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Antes de começar o episódio, vamos só lembrar que vamos ter "Amiga, Faz Parte" ao vivo no próximo ano. Ainda temos alguns bilhetes, são mesmo os últimos e o balcão lá em cima que ainda tem alguns bilhetes disponíveis. Portanto, fica aqui a minha sugestão para oferecerem a quem gosta do podcast e para oferecerem a vocês mesmas como prenda de Natal. Vai ser dia 24 de fevereiro no Teatro Maria Matos, em Lisboa, e vamos fazer o espetáculo ao vivo. Não vai ser só um podcast em que nos vamos sentar aqui, eu e um convidado, e falar. Vamos ter vários momentos diferentes. Também vão me ver a mim a solo, várias dinâmicas que fazem parte de todo o ambiente do "Amiga, Faz Parte". Portanto, fica aqui a minha sugestão, link na descrição pra Ticketline e vemo-nos em fevereiro no Teatro Maria Matos. Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. Hoje vou trazer aqui uma amiga minha, que eu acho que já esteve aqui duas vezes, contando com o "Amiga das Casa", que é a Sara Vicário. E vamos falar sobre um tema que eu já queria abordar há muito tempo. Já falei aqui de distúrbio alimentar, relação com o corpo, com a alimentação, tudo mais, que eu passei por isto e continuo a passar, porque é uma coisa que eu acho que vai estar sempre comigo. E a Sara também se identifica muito, porque também passou e passa por este processo de uma pior relação com a comida, relação mais emocional. Inclusive, temos as duas compulsão alimentar, e já falamos várias vezes sobre isso e debatemos muitas vezes entre amigas este tema. Especificamente dentro deste tema, eu queria abordar o impacto das redes sociais na nossa imagem corporal, a distorção corporal, e o impacto que a cultura da dieta tem na forma como nós nos vemos. E cultura da dieta, falo de dietas loucas que eu própria já fiz, de comer só produtos processados e umas dietas muito hipocalóricas, mas falo também de Ozempics, Monjaros, GLP-1, que é agora a nova trend, que é os injetáveis que anda imensa gente a tomar, e que nós queríamos debater um bocadinho sobre este tema. Nenhuma de nós é especialista, não sabemos assim tanto o assunto porque não tomamos, mas viemos dar a nossa opinião sobre este tema enquanto pessoas que já passaram e que passam por isto todos os dias. Portanto, eu espero muito que vocês gostem. Não é fácil, eu sei, mas, amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume. Bem-vinda de volta, um aninho depois. Eu depois também faço uma reflexão.

Muito feliz de estar aqui.

Estás feliz? Como é que foi este teu ano? Como é que tens estado?

Estávamos a dizer que foi um bocado semelhante ao ano passado e, na verdade, eu acho que chega uma altura, que foi o que nós falamos no último episódio, que não vão constantemente acontecer coisas loucas que marcam o teu ano, porque nós temos uma fase da nossa vida que acabamos um curso, compramos uma casa, isto e aquilo, e chega uma altura que a vida vai estagnar. E eu acho que a beleza da vida é começares a apreciar as coisas pequenas que vais fazendo sem essa pressão. Por isso, foi um ano tranquilo, estou muito feliz. Não sei se cumpri todos os objetivos, ainda não vi.

Ainda não fizeste essa análise.

Ainda não. Guardo mais pro final do ano, que é pra não pôr essa pressão.

Mas nós estávamos a falar, porque nós o ano passado, foi mesmo no final do ano que nós fizemos esta reflexão.

Eu acho que foi o último episódio do "Amiga, Faz Parte", foi ao vivo.

E eu acho que a tua conclusão foi a mesma, de que não tivemos assim momentos uau.

Exatamente.

Boa. E como é que tens estado neste último mês de dezembro? Caótica, trabalho? Como é que estás a lidar?

Dezembro, por causa da marca e também a nível de campanhas e tudo mais, pra mim é sempre um mês caótico, mas eu também sinto que ao longo do ano vou guardando todo o trabalho quase pra aqui e neste mês eu sinto muito o trabalho e isso também me deixa muito feliz. Ou seja, eu ando de rastos, cansada, cheia de olheiras, de um lado pro outro, sempre, quase sem dormir, mas ao mesmo tempo estou superfeliz, porque como eu gosto tanto do meu trabalho e acho que é um privilégio gigante, estou sempre tão grata que nem consigo quase, ou seja, sinto-me cansada, mas um cansaço tão feliz que...

Sim, mas estavas a dizer que te faz um bocadinho de confusão não teres conseguido, por exemplo, a parte do desporto, rotina. Ou seja, esta fase com mais trabalho também acaba por afetar. Como é que consegues lidar com isso?

Eu acho que não devia afetar, porque, por exemplo, eu vejo em ti que tu conseguiste incluir os treinos, alimentação, etc., na tua rotina. E claro que tu tens sempre quebras e semanas, ok, que não fazes tanta coisa, mas eu acho que o desporto, e eu quero que o desporto faça parte da minha rotina, tal como lavar os dentes, percebes? Ou seja, claro que há semanas em que vou conseguir cumprir com mais treinos ou mais coisas do que outras, e acho que isso é normal e é uma aceitação que temos todos que fazer, mas ainda não sinto que estou no ponto em que é parte da minha rotina. Eu tenho que pôr na agenda como uma coisa superficial, quase como se fosse uma reunião. E eu não quero que seja isso. Eu gostava muito de aprender a encaixar de uma forma mais natural.

Mas sabes que eu acho que também encaixei numa fase em que eu estava com muito mais tempo livre. Que foi na fase também de transição, de terminar a marca. Ou seja, se eu estivesse a tentar encaixar neste mês de dezembro, por exemplo, acho que ia falhar totalmente.

É isso.

Porque ia sempre olhar pro trabalho como a prioridade.

É isso.

Bom clip.

De estar sempre nesse ciclo de tentar, falhar e depois pressiono-me imenso por estar sempre a tentar e falhar. Ou seja, tento, como não consigo...

Tu queres ir de um oito ao 80.

Exato.

E como, ou seja, decides é agora e depois não consegues fazer o 80, volta ao oito.

É isso. Mas já estamos a gravar?

Eu acho que estamos. Ok, boa.

Ok.

Porque eu acho que quando eu quis que o desporto fizesse parte da minha vida, foi muito olhar pra aquilo como um trabalho. Eu meio que substituí a marca, tipo, agora isto vai ser o meu segundo trabalho, vou treinar três horas por dia.

Tiveste ali duas fases que coincidiram muito, que estavas cheia de trabalho e ficaste quase sem essa parte muito grande da tua vida. E em mim, o que eu sinto é que tenho posto cada vez mais pressão. Como já tentei tantas vezes e falho sempre nalguma semana, é isso, é o ir do oito ao 80, que tal como as dietas, é o maior problema que eu acho que é tu tentas tudo e acabas por não ter uma reeducação alimentar, mas simplesmente Cortas tudo aquilo que te faz mal ou que não queres, ou cortas todos os açúcares e do nada, como é que vais fazer isso? Tu antes comias açúcar todos os dias e fazes um corte drástico. Claro que isso para algumas pessoas pode funcionar, mas eu acho que o problema de todas essas coisas, dos oito aos 80, é o a longo prazo. E acho que tu não consegues manter ou encaixar essas coisas numa rotina, se for um oito ou 80. Mas tu achas que tu vias ou ainda vês o desporto numa ótica de quereres ter um certo corpo e perder peso e por isso é que não funciona, porque não vês resultados logo? Eu acho que nunca tive, como tu, por exemplo, uma ligação com o desporto. Fui fazendo desporto na minha vida, mas nunca pertenci a nada, fiz vólei ou fiz isto ou aquilo, ginástica como tu. E então, o desporto não faz parte da minha vida de uma forma natural. Mas eu acho que com o nosso crescimento, nós percebemos que é uma coisa que é importante para nós, para a nossa saúde, mais do que para o corpo, eu até acho que mais a nível da saúde. Para a cabeça. Olha, isso é uma das coisas que eu noto mais diferença quando faço desporto regularmente, é a nível da saúde mental. Tem ali aquele desgaste de hormonas grande que me ajuda, pelo menos naquele dia, a viver o dia com muito mais tranquilidade. E, portanto, eu fui percebendo que me ajuda. Claro que o corpo infelizmente sempre vai ser também não só uma consequência, mas uma parte que me leva a querer fazer desporto. Mas o que eu tentei fazer este ano, que foi um dos objetivos do ano passado, foi experimentar muitas coisas. Experimentei pilates, experimentei correr, experimentei fazer caminhadas, experimentei ténis, experimentei um monte de coisas, cycling, para perceber o que eu gosto e o que eu consigo realmente gostar e encaixar. E o que é que gostaste mais? Ténis. Eu adorei. Eu sou uma lástima gigante, mas eu naquela hora, estou ali com o meu treinador, sem pressão nenhuma, porque ele é supertranquilo e não tenho pressão de evoluir, nem sequer é uma coisa que eu precise de fazer para as redes, ou seja, é uma coisa que eu estou ali mesmo de cabeça livre. Portanto, eu não tenho que mostrar a ninguém a minha evolução, isto ou aquilo, não me estou a comparar. E estás a treinar e não sentes. Eu pelo menos quando estava a ter aulas de ténis, estás a mexer imenso e não estás a reparar que estás a mexer. Exato, porque é divertido, por muito que vá falhando e não passa nada, ainda nem jogo. Sim, não é como ir ao ginásio. Estás ali, sabes que estás a treinar para um objetivo. E eu tive que parar porque a minha escola fechou durante o verão, depois tive um pequeno problema e não consegui jogar durante imenso tempo e agora estou a tentar retomar, só que ainda não consegui voltar a encaixar na rotina, porque eu preciso mesmo de... Ter as aulas marcadas. Segundas às 9, todas as semanas eu tenho ténis. A não ser que vá viajar ou que vá fazer qualquer coisa, eu preciso disso, de estar mesmo presente na minha rotina. Para mim é o que funciona, eu acho. Estávamos a falar que estamos com um ano de distância e eu o ano passado também estive nessa fase. Exatamente. De experimentar imensa coisa. Sim, porque tu experimentaste tudo. Tudo e mais alguma coisa. Então foi tudo, tudo e mais alguma coisa. E depois percebeste que no teu caso, a corrida funcionou muito. Foi, fui entrar para o ginásio, porque eu gostei muito da corrida e precisava do ginásio para fazer o reforço para a corrida. Exato. Sim, eu também gostava de voltar ao ginásio, lá está, porque infelizmente também em casos monetários, não consigo estar a treinar ténis três ou quatro vezes por semana, porque acaba por ser um desporto caríssimo e, portanto, também quero muito encaixar o ginásio para fortalecer. Sim, mas se calhar, se fores mais regrada agora no ténis e aí seguires direitinho, se calhar tens a necessidade também de ir para o ginásio para teres o reforço para o ténis. Pelo menos isso foi o que aconteceu comigo. É mesmo importante nós começarmos a ver o desporto como tu tiveste a sorte de com a corrida começares a ver, como uma coisa que te dá prazer e que tu gostas, e não de atingir certo corpo, porque se nós estamos sempre neste ioiô, em que fazemos muito e depois conseguimos atingir um corpo ou perdemos algum peso e não sei o quê. E depois, claro que se não é uma coisa natural para a tua rotina, vais voltar a ganhar o peso ou a tirar isso da tua rotina ou a pôr outras prioridades. Portanto, eu acho que para mim, o grande objetivo agora vai ser mesmo estagnar e tentar encaixar. É a coisa que eu já percebi. Eu já tive imensas fases em que eu queria essa solução rápida e não tinha o desporto na minha vida, não sabia comer bem e ia buscar essas soluções. Tu acompanhaste muito esses processos, eu entrar para aquelas dietas loucas. Eu, felizmente, eu já tive. Tu nunca te meteste nisso. Imagina, eu quando era mais pequena, mais nova, na adolescência, tive ali uma fase, eu não vou dizer anorexia, porque não era anorexia, mas eu tentava não comer e percebia que se eu não comesse o almoço, por exemplo, podia comer mais ao jantar ou as coisas que eu gostava, então uma descompensação total e absoluta, porque eu também, como eu digo, tenho paladar infantil e é verdade, infelizmente, não experimento muitas coisas, estou também a tentar mudar isso imenso. Olha, ir para Bali foi uma das coisas que me ajudou a experimentar imensas coisas. Se lá é tudo megaexquisito, ou então comes frango e arroz e pronto. Exato. Ou vais para os sítios de brunch, e eu experimentei, porque estava com uma amiga que era vegetariana, então comi um monte de coisas que eu não comia e estou a tentar também levar um bocado essa descoberta. Ou seja, na minha infância eu tive um bocado essas fases mais de privar-me de comer para emagrecer, mas nunca fiz nenhuma dieta daquelas, tipo da farmácia ou leves ou batidos, isto e aquilo, detox. Dieta do ovo. Dieta do ovo, dieta da sopa. Já tive aquelas coisas de: "Agora não vou comer hidratos." Ainda por cima hidratos, que é uma coisa que eu preciso tanto, porque eu sou italiana ou parte de mim. Todos precisamos. Mas imagina, eu tenho que comer massa uma vez por semana, não me vão tirar isso, desculpem. Eu posso fazer a dieta que quiserem. E depois ao estás a cortar, vais compensar noutro lado, mais tarde. Exatamente. E eu acho que para mim o mais importante é fazer uma reeducação alimentar, ou seja, aprender a comer e introduzir alimentos mais saudáveis do que estar preocupada com seguir uma dieta, porque é isso, tu segues uma dieta e há dois anos eu consegui emagrecer 10 quilos. Estava a fazer desporto, até era em casa, e regrei-me imenso na comida. Pesava a comida, via as calorias de tudo. Comecei a ficar um bocado obsessiva e resultou.

Sempre tiveste uma má relação com comida e corpo? Desde sempre ou quando é que isso surge?

Eu acho que sem notar, sempre tive. Não saberia explicar por quê, porque eu em criança acho que tenho um corpo diferente das outras pessoas. Ou seja, não sou aquela pessoa que tem as perninhas magras como as minhas amigas quando eu era pequena, sempre tive mais anca, mais rabinho e depois, se calhar, o tronco até mais fininho. E então, eu acho que por me ver sempre diferente, sempre foi um complexo. Eu não uso calções para sair à rua, normais de andar no verão, desde os meus 12, 13 anos. Eu não uso calções. Se tu fores ver o meu Instagram.

Vestidos curtos?

Vestidos curtos não uso.

Não?

Podes me ver numa exceção com umas meias, uma coisa assim. Eu odeio as minhas pernas a um nível de, desde essa altura, que eu agora olho para as fotografias e penso: "Tu estavas super magra." Nem era magra, era demasiado magra para mim, para o que eu acho. Claro que isso depois é um conceito que podemos definir aqui de várias formas. E olho para essas fotografias e penso: "Como é que é possível?" E na altura eu estava: "Ah, esse celulite, meu Deus", não sei o quê. Sempre fui uma pessoa que teve celulite, eu tenho retenção de líquidos. E eu acho que o importante é lá está nós percebermos, e acho que o body positivity que muita gente fala, é tu perceberes e aceitares não que tens que estagnar, não fazer desporto e comer o que tu quiseres, não é isso. É sobre gostares do teu corpo e da tua forma como ele é. Ou seja, tu e eu somos diferentes. Eu sou mais alta, tu és mais baixa, eu tenho menos peito, tu tens mais, eu tenho mais anca, o que seja. E nós nunca vamos encaixar exatamente na mesma peça, porque somos diferentes. E acho que o body positivity devia ser muito mais sobre isso do que hoje o que vemos que é tendências de corpos. Agora está na moda ser excessivamente magra. Então as Kardashians estão a tirar os silicones e vamos todos na maré sem percebermos, às vezes.

Mas achas que isso tem afetado a ti, pessoalmente, aquilo que tu vês na net?

Eu não sei se é o que eu vejo na net, mas eu às vezes até acho que as nossas influências diretas, as nossas amigas. Eu notei que, se calhar, por pressão externa dos mídia, das redes sociais.

Sei lá, as pessoas normais à tua volta têm corpos normais.

Têm corpos normais, mas eu notei que, por exemplo, do ano passado para este ano, houve uma preocupação extrema de quase todas as minhas amigas em fazer dietas, ir para o ginásio, emagrecer.

A sério?

Muito, muito grande.

Mas achas que isso também não pode ser uma onda de uma começa e a outra também quer ir e arrasta?

Sim, sem dúvida. E depois tu vês: "Ah, ela conseguiu emagrecer, eu também quero", e segues um bocado. E eu acho que isso pode ser positivo, porque incentivas, se for numa questão saudável, obviamente, como nós estamos a falar, de incentivares as tuas amigas a terem um estilo de vida melhor, mas eu sinto que há muita pressão hoje em dia para cada vez mais, nem digo que é para ter corpo X ou Y, mas para fazeres desporto e tudo mais. Eu acho que isso é bom.

Ser a tua melhor versão.

Exato. E eu acho que isso é bom, mas, por exemplo, a mim começou a ser um trigger estar sempre a falar disso. Eu ir a um jantar e as minhas amigas estarem todas a dizer: "Ah, isto aqui não vou comer porque..."

Mas eu não consigo ter essas conversas, porque para mim é um trigger.

É um trigger gigante.

Mas acho que as pessoas à minha volta têm a noção disso e não têm essas conversas.

Eu acho que como nunca falei muito abertamente sobre isso, porque eu também evito, às vezes, temas que me deixam desconfortáveis e que são para mim triggers, eu evito falar deles que é para as pessoas nem saberem que é um trigger, não sei se isto faz sentido. E então tento só evitar. Ou seja, estão a falar sobre isto e eu desligo e vou para o meu mundo.

Estamos a falar de amizades, mas mesmo em família, "Ah, vais comer isso", não sei o quê. Às vezes tenho este tipo de comentários, mas eu já deixo passar, porque isso já me afetou muito.

Não, isso lembra-me perfeitamente de, nunca contei isto a ninguém, sequer. Mas houve um Natal que uma pessoa da minha família fez um comentário sobre uma coisa que eu ia comer. Eu fui fechar-me na casa de banho a chorar, no Natal. Eu não entendo já tocar as camadas mais velhas da minha família.

Tios e avós.

Às vezes é do gênero-

Não percebem.

Olha, deixem estar. Que falem só.

É chegares de férias e o outro: "Estás mais gordinha."

Exato. Pronto, é o que é. Já vou aceitar. Acho que temos que tocar cada vez mais nas pessoas ao nosso redor, mais no núcleo de amigos, porque são coisas que estão ao nosso alcance. E às vezes eu sei que um comentário não é por maldade. Por exemplo, dizerem que estás mais magra. Pode ser um elogio. Para mim, sempre foi um trigger.

Vou olhar para o meu corpo e estou a tentar mudar o meu corpo.

Então, mas antes estava gorda? Mas olhaste para mim por quê? Mas reparaste? Ou seja, claro que isso pode ser a pessoa a tentar fazer-te um elogio ou um comentário positivo. Para mim, é um trigger gigante.

Mas não achas que falasses abertamente com estas pessoas à tua volta? Trazer o tema, se calhar aliviava um bocadinho e tinham mais consciência de que isso te afeta e para a próxima já não faziam igual.

Acho que pode ser uma solução, que eu até agora, uma das minhas estratégias, claramente problemática, com problemas, é esse, é evitá-los. É tipo, está aqui um problema? OK, vamos puxar para o lado que é para nem pensar muito sobre, para nem pôr a minha cabeça demasiado consciente sobre isso. Então eu tento só evitar. Ou seja, começam a falar sobre o assunto, eu desligo. Alguém faz um comentário, eu tento não ir muito a fundo.

Mas estavas a contar que a relação com o teu corpo também foi evoluindo, mas hoje em dia, tendo todas as soluções rápidas e fáceis que temos disponíveis à nossa frente, por que tu nunca cedeste? E não falo já, que vamos falar um bocadinho mais à frente, dos Empics da vida. Falo mesmo de dietas como eu já fiz, por exemplo, por que tu nunca acabaste por ceder?

Eu não sei. Eu acho que como há coisas que até estão fora do meu alcance, ou seja, por exemplo, um familiar meu fez uma dieta que era da farmácia, que era a primeira semana era só comer alface, a segunda introduzias não sei o quê. Uma loucura. Emagreceu imenso, mas eu penso, eu não consigo comer só alface, que eu nem gosto de alface. Portanto, eu acho que fui excluindo essas dietas, porque como eu sei que não me vão encaixar, é isso. E pronto, felizmente ou infelizmente, nunca cedi.

Eu acho que se calhar não é um problema assim tão grande para ti Porque se fosse, tu ias acabar por ceder.

Se calhar. Já pensei muitas vezes nisso e principalmente agora, por exemplo, com esta questão dos fármacos injetáveis, que parece que está quase ao alcance de toda a gente. Se uma pessoa pensa, porque vê outras pessoas à volta e é tão rápido e tão fácil e nem tem que fazer escolhas alimentares. Claro que tu pensas sobre isso, mas eu acho que cada vez mais estou consciente, e é uma das coisas que estamos a falar, que é a rapidez e esta questão de tu não te vais reeducar, tu vais ter uma solução rápida e eu sei que depois vou voltar a ganhar o peso outra vez. Por exemplo, essa dieta que eu fiz, que resultou super bem, não era extrema, mas pesava a comida, etc., que eu acho que pode ser importante quando estás em excesso de peso, ter algumas noções e aprenderes as quantidades, etc. E foi importante para mim, mas eu assim que tive um problema familiar, ganhei o peso todo e ainda mais. Portanto, eu sei que é isto que vai acontecer comigo, que é, se eu não me reeducar, se eu não introduzir isto na minha rotina, como tu, por exemplo, estás a fazer de uma forma que eu acho muito mais saudável, por muito que tenhas na mesma pensamentos.

Mais extremistas.

Exato. Ou seja, claro que nunca vai ser 100% saudável, mas acho que o fizeste de uma forma muito mais natural e eu gostava de tentar fazer isso comigo, porque se não for, eu sei que vou ganhar o peso todo outra vez. E eu acho que estar neste loop de pessoas que já tentaram a dieta desta ou daquela e voltam a ganhar o peso, ainda cai uma pressão maior sobre ti, porque tu pensas: "Eu nem com isto consigo."

Depois deixas de ter soluções, porque aquele é o último recurso.

Exato, tu vês como último recurso. E eu acho que há muita gente que depois até desiste, porque pensa do gênero: "Eu simplesmente não consigo." E se entrares nesse loop, eu acho que é um bocado perigoso.

Mas eu acho que todas estas pessoas que se calhar estão a entrar por estes caminhos e que experimentaram todas as dietas, é muito a relação emocional com a comida. Portanto, isto é muito mais tratar a ligação que tens emocional e a cabeça, do que propriamente falta de vontade. Percebes que eu acho que associamos muito quem é mais gordinho ou quem ganhou peso a não ter a motivação e não ser disciplinada. E eu acho que é muito mais do que isso.

Eu acho que esse é um dos maiores problemas e mesmo para explicar às pessoas, do gênero: "Mas por que não consegues perder peso? É só fechar a boca e ir para o ginásio." E tu conseguires introduzir ou explicar que tens uma relação emocional com a comida ou o que quer que seja, é tão complicado e eu vejo pelas pessoas à minha volta que não estão preparadas ou não entendem. Eu até posso explicar, mas não vão entender, porque se calhar nunca passaram por isso, tal como muitas outras coisas. É a falta de empatia que se calhar as pessoas têm. E uma das coisas que eu acho que devia ser obrigatória em qualquer dieta, principalmente quando estamos a falar de fármacos e de saúde, de coisas que são receitadas por um médico, devia ser obrigatório uma pessoa que estava a fazer um tratamento deste gênero, ter acompanhamento psicológico. Obrigatório, porque estas pessoas, e não há muitos estudos ainda sobre isto.

O que me assusta é isso, é não saberes quais são as consequências a longo prazo.

Exato. Porque é um fármaco relativamente recente, ou seja, para a longevidade de um fármaco, tem 10 anos, se calhar, não sei ao certo, mas mais ou menos. Portanto, tu não consegues ter provas suficientes do que é que vai acontecer. E no outro dia, por acaso, estava a ver um estudo de que há uma percentagem muito grande de pessoas que perdem o peso e voltam a ganhar. E será que isto não vai trazer ainda mais consequências psicológicas para esta pessoa que viu isto como último recurso, conseguiu perder imenso peso, recebeu imensos elogios de imensa gente e do nada volta a engordar tudo outra vez?

E depois associas a: "Eu só sou feliz quando tiver aquele corpo outra vez." E aquela é a única solução, aquela pílula mágica.

Isso é outro problema que eu acho que as pessoas, muitas vezes com excesso de peso ou com outros problemas, por exemplo, tu estás com problema de saúde mental ou estás com problema de excesso de peso, de obesidade, o que seja, e não estás feliz. E tu metes o excesso de peso ou a ansiedade, o que seja, como a tua consequência de vir a ser feliz. E então, o que eu acho, e já falei com uma amiga sobre isto. Ela achava que quando perder peso ia ser feliz, ia ser confiante, ia adorar ver-se ao espelho. O que aconteceu? Ela conseguiu perder esse peso todo e ainda não está feliz. Tem um problema de distorção de imagem e, portanto, ainda tem esse peso maior de: "Ok, consegui, mas ainda não atingi o patamar que eu achava que ia."

Depois continua sempre a elevar a fasquia, porque quer sempre ser melhor.

Exato.

E porque as pessoas me elogiaram, então tenho que ser ainda mais magra.

É um problema.

E vamos fazer uma pausa no episódio de hoje para vos falar do patrocinador, que é a About You, que é uma plataforma com imensas marcas, tem mais de 300 mil artigos de roupa e não só. E fazendo também o paralelismo para este episódio, que para mim faz todo sentido, a forma como eu me visto impacta muito a minha confiança, a forma como eu apareço no meu dia a dia, a postura que eu tenho, a energia que eu tenho. A moda tem esse efeito em nos fazer também transmitir um bocadinho daquilo que nós somos. E a About You é o sítio perfeito para encontrarmos tudo aquilo que nós queremos, seja para festas, roupa de desporto, roupa casual, tem imensas marcas diferentes e fica aqui a minha sugestão também, se ainda não tiverem as prendas de Natal todas. Tem um código de desconto também na About You para poderem aproveitar, que é NATALMARY. Eu vou deixar aqui escrito no ecrã também, tudo em caps lock, para poderem aproveitar. E a maior vantagem, eu acho, de fazer compras online e aqui na About You de ser também uma plataforma com tanta variedade, é que podemos fazer todas estas compras no conforto da nossa casa, podemos devolver em 30 dias e também tem facilidade de pagamento. Por exemplo, tem a opção de Klarna, não sei se vocês conhecem, mas é um pagamento em que vocês podem pagar às prestações, sem taxas associadas, portanto, em três meses conseguem fazer o pagamento da vossa compra completa, portanto, ajuda muito, principalmente nesta fase de gestão de orçamento, de compras de Natal. Portanto, fica aqui a minha recomendação. Deixo aqui o código de desconto e as informações todas na descrição e espero que ajude a facilitar as vossas compras de Natal, mas também a encontrarem coisas giras para o vosso armário e nos fazer sentir mais confiantes. E eu acho que, por exemplo, estas coisas que estamos aqui a falar, Ozempic, Mounjaro, tem outros nomes agora. Vi que lançaram seis novos.

Há outros, sim. Porque o Ozempic foi o original.

Pronto, mas o composto, o GLP1, que está presente em todos. E o que eu acho é que tomando estas coisas, estas substâncias, a longo prazo, aquilo que tu estás a fazer é, tu não estás a reeducar, portanto, tu só estás a comer menos, deixando Tu não construíste músculo, portanto a maior parte das pessoas não vai para o ginásio, não faz nada, porque acaba por ser muito fácil, é só comer menos. E as consequências eu acho que é isso, a longo prazo, tu tens menos músculo porque perdes também a massa magra. Não sabes comer. Portanto, a probabilidade de no futuro voltares a ganhar ainda mais e teres mais problemas de saúde, eu acho que é muito grande.

Exato.

Porque não estás a mudar comportamentos.

Exatamente. É isso. Basicamente, o maior problema eu acho que é esse, porque tu não estás nem a mexer no teu metabolismo. É um fármaco que vai atuar para que tu fiques saciado e portanto tu não vais ter a vontade de comer e vai te ajudar a controlar os açúcares.

Mas eu acho que, e é importante referir isto, isto existe porque tem muitos benefícios para diabéticos, mas também para quem é muito obeso e que precisa de ajuda nesse sentido. Já tentou tudo, é uma doença, precisa resolver, ok. Como primeira instância, acho que sim. Depois é preciso haver a reeducação, o acompanhamento psicológico, tudo isso.

Eu acho que mais do que ser depois, é durante. É tu começares um tratamento e esse tratamento ser acompanhado por um psicólogo a nível nutricional, ou que seja, que te ajude a ires acompanhando a tua imagem, porque primeiro é um processo muito rápido.

Muito rápido.

Muito rápido.

Assustadoramente rápido.

Uma pessoa num mês perde 10 quilos, para aí, não sei, mas coisas assim nota-se perfeitamente. Tu vês. Depois as pessoas também, como está a haver tanto estigma à volta disto, as pessoas ficam com vergonha de falar sobre o assunto.

Mas eu acho que há dois lados. Há muita gente que tem vergonha, mas depois há muita gente que já está a querer falar abertamente sobre isso e que até quer promover isso.

Eu acho que os dois lados são um problema. Ou seja, tu não deves ter vergonha de estar a tomar um fármaco. Se tu tens a tensão alta, tu tens que tomar um fármaco para a tua tensão alta. Se tu tens obesidade e sai esta possibilidade, e se o teu médico, claro que depois podemos questionar aqui a questão dos médicos, mas isso como tudo, mas se o teu médico te aconselhou este fármaco, então obviamente que não podes ter vergonha. É uma coisa que estás a fazer pela tua saúde.

E se tu partilhares isto na net, ainda mais importante é tu falares abertamente sobre este tema.

Sim.

Qual achas que é o papel de influenciadores e não só, pessoas que partilham a sua imagem publicamente, de repente aparecem com menos 10 quilos e não dizem nada?

Eu acho que é preciso nós termos cuidado com duas coisas, porque na questão da saúde, eu estudei Ciências Farmacêuticas e tenho muito cuidado com tudo o que seja fazer publicidades a suplementos, a falar do que é que tu tomas, tudo o que seja medicação, qualquer coisa relacionada com saúde, eu acho que é preciso ter muito cuidado. Portanto, eu percebo que se for um criador de conteúdo que tem uma plataforma grande, tu também não queres estar a influenciar pessoas. Ou seja, as pessoas vão ver o teu percurso ou tu desapareces e apareces magra.

Mas aí tens que falar na mesma.

E tens que falar, exato, vais ter que abordar o elefante na sala. Mas eu acho que é preciso ter cuidado da forma como falas. É não referir medicamentos, é referir se calar que estás a ser acompanhada, mas eu acho também não devam fazer disto um tema muito grande, porque no Brasil está a acontecer isso, que é há muitas influencers brasileiras que começaram a tomar esse fármaco, por aconselhamento médico ou não, não sei. E há uma popularidade tão grande à volta deste medicamento que as pessoas estão a normalizar aquilo de uma forma estranhíssima.

Mas é que eu acho que isso vai acabar por acontecer aqui também.

Sim, é isso.

Quanto mais fácil for o acesso.

Claro.

Mais pessoas que não são obesas vão procurar este fármaco.

Sim, claro. E esse é o problema.

E esse é o problema.

Esse é o problema, porque nós, e estamos aqui a dar a nossa opinião sem ser especialistas na área ou o que quer que seja, mas nós achamos que as pessoas devem comunicar por uma questão de clareza. Tu não mentires.

Não omitir.

Não omitir, exato.

Não tem de ser tema, mas tem de ser trazido à tona.

Eu acho que tem que ser referido, sim. Com cuidado, claro, porque não deixamos de estar a falar de saúde, mas acho que tem que ser referido, porque eu ver uma pessoa que eu sigo a do nada perder imenso peso e fingir que foi ao ginásio e que tem uma vida super saudável, para mim vai me dizer: "Ok, mas eu se calar vou ao ginásio, não consigo. Quando é que ela vai ao ginásio? Mas eu não tenho tempo." É a comparação que vamos ter, mas ao mesmo tempo, se tu falares.

Também estás a influenciar pessoas a tomar.

Eu também olho para o percurso das pessoas e penso: "Eu também quero perder 10 quilos em um mês. Ok, ela conseguiu, então se calar isto também é uma solução para mim." Portanto, eu acho que tem que haver mesmo um cuidado muito grande e estão a haver agora algumas investigações relativamente a médicos por causa das receitas, porque é preciso ter cuidado. E acho que as farmácias também estão a ter cada vez mais cuidado com as receitas e tudo mais, porque hoje em dia, infelizmente, é muito fácil tu conseguires uma receita de alguém e comprares o medicamento, seja ele qual for. Portanto, isto é um problema. Eu acho que é um problema que não há uma solução, não há uma resposta certa ou errada. É tu tentares fazer as coisas com a maior ética possível e a pensares se fosses tu enquanto consumidor e a ver estes conteúdos, como é que tu gostavas de ver abordada esta situação. Mas acho que é importante que se fale.

E a ligação com o body positivity que tu estavas a falar antes, o que tu achas sobre isto? Porque o body positivity é a inclusão de aceitarmos como somos, e acho que isto também as pessoas veem de forma errada muitas vezes, mesmo que tu queiras melhorar. Isto também está incluído neste conceito. Não é simplesmente deixares estar porque eu gosto de mim sempre. Tu podes querer melhorar.

E acho que é o suposto.

Aceitas as fases em que estás, não és menos por estar assim, mas podes querer melhorar. Mas de que forma é que achas que tomar este tipo de medicamentos vai um bocadinho...

Imagina, enquanto consumidora Por exemplo, a Spencer Barbosa, que é uma influencer americana que fala imenso sobre body positivity.

Não tomou?

Não. Mas ela a mim impacta-me muito. Eu revejo-me imenso nela. Por muito que não tenha um corpo parecido, mas ela olha para o corpo dela com tanta confiança, e atenção que eu não acho que ela tenha nenhum problema de obesidade, não tenho a certeza, não sei quanto é que ela pesa, mas tem um corpo diferente da norma, daquilo que se espera que uma pessoa tenha, de uma rapariga de 20 e não sei quantos anos. E eu olho para ela muito como um exemplo de confiança. Há montes de gente que comenta nas fotografias dela, onde seja: "Foi por causa de ti que eu consegui vestir pela primeira vez um biquíni ou que eu consegui fazer algumas sessões."

Se calhar fazem mesmo vídeos para mostrar.

Pela primeira vez. E eu acho que ela é linda de morrer. Eu olho para ela e penso: "Meu Deus, perfeita." Nunca vejo sequer que é um problema ou que a barriga dela está isto ou aquilo, nem sequer reparo, porque ela mostra-se tão confiante e a confiança é tão importante que passa-me ao lado. E eu acho que ela faz um trabalho tão importante que se eu visse que ela estava a tomar um fármaco injetável para perder peso, honestamente ia-me fazer imensa confusão e se calhar ia sentir a pressão de: "Ok, se calhar tudo o que ela disse até agora é falso. Ela não gostava do corpo dela, ela não queria melhorar só com desporto, eu também não posso gostar do meu, também não faz sentido que eu use um biquíni." E isso é que é um problema muito grande. Portanto, eu acho que é preciso abordar as coisas com cuidado. Se lhe fosse receitado e se ela precisasse, não é por isso que eu vou deixar de a seguir. Não é isso que eu estou a dizer, mas claro que gera ali alguma distorção para nós de tudo aquilo que acreditamos.

Sim, nós vivemos através das redes e a comparação é inevitável, por muito que digamos que tentamos não o fazer, é inevitável. Agora lembrei-me também de um exemplo de uma rapariga que eu adoro seguir, que é a Holly Brooks. Ela corre imenso e é das minhas maiores inspirações em ginásio e corrida. E eu não tenho a certeza se ela tomou, mas tenho quase a certeza. E é daquelas que eu vi, é uma inspiração em termos de treino e de tudo, uma máquina de corrida, e de repente está magríssima, totalmente diferente, já nem a reconheço mesmo na cara, que eu acho que se nota logo. E fiquei com esse sentimento: "Fogo, tu és grande máquina." O corpo dela era incrível.

Inspiraste-te nela para começar ou para continuar, ou para dar uma motivação.

Hoje em dia está totalmente diferente, corre muito menos. Eu acho que está a passar por essa fase também, porque estás a tomar, não estás a comer o suficiente, não consegues treinar o suficiente.

Claro, porque a comida é um combustível para ti, tu precisas de comer para fazer desporto, para tudo o que seja.

Sim, eu já acompanhei uma pessoa que tomou e efetivamente não conseguia comer. E hoje em dia já não toma e mesmo assim não consegue fazer duas refeições por dia.

Pois, e se isso é o caminho, na minha opinião, é o caminho, mas é o caminho para as pessoas que realmente têm uma dificuldade muito grande. Eu já tive uma conhecida minha que estávamos a desabafar sobre o corpo e ela perguntou-me: "Mas por que não tomas Ozempic?" E eu pensei: "Como assim estás me a perguntar isso assim?" Não tomo porque eu sei que consigo emagrecer. Eu não tenho nenhum problema que seja genético, hormonal, o que seja. Eu já emagreci várias vezes com cuidado. É preciso eu ter cuidado com o meu corpo, é preciso eu querer fazer desporto, sei o que eu tenho que fazer. E portanto, para mim era estranho eu ir tomar uma coisa, a não ser que um médico me aconselhasse mesmo a nível hormonal ou que seja, estás aqui com algum problema, por causa disso. E então, um grande desportista, a Serena Williams, que estávamos a falar. Não sei se este facto é mesmo real, mas eu lembro-me de ver uma publicidade dela, eu acho que era mesmo a Ozempic, por acaso, e fez-me muita confusão, porque eu pensei: "Isto vai contra tudo", até aquilo que o medicamento quer propagar, que é uma pessoa que está com obesidade e que tem dificuldade em perder peso, quase crônica.

Já tentou de tudo e o peso que tem hoje em dia prejudica a sua saúde.

A Serena Williams é uma atleta, é uma pessoa que muita gente se inspirou porque ela rompeu imenso estigma em relação a tudo e mais alguma coisa no ténis. E portanto, uma pessoa deste gênero, que tem este impacto e esta força tão grande no desporto, como é que um desportista está a promover uma coisa para a obesidade, um medicamento que supostamente é vendido para pessoas com obesidade? Não me faz sentido nenhum. Fez-me confusão. Ela até podia tomar se quisesse, mas fazer uma publicidade.

Sim, ela associou-se, ela foi a cara.

A cara de uma campanha.

E ainda por cima a Ozempic estava a começar a aparecer nessa altura, eu acho.

Foi há pouco tempo, foi há uns meses, mas foi quando nós começámos a falar sobre o assunto.

E quando começou a ficar também mais disponível em Portugal.

Em Portugal, exato. Sim, porque eu o ano passado, honestamente, nem ouvia ninguém a falar sobre isto, se ouvia era pouco.

Sim, eu acho que agora também ao vermos também influenciadoras portuguesas e começa a ser falado no TikTok e tudo mais, cada vez mais nós vamos estar atentas e com olho para isso, eu acho que toda a gente começa já a estar um bocadinho.

É isso. E uma coisa que eu por acaso falei contigo na altura foi: há pessoas que eu sei que têm problemas com o corpo, que me rodeiam, e eu quero esconder ao máximo este tema deles, porque tenho tanto medo que estas pessoas vejam isto como uma solução rápida. Então, às vezes até quero evitar o tema.

Sabes, eu estava a pensar que se isto fosse há um ano atrás, um ano e meio, eu era a menina a tomar.

Eu tenho a certeza que sim. Não tenho dúvidas. Sabes que me deixa mesmo feliz que tenhas conseguido e fico mesmo orgulhosa do teu percurso no desporto e com a alimentação, que ainda é um processo, e ainda bem que é um processo.

E o desporto também é um processo.

Claro.

No treino também estou a dar na cabeça, não estou a fazer nada.

Mas ainda bem que tu descobriste, porque sem dúvida que eras a primeira. Primeiro era-te acessível e portanto conseguias facilmente obter, seja por receita, seja pelo que fosse. E portanto, ainda bem que Que não aconteceu aí.

Sim, porque tenho pessoas à minha volta que também tomaram, ou seja, que também pediram ser influencer, ver os resultados.

Porque claro que tu, ao veres os resultados de uma pessoa que acaba de perder peso de uma forma fácil, e tu és uma pessoa que lidamos com isto há tanto tempo, ou que está na nossa cabeça constantemente, óbvio que tu pensas: "Ok, se calhar isto é uma solução." Mas será que é uma solução? Será que faz sentido para ti? Será que não consegues arranjar isto na tua rotina? Será que não tens que trabalhar o psicológico primeiro?

Mas às vezes tu precisas de bater com a cabeça na parede. E eu já fiz várias dietas e quando voltava a fazer, eu sabia que estava a fazer errado. Eu não achei que estava a fazer bem à minha saúde. Sabia onde é que me estava a meter, mas sabia que ia ter os resultados. Mas depois também estás naquele loop de: "Eu sei que vou fazer mal, mas eu também não sei fazer melhor."

Exato.

Sabes perfeitamente o que é que tens de fazer, é começar a fazer desporto, mas parece uma solução tão longínqua, tão difícil, que tem aqui esta solução fácil. Por que eu não faço isto? Depois é preciso bateres com a cabeça na parede 30 vezes, até perceberes que não é por aí o caminho.

Sim, acho que é preciso teres força. Isto é tão acessível a algumas pessoas e depois esse também é um dos grandes problemas, que é o não ser comparticipado e, portanto, eu não sei o preço dos tratamentos, mas eu sei que é aproximadamente 3.000 € um tratamento destes.

Eu estive a ver e acho que é 800 € por mês.

E tu vais fazendo aquilo pelo menos durante um ano, eu acho. E portanto, agora tu pensa a quantidade tão pequena de pessoas que têm acesso a isto, ou seja, a quantidade de pessoas que se calar poderiam precisar efetivamente de um medicamento para a obesidade, para o que quer que seja, e não conseguem aceder. E portanto, se calhar, ainda estamos a monopolizar mais isto, que é só as pessoas com mais posses monetárias é que vão conseguir ficar magras e depois ainda entramos neste loop maior. Isto está neste momento com tantos problemas a nível ético.

E a questão dos diabéticos não terem acesso a isso porque não há suficiente.

Sim, eu acho que o Mounjaro apareceu por causa disso, ou seja, para substituir um bocado o uso do Ozempic, que era um medicamento exclusivo para diabéticos, e acho que foi um bocado por causa disso. Não sei se está melhor a questão da acessibilidade ao medicamento. Sei que também está cada vez mais difícil nas farmácias, elas têm que controlar muito a ficha, se já estão a fazer o tratamento há muito tempo, etc. Porque estava a começar a ser ridícula a quantidade de pessoas que estavam a entrar no tratamento assim.

Sim, mas eu vi que a partir do próximo ano vão haver mais 16 medicamentos com este composto. E que a OMS já aprovou para a obesidade, porque estava só para diabéticos.

Pois, sim. Acho que faz sentido. Nós não estamos a dizer que somos contra isto ou contra aquilo. Nós não somos contra nada. Nós somos a favor de, primeiro, transparência e que pelo menos, se tu tens uma plataforma onde falas sobre estes temas, que sejas transparente com o teu público. Não tens que dizer o que é que tomas, qual é o medicamento, o que seja, mas pelo menos que haja uma transparência de que estás a fazer um tratamento, seja ele qual for. Tal como não vais fazer uma lipo e do nada apareces magra e dizes: "Foi o ginásio." Vamos fazer como? Eu vou para o ginásio, eu vou ficar frustrada, porque não consegui.

Os mesmos resultados que aquela conseguiu.

Não consegui, não consigo. E então vou ficar frustrada. Portanto, quando tens uma plataforma, é preciso ter muito cuidado com esse tipo de coisas.

Principalmente porque é uma questão que nós, as duas, também sofremos na pele e sabemos o impacto que tem a comparação e qualquer coisinha que digam, mas eu também faço igual e porque não tenho os mesmos resultados.

Exato.

Quando eu estava numa fase piorzinha em termos da minha relação com o meu corpo, eu consumia muito conteúdo no TikTok de quantas calorias é que a pessoa come por dia.

Quando eu fiz essa dieta que...

De certeza que o teu algoritmo também estava bué treino para isso.

Era só pessoas no ginásio e pessoas a contar calorias e a dizer: "O que eu fiz para perder 10 quilos." Depois o algoritmo também nos molda cada vez mais a cabeça e nós entramos mesmo nesse loop de: "Ok, estamos nesta jornada, então todo o conteúdo é sobre isto." E isto também molda imenso o nosso cérebro. Quando eu estava no ténis, só me apareciam conteúdos no TikTok de ténis, era tipo um loop. E portanto, imagina tu entrares neste loop, mas ao contrário, de ok, a pessoa que emagreceu com isto, com aquilo, fez esta dieta, fez aquela, perdeu 10 quilos, perdeu 20 quilos. Claro que o teu cérebro vai processar essa informação de: "Ok, eu também preciso." Esta é a minha solução.

E eu acho que o que é mais assustador é, nós somos pessoas com já cabecinhas formadas e conseguimos tomar decisões conscientes. Crianças no TikTok a ver essas coisas e a acompanhar estas influencers, que pensam: "Eu também quero isto, quando eu tiver dinheiro ou pedir aos pais ou o que for", vão olhar para aquilo como uma solução rápida, seja Ozempic, seja outras dietas.

Sim, nós já estamos numa geração em que já passamos por muito, já testamos muita coisa, já sabemos mais ou menos o que é certo ou não. E por muito que tenha essa tentação e que pense nisso, penso depois também: "Ok, calma, mas tu sabes que este é o caminho, pelo menos para ti, este é o caminho, porque tu sabes o que é que tens que fazer, tu sabes o que é que estás a fazer mal para ti, para a tua saúde, para o teu corpo." Mas estas pessoas que estão a crescer e que são moldadas. É isso, exatamente. Portanto, acho que é muito importante este trabalho de consciencializar, pelo menos para estes temas. E olhem, a Margarida Santos já fez um podcast também com outro médico sobre isto. Muito interessante, em que explicou um bocadinho sobre isto. É curtinho, não fala imenso, mas acho que é importante também percebermos que a longo prazo não há evidências neste momento. É um fármaco muito recente e a nível psicológico, nós não vamos resolver um problema de compulsão alimentar com um fármaco injetável que nos vai fazer perder o apetite.

Sim, e não dá para tomares isto para sempre.

Exato.

Vai chegar um momento em que é preciso resolver o que está errado.

Exato.

Os hábitos, os comportamentos.

Exatamente.

Mas é assim, nós também estamos aqui a dar a nossa opinião, enquanto pessoas que também já passaram por isto, mas não temos informações, não sabemos para onde é que as coisas vão. Mas eu queria trazer este tema porque acho que é muito importante termos consciência e aprendermos a olhar para as redes sociais e saber analisar

Saber filtrar o que faz sentido para nós, para a nossa vida, o que não faz. No meu caso, por exemplo, se eu neste momento quero e preciso de perder 10 quilos? Sim. Mas será que esta é a solução para mim? Eu acho que não. Primeiro, não sei a nível de análise se me ia fazer bem ou não. Segundo, sei o que estou a fazer mal, o que estou a fazer bem e quero encaixar o desporto de uma forma mais natural. Não quero uma solução rápida, quero uma solução a longo prazo. Então vou analisar. Gostava de perder peso, mas será que é este o caminho para mim? Não. Se for para outra pessoa, vai procurar ajuda médica e pode ser que seja ou não.

E objetivos para 2026, para onde é que vai partir a mudança?

Acho que sem dúvida é esse. Quero voltar este ano ao ténis, porque eu estou farta de deixar os objetivos-

Isso é o que tu disseste o ano passado. Dia um não muda nada.

Exato, mas é verdade. E eu estou farta de deixar os objetivos para o ano e já mandei mensagem ao meu treinador de ténis para voltar agora, quero começar em dezembro, porque primeiro de janeiro é um mês, para mim, ainda caótico, em que estou a organizar o resto das coisas. Portanto, eu nem nunca faço objetivos em janeiro.

Tu gostas de fazer mais para a frente.

Não é que goste, é só porque não tenho tempo ainda para fazer em janeiro e então deixo um bocado andar. Mas é isso, eu quero começar os objetivos agora, porque não vai mudar nada.

Então é ténis?

Quero introduzir o desporto e a alimentação. A alimentação não, mas começar a aprender a comer melhor e a experimentar mais coisas, que é uma coisa que eu tenho feito este ano para ver se consigo introduzir outras coisas diferentes. Deixar de encomendar comida para casa constantemente, porque me esqueço de descongelar, ser mais organizada. E o desporto é tentar encaixar, mas de uma forma natural. Ou seja, ter um dia para o ténis, começar a voltar a gostar de jogar todas as semanas.

Havia ali uma altura que também estavas a experimentar fazer umas caminhadas de manhã.

É isso, mas o que é que eu fiz? Foi: "Esta semana eu vou caminhar todos os dias." Como é que tu vais caminhar todos os dias? Depois falhas um dia.

Já não acontece, depois continua.

E se tu pensas: "Pus tanta intenção nisto, que agora falhei um dia, já não vale a pena, vou ter que começar de novo." Como assim vais começar de novo? Não, continua, vai fazer mais uma caminhada. Gostava muito, principalmente para também apanhar mais ar livre. Às vezes estou fechada em casa dias e dias. Ainda no outro dia estava a falar sobre: será que eu estou deprimida ou preciso só de sair de casa? E muitas vezes é isso que me acontece, que é preciso só apanhar um bocado de ar, de ver pessoas, de apanhar sol.

Por isso é que eu acho que as caminhadas ajudam imenso, porque começas logo o dia. Primeiro a ter tempo para ti, apanhar um bocado de ar.

E o que é que custa? Se for preciso, vais ouvir um podcast, vais responder e-mails ou o que seja, se quiseres logo começar o dia, como eu às vezes.

Isto principalmente para pessoas que têm vidas mais sedentárias. Eu acho que me mexo muito durante o meu dia. Se eu tivesse um trabalho de estar sempre ao computador, é super importante tu obrigares-te de manhã a começar o dia assim, à hora de almoço também mexeste um bocadinho, levantaste também ao meio da manhã, dá uma voltinha.

Sem dúvida. E não pores uma intenção de 1h30.

É para perder peso, é para ter resultado de ontem. Saúde.

É para saúde, para não te sentires deprimida de estar o dia todo fechada em casa, para apanhar mais sol, cabeça, tudo. É isso.

Sim, para mim o desporto só resultou quando deixou de ser para a parte estética.

Eu juro, tu és das maiores inspirações nesse sentido, porque eu acompanhei todo o processo desde literalmente menos 10. Ou seja, não foi do zero, foi do menos 10. E portanto, vi tantos erros que tu fizeste com dietas, mesmo com desporto. E acompanhar todo o processo é mesmo inspirador. Tu vês que uma pessoa não é que finalmente conseguiu, porque também não é um conseguir, não é um final, é um processo, mas um processo que está a apaixonar e tu gostas e portanto acho que és uma inspiração para muita gente nesse sentido por causa disso.

Obrigada.

Pelo menos para mim.

Mas sim, para o ano, eu estava a dizer em termos de meus objetivos, que eu já falei também aqui no episódio com a Inês, quer dizer, ainda não saiu este episódio da Inês, vai sair a seguir. Porque eu sinto que quando comecei a fazer desporto também foi numa ótica muito extremista, ou seja, eu cheguei a treinar, eu dizia duas vezes por dia, estava louca.

Houve um dia que estávamos a trabalhar no sítio e tu chegas lá e dizes assim: "Não consigo andar. Estive no ginásio hoje de manhã, mas a seguir tenho que ir correr." E eu: "Mariana, desculpe. Por que tu foste ao ginásio, estás a dizer que não consegues andar, chegas a coxear e vais correr. Está louca?" Mas esse equilíbrio é super importante também.

Sim, e também experimentei muita coisa. Por exemplo, este ano também fiz o HIROX, também estive a experimentar outras coisas e fez-me perceber que eu acho que agora estou cada vez mais perto de saber aquilo que eu gosto, que é a corrida. E o próximo ano eu acho que vai ser mais focado nisso. Atingir mais objetivos na corrida, fazer mais meias, dedicar-me mais a isso e trazer outra vez o desporto, o ginásio de volta, na ótica de reforço para a corrida.

Reforço, exato. Os meus objetivos é isso. A nível de desporto e alimentação é voltar ao ténis e tentar ter uma relação mais saudável com o meu corpo, com a pressão do desporto e da alimentação, que façam parte da rotina sem um extremo, que é o mais difícil. É o equilíbrio da vida, é o que nós estamos todos à procura, eu acho.

E estamos aqui para ser accountability partner.

Exato. Embora.

Pronto, está feito, amiga. Obrigada. Espero que seja um bom ano.

Olha, faz parte.

Faz parte e faz parte do processo. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?