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Car7,60.
Em 1983, as lojas de penhores começaram a fechar portas. Na década de 50, havia mais de 300, só em Lisboa. Trinta anos depois, persistiam apenas 70 abertas. Destas, só uma dezena se dedicava exclusivamente aos penhores. As outras faziam compra e venda de artigos e não emprestavam dinheiro.
O que não deixa de ser estranho, porque em 1983 o país estava em crise.
Tínhamos cá o Fundo Monetário Internacional, estivemos perto da bancarrota.
Logo, as lojas de penhores deveriam fazer sentido num cenário destes.
Era uma altura evidente para os prestamistas, os que emprestam dinheiro sob um bem penhorado, de facto.
Sim, a verdade é que clientes não faltavam. Faltava, sim, era dinheiro para emprestar.
Curioso. E é precisamente sobre esta falta de dinheiro que residia o problema da sobrevivência da casa de penhores.
Na época, segundo o Diário de Notícias, quem recorresse à casa de penhores ficava sujeito a uma taxa de 2% ao mês. Diziam os prestamistas que a taxa era manifestamente baixa, sobretudo quando comparada com a que era praticada pelos bancos, muito superior.
Portanto, sim, as pessoas preferem uma taxa de juro de 2% e, portanto, preferem as lojas de penhores, mas os interessados são tantos que os donos das lojas têm cada vez menos dinheiro para emprestar.
A inflação só veio agravar esse problema. As casas não têm capital para acompanhar o aumento dos preços, logo a atividade de prestamista foi se tornando cada vez menos atrativa. À medida que os proprietários das casas também morriam, não havia quem quisesse manter esse negócio.
O Diário de Notícias falou com alguns interessados e acompanhou um empréstimo in loco. O dono do artigo, era uma aliança, pedia dois contos pela aliança. Ao balcão, fazia-se a análise da peça. O proprietário da loja fez a observação do anel, de lupa, pesava e após a avaliação, ofereceu exatamente aquele valor. Não houve negociação. Portanto, o valor foi exatamente igual. Em 120 dias, o artigo teria de ser levantado contra o pagamento do empréstimo e os juros. E com isto levava o anel de volta. Se não aparecesse, o objeto ia a leilão. E um dado muito curioso: apenas 10% a 12% dos bens não eram levantados. Eu confesso que fiquei espantada. Achei que mais peças eram deixadas para trás.
Mas havia muita ligação sentimental a muitos destes objetos e as pessoas faziam mesmo questão de voltar. Segundo o jornal, as pessoas que pediam empréstimo eram de todos os estratos sociais e acrescentava até que se analisassem os arquivos das lojas de penhores, seriam encontrados nomes conhecidos.
Oh, pois!
Empenhavam, sobretudo, objetos em ouro: isqueiros, alianças, pulseiras, anéis, cordões, fáceis de empenhar porque oferecem maior garantia de que o cliente consegue essa quantia necessária, que procurava.
E a Casa de Penhores, onde o jornal fez a reportagem, fazia cerca de 200 empréstimos por mês, no valor de mil contos, e dá uma ideia da procura. A valores de hoje, são cerca de € 30 mil. Ainda assim, e percebe-se pela reportagem, o negócio compensava pouco e, portanto, as lojas do prego, faltava usar esta expressão, foram desaparecendo.
Pôr no prego.
Pôs a aliança no prego.
Aquele senhor pôs a aliança no prego.
Sabem que eu só despertei um pouquinho para a ideia destas casas de penhores em 83. Ainda tinha dois anos, não me lembro.
Não ligavas muito.
Não ligava muito, não tinha muitos problemas financeiros em 83. Hoje em dia, é o que se vê. Mas descobri esta realidade muito por causa daqueles reality shows das pawn shops americanas, que agora proliferam nos canais de cabo. E se estiver a dar, normalmente fico ali colado a ver. Quer pelo interesse histórico, às vezes, de alguns objetos que lá vão, quer pela fauna da própria loja, os seus proprietários.
Mas ali as pessoas vendem o artigo, não o vão buscar de volta. É curioso.
Acho que há os dois casos. Já vi episódios desse tipo de formatos em que há os dois casos.
Mas nesta altura era um recurso muito frequente para as pessoas, sobretudo, eles dizem aqui que eram pessoas de todos os estratos sociais, mas muito claro para as pessoas que não tinham outra forma de conseguir rendimentos imediatos numa altura de grave crise económica. Portanto, era mesmo uma solução para muitas pessoas, esta da casa de penhores.
De alguma forma, este negócio ressurgiu nos últimos anos com as lojas de ouro.
Sim, as lojas de ouro.
É a mesma coisa.
E houve uma altura, aliás, parecia uma cadeia, apareciam em todo lado.
Sim, como cogumelos.
Também foram fechando, curiosamente.
É verdade, também não dá para todos. Bem, vamos à habitual viagem pela pop de hoje. Hoje por 1983. Encontramos, por exemplo, como single mais vendido em Portugal nesse ano, o "Let's Dance", do David Bowie. Nada mal. No entanto, eu fiquei muito intrigado com o número dois, que foi este aqui. Eu lembro-me disto, não de 83, quase certeza, mas depois dos anos seguintes.
Fez de Carlos Guilherme uma estrela pop.
Claramente, "Quando o Coração Chora", de Romeu e Julieta, que não são mais senão Carlos Guilherme e Júlia Gonçalves. O tema é uma versão de "Save Your Love", popularizada no ano anterior pelo duo britânico Renee and Renato. Chegou a número um, em Inglaterra, em dezembro de 82.
Destaque ainda, em 83, para o nascimento de um dos mais famosos passos de dança da história da cultura pop.
Bruno Viera Amaral ia começar a ensaiá-lo, quase, se não estivesse sentado.
Eu se fazia o moonwalk.
Eu era mais o breakdance. O moonwalk nunca consegui fazer.
E foi ao som desta música que Michael Jackson mostrou pela primeira vez ao vivo o moonwalk, também conhecido como backslide, e que seria uma das imagens de marca do Rei da Pop durante toda a sua carreira. Tudo aconteceu num especial de televisão que assinou os 25 anos da editora Motown e que foi para o ar a 16 de maio de 1983. Continuas a fazer o moonwalk, não é?
Vou ouvir mais a música.
Isto é o "Billie Jean".
A 18 de setembro de 1983, os membros do Kiss surgiram em público pela primeira vez sem as suas famosas e extravagantes maquiagens. Isto foi o mesmo que o Pedro Abrunhosa aparecer agora sem óculos escuros.
É verdade.
A revelação foi feita durante uma entrevista na MTV, em simultâneo com a edição do disco "Lick It Up", que tem precisamente como capa uma foto da banda de cara lavadinha. E parece ter corrido tão bem que depois disso os Kiss voltaram às habituais maquiagens.
Ainda em 1983, o mundo aprendeu a cantar em alemão, cortesia dos Nena e da sua, eu não vou dizer isto em alemão, mas vai 99, vai em alemão.
Pede ao Rui Rio.
Ele sabe alemão.
Mas sei dizer "luftballons".
É isso. "99 Luftballons".
Exato. A canção chegou a ter uma versão em inglês que não entrou no top de singles norte-americano, ao contrário do original.
O que é curioso, não é?
"Neunundneunund".
É para "Neunundneunund", tão fácil, caramba.
Ora consta que a inspiração para o tema veio do guitarrista da banda, Carlo Karges, que viu os Rolling Stones. Deve ser assim. Posso?
Pode.
Então, onde é que este senhor foi buscar inspiração? A um concerto dos Rolling Stones, ao vivo, em Berlim Ocidental, no ano anterior. Os Stones tinham como efeito cênico uma largada de balões, que juntos pareciam ter o formato de um avião. E Carlo imaginou-os a voar para o lado oriental da cidade, criando o pânico no lado soviético do Muro de Berlim.
Esta é bem engraçada.
É, sim, senhor.
Claro que ele já tinha bebido uns copos a esta hora.
Mesmo assim.
Não foi só copos.
Mesmo assim. Eu gostei do pormenor de "viu os Rolling Stones ao vivo em Berlim Ocidental", havia de ser onde.
Claro. Eu também achei curioso as pessoas do lado oriental que devem conseguir ouvir a música e ver luzes e os balões.
Estão aqueles gajos a divertir-se.
Exatamente, esta sensação de género.
Nós aqui a ouvir o Ivan Drago.
Vamos fechar a nossa viagem por 1983 com os Skewer, o grupo britânico liderado por Robert Smith, que editou nesse ano o single "The Love Cats". É uma das minhas favoritas na discografia da banda. De resto, foi lançada assim como single, mas tornou-se o primeiro sucesso comercial dos Skewer quando chegou a número sete do top inglês. Este tema viria depois a ser incluído numa compilação de nome "Japanese Whispers" e que foi lançada em dezembro de 1983. A Cassete 60 volta a viajar no tempo segunda-feira.