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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O Batalhão Azov é neonazi?

"But you know what? They do not control all the city. We still control the Azovstal, it still works."

Ilia Samoylenko enviou este vídeo ao jornalista José Carlos Duarte, em 21 de abril. É um elemento do Batalhão Azov e as imagens terão sido gravadas no complexo Azovstal.

The numbers of enemy losses are still increasing.

Os rebentamentos são audíveis. Samoylenko assegura que os russos não controlam Mariupol, e muito menos Azovstal, onde estavam milhares de civis.

We can fight against Russia.

Ilia fala num inglês fluente, é jovem, está fardado e de capacete. A mão esquerda foi substituída por um gancho metálico. Desafia os russos para um combate com armas ligeiras e acusa-os de falta de coragem.

If they will have more courage, at least the 10% of our courage, they're gonna fight with us without all this heavy weaponry, just on the small arms. That would be a fair fight, but they're not doing a fair fight. They're showing their cowardly face to the world right now, claiming that Mariupol is taken. Mariupol is not taken. If somebody's gonna ask: do we need help? Yes, of course, we need help, but we do not need to be rescued. We can rescue others, and we are rescuing others.

Os elementos do Batalhão Azov são vistos como heróis na Ucrânia e no estrangeiro, mas este grupo é acusado de ser neonazi, racista, supremacista, de estar ligado a organizações extremistas. Este é ou não um grupo extremista? Como nasceu e que influência tem nesta altura na política ucraniana? Vou conversar com o jornalista do Observador, José Carlos Duarte, que investigou a história deste grupo paramilitar. Bem-vindo, Zé Carlos.

Olá, Ricardo.

O que é afinal o Batalhão Azov?

O Batalhão Azov é um grupo paramilitar integrado nas reservas das Forças Armadas Ucranianas em 2014, que tem sido acusado internacionalmente de ser neonazi. Este grupo tem sido vital pra defesa de Mariupol atualmente, e também para o leste da Ucrânia, e tem tido uma atividade fundamental desde 2014, numa altura em que a Rússia anexou a Crimeia e também houve uma ofensiva militar no leste da Ucrânia.

Estás aí a falar em 2014. Foi nessa altura que nasceu este Batalhão Azov? Como é que ele nasceu?

Sim, foi em 2014, exatamente. E tudo começou depois de um golpe de Estado, que depôs um governo na Ucrânia e que instaurou um novo regime. Regime esse que se aproximava da União Europeia e que cortava os laços com a Rússia.

Estás a falar da revolução do Euromaidan.

Exatamente, o Euromaidan. E foi a partir daí que este grupo surgiu, inicialmente para defender o leste da Ucrânia, para defender a Crimeia, que era uma região que estava a ser alvo de ataques, e com a invasão russa da Ucrânia, com o objetivo de nazificação que Vladimir Putin expôs, foi ganhando uma grande notoriedade como um dos alvos para ele justificar exatamente esse objetivo.

Ou seja, fazendo aqui uma espécie de história rápida deste Batalhão Azov, ele nasce na sequência da revolução de Euromaidan, quando Yanukovych é deposto, um presidente pró-russo, e começa a ganhar força. Portanto, é uma espécie de batalhão paramilitar nacionalista para defender uma Ucrânia, um sentido de nação.

Sim, para defender o Estado independente da Ucrânia. Independente aqui também quer dizer integral, isto é, todas as regiões que a Rússia, nomeadamente a Crimeia, retirou da Ucrânia e também todas as regiões que a Rússia tem um interesse estratégico, nomeadamente as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk.

Zé Carlos Duarte, estamos aqui a falar de um grupo paramilitar disposto a pegar em armas para defender um ideal de nação, uma nação inteira, uma Ucrânia una. Estou aqui a ver alguns ingredientes comuns a outros grupos extremistas, quiçá neonazis.

Sim, é verdade, até começar pelo fundador do Azov, pelo Andrei Biletsky, que assumidamente é de extrema-direita, atualmente está à frente de um partido que defende estes ideais e, portanto, efetivamente há aqui realmente uma ligação neonazi. Não sabemos exatamente quantos membros é que têm esta ideologia, quantos membros é que defendem estas ideias, mas que há membros que o fazem, isso é verdade, é certo. Agora, categorizar este grupo como neonazi não parece ser correto, já que nada nos parece apontar para que o grupo todo seja e tenha estas ideias.

Mas se o fundador é neonazi?

Ricardo, deixa-me só acrescentar aqui este ponto. Andrei Biletsky entrou e fundou o grupo Azov em março de 2014, mas saiu em outubro para exercer as suas funções de deputado. E apesar de ter sempre havido aqui uma espécie de de ligação, nunca houve um corte total entre o fundador e o Batalhão Azov. Já houve aqui uma série de anos que se passaram e que moldaram o posicionamento político e o posicionamento ideológico do grupo.

Ou seja, essa influência foi se perdendo um pouco no interior do Batalhão Azov, é isso que estás a dizer?

Sim, exato.

E que influência este grupo tem agora na Ucrânia?

Atualmente, eles são preponderantes pra defesa de Mariupol e são eles que estão a garantir que a cidade não é tomada pelas forças russas. Politicamente, eles não têm grande influência. Eles, apesar de fazerem parte das reservas das Forças Armadas e de responderem a ordens do Ministério do Interior ucraniano, a influência política fica-se por aí.

Espera, Zé Carlos, portanto, este grupo está integrado no exército ou nas Forças Armadas ucranianas?

Sim, eles estão integrados nas Forças Armadas ucranianas desde o final de 2014. Foram integradas pelo ex-presidente ucraniano Poroshenko, que até os descreveu como os melhores guerreiros. Isto vem tudo na sequência da defesa lá está de Mariupol em 2014, após a primeira invasão russa da Ucrânia, quando em 2014 a Rússia tentou tomar o leste do país. Nessa altura, eles foram fundamentais também pra defesa da cidade e foi por isso que foram, não diria condecorados, mas premiados com este estatuto de serem integrados nas Forças Armadas ucranianas.

E essa defesa aguerrida de Mariupol em 2014 tem alguma coisa a ver com o nome do grupo?

Tem tudo a ver com o nome. Mariupol é banhada pelo mar de Azov e, em jeito de homenagem à grande vitória que o grupo obteve na cidade, decidiram denominar o grupo de Batalhão Azov.

E falávamos da influência política e da influência na Ucrânia hoje em dia, quando eu te interrompi, Zé Carlos.

Exatamente. Politicamente, lá está, eles não têm grande influência. Eles respondem a ordens do Ministério do Interior ucraniano, mas a influência política é praticamente nula. Eles não têm uma grande relação com o presidente Zelensky, eles até organizaram manifestações contra algumas ações do atual chefe de Estado ucraniano, um protesto em Kiev em agosto de 2021 em que o chamaram de palhaço, em que disseram que ele estava a estimular e a fomentar as relações com o Kremlin. Houve então sempre aqui uma espécie de uma tensão com o presidente ucraniano.

Mas atualmente, e perante a necessidade de homens treinados para defender o território, as questões ideológicas, Zé Carlos, são colocadas de parte, ou seja, quase que faz lembrar aquele velho provérbio português: "Em tempos de guerra, não se limpam armas". Neste caso, fecham-se os olhos às diferenças. É isso? Eles são necessários na linha da frente.

Exato. Eles estão a desempenhar um papel fundamental. Sem eles, Mariupol já teria sido tomado pelas forças russas. E daí que todas estas tensões que houve com o presidente ucraniano ficaram um pouquinho embaixo do tapete, porque o mais importante é defender a integridade territorial da Ucrânia do que propriamente estas divisões que existiram no passado. Convém não esquecer que eles são todos ucranianos.

Portanto, não há estrangeiros no Batalhão Azov.

Não, não há. E todos vibraram ao som da Stefania, da canção que representou e venceu a Eurovisão 2022. Aliás, um soldado que ainda permanece em Azovstal cantou essa mesma canção, em jeito de homenagem à Ucrânia e à unidade territorial do país.

Zé Carlos Duarte, convém aqui também olhar para a perspectiva do Kremlin. E Vladimir Putin sempre disse que queria livrar a Ucrânia de neonazis, é um dos argumentos russos. Já lá vamos olhar mais em pormenor pra essa questão da propaganda. Queria primeiro fazer-te outra pergunta sobre a Rússia e Moscovo, que alegadamente recorre também a grupos paramilitares, a grupos extremistas. Também estão no terreno?

Sim, estão no terreno neste momento no leste da Ucrânia. Isso é verdade, apesar de nunca, em circunstância alguma, ser admitido pelo Kremlin, mas efetivamente a Rússia sabe e tem insistência que estes grupos existem e até certa maneira os patrocina. Existem dois grandes grupos de extrema-direita na Rússia. O primeiro é o grupo Wagner, que é bastante conhecido e que foi contratado para assassinar Zelensky. Não tiveram sucesso, mas a Rússia tentou que eles assassinassem o presidente ucraniano, e o outro é o movimento imperial russo, um movimento cujo objetivo principal é recuperar a Rússia dos czares. E recuperando as Russias de czares significa conquistar outros territórios, nomeadamente a Ucrânia e outros, por exemplo, os países bálticos. Daí que haja até aqui um especialista que eu falei pra fazer o trabalho, explicou-me exatamente isso, que há aqui uma espécie de ligação de querer voltar à grandeza da Rússia, à Rússia voltar a assumir aqui um papel importante no contexto internacional.

Essa Rússia imperial, mas nada disso é assumido, não é?

Nada disso é assumido.

Olhando agora para a questão da propaganda e dessa luta contra os nazis e neonazis, a Rússia usa o Batalhão Azov também como manobra de propaganda para justificar a intervenção, por exemplo, em Mariupol?

Sim, eu diria que sim. Especialmente para justificar o objetivo da desnazificação. O Azov tornou-se um alvo ou um símbolo para realmente mostrar que há nazis na Ucrânia e que é importante lutar contra eles. Eu vou recordar o episódio da maternidade de Mariupol, em que o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, veio dizer que era um acampamento do Batalhão Azov e que foi por isso que a Rússia atingiu essa maternidade. Recusando aqui qualquer objetivo de matar civis ou de afetar esse tipo de população. Daí que a Rússia utilize este batalhão para, de certa maneira, justificar a sua ofensiva na Ucrânia.

José Carlos Duarte, o batalhão nasceu ligado a neonazis. A matriz extremista, já explicaste, atenuou-se nos últimos anos, sobretudo nos últimos meses. Mas quando olhamos para o símbolo do Batalhão Azov, em fundo amarelo, aquilo faz lembrar alguma coisa.

Sim, faz lembrar uma suástica nazi. O símbolo é um N que tem sobreposto um I, que faz lembrar um pouquinho uma suástica nazi.

É parecido com o símbolo das SS.

Exatamente, também é em preto e tudo faz recordar essa altura da história. Contudo, os Azov têm uma versão diferente. Eles dizem que é um I e um N e basicamente o que eles querem dizer é ideia nacional. Recusam qualquer ligação com o nazismo, com as SS, e dizem que é uma ideia nacional e é isso que eles querem. Basicamente, é a defesa da integridade territorial da Ucrânia.

Voltando ao início da nossa conversa, José Carlos Duarte, por tudo aquilo que explicaste, o Batalhão Azov é ou não é neonazi?

O Batalhão Azov, no seu todo, não é neonazi, mas temos de ressalvar que existem elementos que têm essa ideologia e que a defendem.

Obrigado, José Carlos.

Obrigado, Ricardo.

José Carlos Duarte é jornalista do Observador e assina o especial sobre o Batalhão Azov. Explica como nasceu este grupo paramilitar e como tem atuado na Ucrânia desde 2014 até os dias de hoje. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Diogo Casinha e a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.