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Este é o Caça ao Voto, o podcast da Rádio Observador dedicado à campanha eleitoral e a caminho do fim desta jornada. Há acusações de política suja, há geringonças, mas há também ternura. A campanha está ao rubro e, como sempre neste Caça ao Voto, começamos a fazer contas a quem ganhou e perdeu votos. Também vamos à estrada ver como pairam os ânimos nas caravanas do PS e do Chega. E ainda sacamos uma história do baú com a ajuda de Judite de França. Hoje, uma história sobre um hashtag. Eu sou o Ricardo Conceição e este Caça ao Voto começa agora. Este episódio até podia começar com trocas de acusações de política suja entre Bloco de Esquerda e Iniciativa Liberal ou a AD a queixar-se de uma geringonça com a oposição de esquerda no Parlamento unida, neste caso por omissão, ao Chega, o que dá uma geringonça. Mas não, vamos abrir com ternura. Vamos abrir com uma manifestação de ternura do agora ex-eurodeputado e atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.

Tenho o maior orgulho, tenho mesmo alegria, tenho comoção em poder dizer que o cabeça de lista do PSD e da Aliança Democrática é o Sebastião Bugalho. Nós termos um jovem com esta qualidade, com esta preparação, com esta capacidade de falar às pessoas, com a forma terna e meiga com que na rua está com toda a gente, desde a criança mais pequena que não vai votar, até à senhora de idade que está preocupada com o seu dia a dia e com os seus rendimentos.

A ternura, a meiguice de Paulo Rangel esta quarta-feira em Vila Verde, nesta hora de passar a testemunha ao futuro cabeça de lista da AD, Paulo Rangel, que esteve 15 anos no Parlamento Europeu. Eles também são ternos, mas raramente lhes apetece ser ternos. Judite de França, Rui Pedro Antunes, está na hora da nossa avaliação diária sobre quem anda a ganhar e perder votos e temendo que não sejam ternos, eu vou apelar a vossa meiguice, a vossa ternura. Começar por explicar, Judite de França, quem é que anda a ganhar votos, quem é que ganhou votos hoje?

Ora, não me dá para a ternura, de facto, mas quem ganhou votos foi o governo e, por conseguinte, os partidos que apoiam o governo no Parlamento. Há uma frase muito boa e que é atribuída a Napoleão, espero que seja do próprio, senão peço-lhe desculpa, que diz: "Quando o teu inimigo estiver a cometer um erro, não o atrapalhes". E de facto, os partidos da oposição estão a dar alguns tiros no pé e o governo, que nem sequer precisava de apresentar agora a proposta à votação, decidiu fazê-lo para encostar os partidos, neste caso PS, Chega, e por arrasto os outros partidos de esquerda, às cordas. E eles caíram, o que é absolutamente inacreditável. Eu acho que tanto o Chega como o Partido Socialista acreditam que as pessoas não sabem fazer contas básicas, de somar e subtrair. Acredito mesmo nisso.

Estás a falar do IRS.

Exato. Tu acabas sempre com a punchline de qualquer pessoa, é absolutamente incrível.

Peço desculpa. Estão a ver como ela não é meiga comigo.

Não sou de todo.

Ainda lá chego.

Mas as pessoas sabem fazer contas. Há uma parte da população que ainda sabe fazer contas, que teve uma boa instrução primária antes de ela ser destruída. E, portanto, as pessoas percebem que a proposta do Partido Socialista dá um quico a quem ganha menos e tira bem mais do que um quico, um quico vezes 10, a quem ganha pouco mais. As pessoas percebem isso. Eu acho piada porque os políticos quando saem dos governos ganham repentinamente uma espécie de honestidade. Sobe-lhes uma honestidade e como estava amordaçada há muito tempo, sai-lhes pela boca fora. E João Galamba está nesse processo. E portanto, nesse processo hoje, pôs as cartas na mesa e disse de facto que isto é absolutamente ridículo, é uma guerra, não sei como é que ele disse, mas não é alecrim e manjerona, isso é meu, mas é uma coisa qualquer desse gênero, porque isto não vale nenhum, vale zero. Mas as pessoas preferem a ideologia e a política, de facto, à vida das pessoas.

Vamos ver se o Rui Pedro Antunes está mais terno e meigo do que tu, Judite. Rui Pedro?

Olha, estava aí nas minhas notas e podes ver, Ricardo, que já ontem coincidi com a Judite e creio que é o terceiro Caça ao Voto seguido que eu digo que a AD está a ganhar votos. Portanto, não me acusem de bugalista, nem nada que se pareça a montenegrista.

Acho que não corres esse risco, Rui Pedro.

Há a coincidência de facto. Eu queria só pôr um bocadinho neste plano político, que há uma leitura de que o PS e o Chega estão os dois a governar a partir do Parlamento em conjunto. Claro que eles supostamente não estão concertados, mas a imagem que está a passar é que André Ventura, ao lado de Pedro Nuno Santos, estão a aprovar medidas contra o governo. Vamos ver como é que isto acaba.

Como acaba, não sei. Como está agora no meio do processo, hoje é quarta-feira, quinta e sexta de campanha, sábado dia de reflexão, domingo Ainda podemos usar a parangona: "Oposição trava redução de impostos para a classe média." Ainda se pode usar. No domingo.

Não vai ficar ruim.

No domingo pode. E no sábado também, porque isso não é campanha das europeias, é política nacional.

É política. Depois falamos sobre o dia de reflexão.

Sim, mas passou a imagem, que não é boa para André Ventura, de que ao lado do PS está a, ainda para mais, o PS não aprova nenhuma proposta que seja do Chega. Portanto, quem está a viabilizar a proposta do PS é o Chega.

Através da abstenção.

Através da abstenção, porque depois há os outros partidos e a bancada do PS é igual à do PSD. Embora depois o PSD tenha o CDS. Mas mesmo assim é suficiente. E o Chega é fundamental para passar. E a imagem que passa é Ventura ao lado de Pedro Nuno Santos. E isto é bom para as pessoas de direita que estavam fartas do tal período do PS, o espaço não socialista, e naturalmente que aqui o Chega perde votos para a AD, e para mim a este ou ganham votos. O resto do argumentário é muito idêntico ao da Judite e eu vou poupar tempo para poder dizer quem perdeu.

Avançamos para quem perdeu, Rui Pedro Antunes, não percas a embalagem.

Para quem perdeu, acho que o espetáculo que João Cotrim Figueiredo e Francisco Louçã estão a protagonizar não dignifica nada.

Política suja.

Sim, eventualmente podem conseguir animar os seus tifosi, mas não estou a ver quem é que dali consegue tirar dividendos e vão continuar a responder um ao outro por aquilo que vamos percebendo, e aí parece-me que perdem os dois.

Dá sempre assim uma vontadezinha de responder ao Louçã, confesso.

Quem perdeu votos e até poderá ter ganho, eu só queria registrar alguém que levou uma bolachada, no sentido literal, que é Francisco Paupério, porque a fábrica de bolachas Paupério veio emitir um comunicado contra o candidato do LIVRE. Ora, eu achei que não havia agentes externos, uma vez que os hackers russos não estão entretidos com as europeias em Portugal.

Vamos lá ver. Para as pessoas que não sabem, estás a falar das bolachas mais antigas do país?

Estou a falar das bolachas.

De uma empresa que tem mais de 100 trabalhadores e que está em Valongo. Só para as pessoas saberem.

Está em Valongo e Francisco Paupério, por acaso vi esse excerto do programa do Guilherme Geirinhas, o Bom Partido, em que ele dizia que não sabia bem a história, se era dívidas ao jogo que a família tinha entregue a parte que tinha da fábrica, depois havia outra teoria que as coisas não tinham corrido bem e tinha falido. E a fábrica vem justificar que não é nada disso, que ele nem sequer tinha descendentes diretos o sócio inicial da fábrica, que depois disso houve, de facto, alguns herdeiros não diretos que não quiseram a fábrica e que a venderam. Aí pode estar alguém que é da família de Francisco Paupério, mas foram demasiado duros, de uma forma que eu até acho um bocadinho despropositada.

E ninguém gosta de bolachas muito duras, não é?

Eles têm bastantes, mas são boas.

A certa altura, eles são tão duros que chegam a dizer o seguinte: a fábrica Paupério atacando Francisco Paupério, Paupério versus Paupério, Cracker contra Cracker.

Cracker contra Cracker.

Assim como o nome Maria é comum, nem todas as Marias pertencem à mesma linhagem familiar.

É verdade.

Nem às mesmas bolachas. Estamos a discutir bolachas.

Bolachas muito importantes, muito importantes. Produto side empresarial das PMEs lá em cima.

Isto é delicioso, mas temos que saber... Este remate foi maravilhoso. Judite, temos que saber quem é que perdeu.

Portanto, por seu turno, perdeu o PS e o Chega. Rui Afonso, do Chega, diz que o Chega fez uma avaliação técnica e entre beneficiar um milhão e meio de contribuintes e 300 mil com os rendimentos mais altos, nós sabemos o que são os mais altos, optamos pela proposta que defende os rendimentos mais baixos, que é a do PS. Temos de pensar nos portugueses. Enfim, o que a gente pode dizer sobre isto? Pode dizer nada, que é tentando nos enganar, mas também esta ideia de que o povo é muito estúpido é uma coisa que me aflige, porque eu sou do povo. Eu não sou estúpida.

Eu só queria assinalar que este Caça ao Voto tem análise política, tem bolachas e tem teatro radiofónico também. Estiveste muito bem, Judite de Freitas. Judite de Freitas e Rui Pedro Antunes regressam amanhã para este Caça ao Voto. Agora é chegado aquele momento de ir à rua, de ir à estrada, ao encontro dos nossos jornalistas que acompanham as caravanas eleitorais. E a nossa primeira paragem é junto da caravana do Chega. Onde é que andas, Inês André Figueiredo?

Boa tarde.

Há bombos.

Sim, senhor. Já tinham acabado, agora voltaram para a despedida do presidente do Chega, que acaba de sair aqui do final da Rua de Santa Catarina, no Porto. É onde eu estou. De manhã, o Chega esteve numa arruada em Santa Maria da Feira, mas agora durante a tarde fez a tradicional descida da Rua Santa Catarina.

E com que então geringonças, Inês, uma geringonça de esquerda com o Chega para deixar passar medidas do IRS por um lado e para chumbar propostas do governo por outra? Anda por aí uma geringonça além dos bombos?

É verdade, parece que sim. Os temas nacionais não deixam mesmo a campanha para as europeias. Ontem houve essencialmente imigração, hoje foi o IRS com André Ventura recusar logo de manhã a ideia de que estava a alinhar mais uma vez ao lado do PS e da esquerda, tendo em conta que permitiu que a proposta do Partido Socialista para a redução do IRS fosse aprovada através de uma abstenção. As justificações de André Ventura não têm nada de novo. Tal como fez no caso das portagens, quis transmitir a ideia de que está ao lado dos portugueses e que o que importa é que a partir de agora vão pagar menos de IRS. Pelo caminho, acabou por atirar ao primeiro-ministro Luís Montenegro, ao dizer que tanto o PSD como o Chega prometeram um choque fiscal durante toda a campanha eleitoral e que a proposta do governo não se refletiu nisso. Pelo contrário, André Ventura, tanto de manhã como aqui no Porto, falava de um café fiscal e de uma mini fiscal, que era aquilo que alegadamente a proposta do governo, nas palavras obviamente de André Ventura, daria para os portugueses. Ora, André Ventura explicou também que abstendo-se nas duas propostas, e foi isso que aconteceu, o Chega absteve-se tanto na proposta do governo como na proposta do PS. O que ele disse foi que deixava em aberto Todas as possibilidades, ou seja, apesar de considerar que a proposta do governo era insuficiente, diz que era melhor essa passar do que não passar nenhuma. Já agora, disse também aqui no curto discurso final, no fim da Rua de Santa Catarina, que há uma suposta direita que queria aprovar impostos mais baixos só para quem ganha mais. Já agora, também quanto às sugestões do PSD, de que o Chega está mais uma vez ao lado do PS, André Ventura resolveu apostar num soundbite para dizer que gostava de ver menos choradeira, menos folclore e mais trabalho. Já nesta arruada aqui no Porto, disse também que o Chega é o único que está a cumprir aquilo que o PSD prometeu. Agora a caravana do Chega termina por aqui a sua passagem pelo Porto, segue amanhã para a Póvoa de Varzim.

Vamos deixar a Inês André Figueiredo na Rua de Santa Catarina, no Porto, e vamos dar um salto até Braga. Sebastião Bugalho anda pelo Minho e Rita Tavares. Então, Rita, a esquerda e o Chega não deixam a AD governar? O que se passa?

Bom, aqui pela candidatura da AD às europeias, essa queixa passou de forma algo paralela. De manhã, o cabeça de lista valeu-se da sua condição de independente para passar um bocadinho ao largo daquilo que se tinha passado de manhã na Assembleia da República e apontando essa questão mais ao partido, dizendo que a sua candidatura é às europeias e que não quer imiscuir-se em temas nacionais. Mas à hora de almoço, Paulo Rangel, vice-presidente do PSD e também ministro dos Negócios Estrangeiros, acabou por tocar no assunto aqui de forma bem sonora, num almoço da candidatura em Vila Verde, e falou de um ataque que acusa o PS e o Chega de estarem a fazer à classe média. É um eleitorado que o PSD está a trabalhar muito nestas europeias, que viu nas legislativas que lhe fugiu em parte e que não conseguiu convencer todo esse centro político e, portanto, está agora aqui a aproveitar a questão do IRS. E foi Paulo Rangel que o fez de forma muito clara, fazendo esse apelo direto à classe média para que não vote novamente em PS e Chega, porque eles entendem-se para não deixarem o IRS ser reduzido para a classe média na medida em que o governo pretendia. É esta a acusação que a AD vai fazendo por aqui.

Mas Sebastião Bugalho, que diz que não comenta, acaba por ir comentando. É isso, Rita?

Não comentou. Acaba por comentar de forma muito paralela, como eu estava a dizer há pouco, com uma referência que tem feito ao longo desses dias, com ou sem IRS. A verdade é que essa crítica ao PS já estava a ser feita, porque é outro argumento muito usado pela AD desde o início da campanha oficial, que é uma tentativa de radicalização do Partido Socialista e responder à colagem que o PS faz do PSD à extrema-direita, responder a isso com uma colagem do PS ao Chega, que o PSD e a AD vai dizendo que pode verificar-se todos os dias no Parlamento. Portanto, este episódio do IRS acaba por ser um argumento que pode ser usado nesta campanha também nessa frente de tentativa de radicalizar o Partido Socialista e dizer que afinal é o Partido Socialista que governa com o Chega, quando já fez no passado outras geringonças, também elas extremas. Portanto, explorar toda esta ideia de um PS mais colado aos extremos.

Rita Tavares, jornalista do Observador que acompanha a caravana da AD. Amanhã regressamos à estrada. Agora ainda paramos no nosso baú de recordações. E hoje vamos contar a história de um hashtag.

Hoje vamos ao baú recuperar um movimento criado no Twitter com a hashtag "por acaso foi ideia minha". Foi Passos Coelho que em julho de 2015 afirmou que Portugal não só não bloqueou um acordo com os gregos, como teve um dos papéis principais para esse desbloqueio. Em conferência de imprensa, o então primeiro-ministro quis deixar claro que teve um papel ativo na construção do compromisso. Aos jornalistas, explicou que foi sua a ideia de utilização do fundo de privatizações para recapitalização da banca, uma medida que se revelou crucial para alcançar o acordo com a Grécia. Há uma frase de Passos Coelho que é a seguinte e que eu vou citar: "Devo dizer até que, curiosamente, a solução que acabou por desbloquear o último problema partiu de uma ideia que eu próprio sugeri."

Eu próprio, Passos Coelho.

Eu próprio, Passos Coelho.

Que ele disse na altura.

Eu não sugeri esta, sugeri outras.

Sugerias outras na altura. Estaria em causa a utilização de 25 mil milhões de euros, era uma pipa de massa, dos 50 mil milhões que estavam disponíveis precisamente para acudir a uma recapitalização da banca.

E acima desse valor, se pudesse então fazer uma utilização quer para abater à dívida pública, quer para se poder financiar o crescimento em partes iguais. E foi esta a ideia do então primeiro-ministro. Uma ideia que, frisou o próprio, acabou por ser utilizada pela Troika, com o Aléxis Tsípras, que se lembram, era o senhor grego. E diz Passos Coelho nessa conferência de imprensa: "E foi justamente uma ideia que eu sugeri e que verifico que acabou por ser utilizada pelos negociadores com o primeiro-ministro grego." Bom, na altura, as redes sociais divertiram-se muito com esta falta de modéstia do antigo primeiro-ministro e no Twitter surgiu um movimento com a hashtag #PorAcasoFoiIdeiaMinha, que serviu para tudo. Desde #PorAcasoFoiIdeiaMinha, o equipamento do FCP, ou férias, #PorAcasoFoiIdeiaMinha, ou ainda Messi no Benfica em troca do Olajon, #PorAcasoFoiIdeiaMinha. Ora bem, Passos Coelho cria tendências no Twitter desde 2015.

É mais uma história retirada do baú neste caça ao voto em que tivemos bolachas, ternura, meiguice, jogo sujo e ainda tivemos teatro radiofónico. Isto foi tudo hoje, imaginem como isto vai ser amanhã.