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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a revolução cubana chegou ao fim? Este é o som de um raro protesto em Cuba, na cidade de Morón, dezenas de pessoas invadiram e incendiaram a sede municipal do Partido Comunista. Eles gritavam: "Eletricidade e comida, liberdade e abaixo a ditadura". Naquele dia, Cuba ainda estava mergulhada num apagão que tem sido remediado aos poucos, mas foi mais um sinal da grave crise que o país atravessa, depois da intervenção americana na Venezuela ter cortado todo o fornecimento de petróleo à ilha. A partir da Casa Branca, Donald Trump olha para isto, um país sem dinheiro, sem petróleo, sem nada, como mais uma oportunidade. E aqui está ele a repetir a ameaça de tomar Cuba, libertá-la ou tomá-la, é indiferente. O presidente dos Estados Unidos diz que pode fazer o que quiser. E alguma razão terá nisto, porque o governo de Miguel Díaz-Canel, o presidente cubano, já admitiu estar em conversas com Washington. A Madalena Moreira, jornalista internacional do Observador, esteve a acompanhar o desenrolar destas negociações e eu vou falar com ela hoje para perceber o que está em cima da mesa, que sacrifícios está o governo cubano disposto a fazer para se manter no poder, o que querem, afinal, os Estados Unidos, e como é que o povo de Cuba está a olhar para isto. Com medo, com esperança ou já nem uma coisa, nem outra. Eu sou o Pedro Ben vides e esta é a história do dia de quinta-feira, 19 de março. Madalena, bem-vinda.
Obrigada, Pedro.
Vamos começar precisamente por aqui, pelo povo cubano. O que está a acontecer em Cuba neste momento, como é que as pessoas estão a viver?
Depois de um mês inteiro, há três meses que não entra petróleo em Cuba, anunciou o presidente, e isso refletiu-se no estado da infraestrutura energética, que depende deste petróleo e, portanto, o que se tem visto são apagões, repetidos apagões, que já são frequentes na ilha, mas que a partir da última segunda-feira se tornaram num apagão à escala nacional. Portanto, toda a ilha ficou às escuras e isto basicamente parou o país. Ou seja, os hospitais tiveram que reduzir a sua atividade ao mínimo, as escolas igualmente, todos os eventos públicos tiveram que ser cancelados ou reduzidos aos mínimos essenciais para que pudesse manter-se a vida mais ou menos normal, mas claro que não é normal, porque não há energia ou eletricidade para manter o ritmo normal. E o que aconteceu é que isto fez despertar um descontentamento que estava latente ao longo dos últimos anos de profunda crise econômica em Cuba, e no final da semana passada viram-se protestos à porta de uma das sedes do Partido Comunista, o partido no poder, o partido único no poder, e uma tentativa de pegar fogo a uma destas sedes. Apesar deste descontentamento ser relativamente comum, nunca costuma evoluir para momentos de violência assim como este.
Ou seja, há sinais de descontentamento da população, mas não com este nível de violência, de protestos.
Não costumam evoluir para este tipo de protestos. Portanto, isso é uma forma muito clara de ver este nível de descontentamento e ao que isto chegou em Cuba.
Sendo que estamos a falar de um povo que, apesar de tudo, tem uma resiliência muito grande, porque estamos a falar de décadas e décadas.
Sim, estamos a falar. Esta realidade dos apagões não é nova deste último ano. É uma realidade que se tem repetido de forma cíclica desde a Revolução Cubana e desde que este Estado socialista foi imposto em Cuba no final da década de 1950. Portanto, sim, é um povo que está habituado a isto, mas parece que neste momento atingiu um ponto de rutura como nunca tínhamos visto.
Sim, o regime comunista por um lado, e depois o embargo econômico dos Estados Unidos, que teve um peso enorme também.
Exatamente. Portanto, quando falamos deste bloqueio à entrada de petróleo, estamos a falar de um embargo econômico que foi imposto por Donald Trump no final de janeiro, já depois da queda da Venezuela, que era um dos principais fornecedores de petróleo a Cuba.
E um aliado ali na região.
Exatamente, um aliado ideológico, mas mais relevante para a crise econômica era o fato de eles fornecerem o petróleo.
Sem dúvida.
E a partir do momento em que Donald Trump impõe este bloqueio e ameaça com sanções secundárias todos os países que tentarem romper esse bloqueio e vender petróleo a Cuba, isto aprofunda este cenário que já existia. E depois há outras características de fundo que já vêm da primeira administração Trump, em que ele classificou Cuba como um Estado patrocinador do terrorismo, e isso dificulta outras realidades que não só a energética. Por exemplo, isso dificulta a importação por parte de Cuba de produtos agrícolas ou o turismo, porque as pessoas não querem obter vistos para ir a Cuba, porque isso depois dificultaria a entrada nos Estados Unidos da América. E, portanto, este grande motor da economia cubana, que é o turismo, também sai ferido desta acumulação de medidas por parte de Washington.
E entretanto, no meio disso tudo, Donald Trump esfrega as mãos de contente e diz na Casa Branca que está a pensar tomar Cuba. O que ele quer dizer exatamente com isto? Estas ameaças são para levar a sério, o que se está a passar nesse plano?
Acho que já aprendemos que todas as ameaças de Donald Trump são para levar a sério. Vimos na Venezuela, vimos agora no Irão, e não se pode pôr de lado sempre que Donald Trump faz estas ameaças, ele vai cumpri-las. Aqui a questão é que ele disse que podia fazer em Cuba o que ele quiser. "Eu posso fazer o que eu quiser em Cuba, eu posso tomar, eu posso controlar". Mas aqui Washington parece estar muito menos inclinado para uma solução militar, porque Cuba tem uma proximidade geográfica que Venezuela ou Irão não tinham e tem uma comunidade muito grande nos Estados Unidos. Ou seja, lançar uma ofensiva militar em Cuba poderia criar uma crise humanitária à porta dos Estados Unidos, que não aconteceu com outras ofensivas militares que os Estados Unidos lançaram. E, portanto, Donald Trump fala aqui da tomada de poder amigável. E o que é esta tomada de poder amigável? Pelo que sabemos das negociações que têm decorrido, seria uma saída negociada do atual presidente, Miguel Díaz-Canel, e uma colocação no seu lugar de alguém mais aberto ao investimento norte-americano na ilha, o que, na prática, tornaria Cuba um Estado cliente dos Estados Unidos da América, muito mais dependente economicamente e politicamente das decisões de Washington.
Ou seja, apesar de tudo, há negociações, há algumas cedências que Miguel Díaz-Canel tem feito, nomeadamente a abertura ao investimento estrangeiro, a abertura até ao investimento privado de cubanos que saíram do país e que agora possam querer ter os seus negócios, mas do lado de Washington, até agora não tem havido grande receptividade.
Sim, nós sabemos que estas negociações estão a decorrer. Na verdade, as negociações existem de forma constante entre Havana e Washington, ou seja, são dois polos de tensão que nunca rompem estes diálogos. Mas o que Miguel Díaz-Canel confirmou recentemente é que estão a falar sobre procura de soluções. Soluções para estas ameaças que os Estados Unidos estão a falar. E depois, como disseste, houve esse anúncio da abertura a investimentos privados norte-americanos na ilha. Na verdade, a abertura de investimentos a cubano-americanos e a exilados cubanos sempre existiu. O que existe é o bloqueio na direção contrária de eles não poderem investir em Cuba porque estão nos Estados Unidos da América, que impõe essa restrição. E é isto que Cuba faz questão de vincar, de do nosso lado sempre houve disponibilidade e os Estados Unidos é quem põem este bloqueio. E portanto, cria-se aqui um dilema ideológico e de narrativas em que os Estados Unidos dizem: "Vocês não estão abertos ao nosso investimento, ou seja, vocês têm que se abrir ao nosso investimento ou nós vamos olhar para outras opções potencialmente militares", enquanto Cuba insiste do seu lado: "Não, nós sempre estivemos abertos, nós sempre estivemos em diálogo e nós agora estamos só a reiterar que a posição que nós mantivemos agora é a mesma posição que mantivemos durante os últimos 60 ou 70 anos". E então aqui há um jogo de forças de qual destas narrativas é que vai conseguir vencer à mesa das negociações.
Sendo que Cuba parte numa posição de desvantagem e Donald Trump é muito negociador neste sentido. Ele usa até aquela expressão de "vocês não têm as cartas", e Cuba, de facto, não tem cartas nenhumas.
Isso é inegável.
Sem dinheiro e sem petróleo, é muito difícil negociar o que quer que seja. Há alguma rampa de escape para Cuba? Por exemplo, a Rússia já veio condenar aquilo que os Estados Unidos estão a fazer e já veio solidarizar-se com Cuba. A solução pode vir a ser o petróleo russo ou isso não...
Isso não parece ser uma realidade neste momento, porque Rússia tem os seus próprios problemas, a sua exportação de petróleo está sancionada pelos Estados Unidos, está sancionada pela União Europeia. Então, neste momento, Cuba parece estar isolado e parece estar a cerrar fileiras naquilo que tem feito nos últimos 70 anos e a esperar que isso seja a solução. Mas é inegável que Cuba nunca esteve tão fragilizado como está agora e não parece haver um cenário em que Donald Trump não consiga obter de Cuba precisamente aquilo que quer e tudo aquilo que quer, porque se não conseguir através de uma solução negociada, há de conseguir através da imposição de mais sanções económicas ou até mesmo poder militar, porque Cuba não tem as cartas do seu lado, não tem mesmo nenhuma carta na mão.
Quando se fala de intervenção norte-americana, isso também se colocou quando foi da Venezuela. Pensou-se que podia vir dali uma mudança de regime, e depois fomos todos surpreendidos com a número dois do regime ser a aliada dos Estados Unidos neste momento. Em Cuba, há um pedido de regime. Marco Rubio já pediu expressamente que houvesse uma mudança de regime, mas a ideia que dá, e independentemente dos cubanos poderem querer ou não um regime diferente daquele em que viveram nas últimas décadas, a ideia que dá é que essa não é a prioridade dos Estados Unidos. Não é tão relevante assim se o regime é comunista, se é uma ditadura, se é uma democracia liberal.
Quando falamos aqui dos interesses norte-americanos, falaste numa pessoa essencial, porque é necessário distinguir entre o que Marco Rubio quer e o que Donald Trump quer. Porque, na verdade, o interesse de Donald Trump por Cuba parece ser, tal como no caso do Irão, mais simbólico. Cuba é um problema, é uma pedra no sapato de Washington há várias décadas, há mais de 10 presidentes. Donald Trump quer ser o presidente que resolve aquilo. Mas resolver, para Donald Trump, pode ser uma resolução meramente simbólica. Pode ser exatamente o que fez na Venezuela, retirar Miguel Díaz-Canel e pôr lá uma Delcy Rodríguez de Havana e até alguns nomes que são avançados que possam assumir esse papel. Por outro lado, o que Marco Rubio quer, como descendente de cubanos e uma das pessoas mais críticas na administração do atual regime socialista de Cuba, é um desmantelamento total do regime socialista que existe e esta criação deste tal Estado cliente dos Estados Unidos. Ele quer tornar Cuba num interesse norte-americano e numa montra do poder norte-americano. E, portanto, há aqui este dilema: onde é que Donald Trump vai encontrar o equilíbrio entre aquilo que Marco Rubio quer, que é uma posição muito mais extrema, e aquilo que realisticamente ele pode fazer sem se envolver em mais um conflito e sem criar uma crise à porta dos Estados Unidos.
Vamos ver o que é que vai acontecer nos próximos dias. É mais um caso que Donald Trump criou e sobre o qual estamos todos expectantes para ver como é que se vai resolver. Madalena, obrigada.
Obrigada eu.
A Madalena Moreira escreveu sobre a nova crise cubana no Observador e lança ali pistas sobre o que pode acontecer a seguir. Isto numa altura em que o regime está enfraquecido, quando um dos aliados de peso na região passou a ser controlado pelos Estados Unidos. E em Cuba, o futuro, tal como o presente e o passado, estão sempre ligados aos Estados Unidos. São já várias décadas marcadas pelo embargo econômico, mas se a pressão americana moldou a vida dos cubanos, nunca foi capaz de fazer cair o regime. Será desta? E o que virá a seguir? Na verdade, da última vez que Cuba teve um governo apoiado pelos Estados Unidos, foi antes da revolução. O presidente era Fulgencio Batista e também nessa altura, Havana vivia sob uma ditadura. Estas coisas da liberdade e dos regimes, como se viu na Venezuela, podem ser importantes pro povo, mas não são propriamente uma prioridade para Donald Trump. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.