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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Por que as contas dos partidos continuam a ser tão opacas, Paulo? Esta é que é a questão.
Esta é a questão, antes de mais, porque são os partidos que definem as regras que se aplicam a si próprios, o que é sempre um mau princípio, e definem também os mecanismos para tornar mais ou menos transparentes a sua vida financeira. E obviamente que não se espera que seja o Peru o grande entusiasta a organizar o Natal. Há uma última notícia sobre este assunto, que está no Público, diz que os partidos devem 1.400.000 € em coimas, mas ninguém revela quem deve, isto é, que partido concretamente deve e quanto, ou deve o quê, nem a quem. Quer a Procuradoria-Geral da República, quer a Entidade das Contas dos Financiamentos Políticos, uma entidade que funciona junto ao Tribunal Constitucional, ocultam essa informação. A entidade de contas só discrimina valores relativos a apenas, imagine-se, 28.000 €. Portanto, só detalha 28.000 € em 1,4 milhões. E parece também que o Ministério Público criou em 2010 uma aplicação informática sujeita, desde então, dizem eles, a permanente atualização, no fundo, para irem acompanhando as coimas aplicadas aos partidos pelo Tribunal Constitucional nestas matérias, mas não há maneira de divulgarem essa informação nessa supostamente super aplicação informática. Portanto, temos aqui a PGR e a Entidade das Contas dos Partidos, todos juntos a degradar a qualidade e a transparência da democracia.
Então e a Operação Emergente continua a causar estragos no PS?
Parece uma daquelas infiltrações que começam numa divisão e depois, passado algum tempo, começam a aparecer noutras paredes. Ou seja, nesta operação continuam a emergir arguidos. A Operação Emergente já tinha levado os investigadores à sede do PS, a autarquias, a várias figuras ligadas ao partido. Agora temos um novo capítulo, o presidente da Câmara da Amadora, Vítor Ferreira, foi constituído arguido por suspeitas relacionadas com regras de contratação pública. Alegadamente terá contratado Duarte Moral, o antigo assessor de António Costa e de José Luís Carneiro, por ajuste direto, para redigir um discurso na cerimónia de comemoração dos 52 anos do 25 de Abril. Preço pelo discurso: 2.200 € mais IVA, um belo negócio. Entretanto, o PS vê-se obrigado a repetir um exercício que já conhece bem, lembrar que um arguido não é um culpado, e tenta evitar assim que estes novos desenvolvimentos se transformem em problemas políticos mais graves. No fundo, o partido tem de lembrar que isto não o envolve diretamente, aliás, foi isso que fez desde o início, só que, ao que parece, envolve uma data de militantes e responsáveis políticos do partido.
Bruno, e esse acordo sai ou não sai?
É aquela pergunta que toda a gente faz quando as negociações entram na fase do "está quase", e é também aquilo que os empregados de mesa dizem para sossegar os clientes: "Está mesmo, mesmo a sair." Os Estados Unidos e Irão anunciaram agora um memorando de entendimento. O acordo deverá ser assinado na sexta-feira, mas vamos com calma, porque cada lado parece ter aqui uma ideia ligeiramente diferente sobre aquilo que está prestes a assinar. Há consciência em alguns pontos, manter o cessar-fogo, reabrir o estreito de Ormuz e avançar para novas negociações sobre o programa nuclear do Irão. Depois é que a porca torce o rabo, como se costuma dizer. Teerão fala em ativos descongelados, reconstrução económica, levantamento de sanções. Já Washington garante que qualquer benefício será dado aos poucos e apenas se o Irão cumprir a sua parte. Ou seja, o acordo está mesmo a sair ou ainda vai demorar uns dias, dependendo da versão. Era ontem, agora é sexta-feira, só faltam uns detalhes e sabemos que é aí, nos detalhes, que o diabo faz o ninho.
Paulo, e temos em cima da mesa mais uma reforma estrutural muito difícil.
É verdade, mais uma não é, mas talvez esta seja a mais complicada de todas, de facto, como no país é muito difícil mudar o status quo. Pode ser por falta de vontade ou tibieza das lideranças, pode ser com medo da impopularidade das medidas. O que é certo é que os assuntos vão sendo discutidos na praça pública, até há quem se posicione muitas vezes a favor ou contra mudanças, mas ano após ano fica tudo na mesma, sem que alguém se atreva, de facto, a sequer testar os ganhos e as perdas da mudança. Falamos, obviamente, do grande assunto que tem dominado estes dias e que é da máxima importância para o país. Ronaldo deve ou não continuar a ser titular da seleção? No mínimo, o tema devia merecer uma comissão e um livro branco. Não podemos, obviamente, enquanto país, continuar a viver nesta permanente incerteza.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.