com implicações também em termos de crises de segurança, e que é dos continentes que menos contribuiu, é mesmo o continente que de longe menos contribuiu para esta situação de crise climática. África estima-se que representa 3% dos gases de efeito estufa no acumulado histórico. Isto perante os Estados Unidos com 25%, a União Europeia com 22%, ou a China com 12%. E aqui estamos a falar, obviamente, de todo um continente. Depois, o segundo aspecto importante é que realmente África decidiu que não podia apenas queixar-se, e queixar-se de país a país, tinha de mostrar aqui um papel pró-activo, tinha de mostrar que tinha as suas próprias ideias e as suas próprias iniciativas, de aproveitar, no fundo, este contexto de crise climática, de necessidade de uma transição energética, também com alguma disponibilidade de investimento por parte de países como os Estados Unidos, a China, a própria União Europeia, os países do Golfo, e no fundo, assumir aqui um protagonismo próprio. E eu acho que isso é realmente bastante positivo. Os africanos não devem ser apenas vítimas, devem ser também atores neste processo de transição.
A nossa viagem pelos Cinco Continentes desta semana fica por aqui, Bruno. Uma boa semana. Voltamos a receber-te no próximo sábado para mais uma edição dos Cinco Continentes. Até lá.
Obrigado. Boa semana.