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Começa agora mais uma comissão de inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado o humorista, locutor, escritor, cartunista Hugo van der Ding. E ia continuar por aí fora. Bom dia, bem-vindo de novo.
Olá, bom dia. Como é que vocês estão?
Estamos ótimos. E tu? Da última vez que cá estiveste foi no aniversário da Rádio Observador, há dois anos, fizeste 25 pontos. Já não me lembrava.
Portanto, há uma má notícia: melhor é impossível.
Melhor é impossível.
Pois é. Não, podem depois dar mais um ponto pro cômico jurídico.
De louvor. Mais um voto de louvor. Vamos a isto?
Vamos.
Vamos lá. No teu novo livro, "Uma família surreal", desmantelas a nossa realeza. Vamos por aí então. A rainha Carlota Joaquina era uma força da natureza, se é que se pode dizer. Apanhou piolhos e teve de rapar a cabeça. Como é que ela resolveu o problema em público?
Supõe-se que com uma peruca conturbante.
Conturbante.
Ias continuar a dizer.
Isto é muito conturbante. Eu não estava lá na altura, estava na Argentina.
Exatamente, na altura estavas na Argentina.
Sou team Argentina.
Hugo, nós estamos bem assim ou preferias piolhos a tanques?
Piolhos a tanques?
Estamos bem com a nossa democracia ou preferias uma monarquia?
Não, eu sou republicano.
Os piolhos a tanques.
Sim, acho ótima esta ideia de se poder, mais do que eleger o Presidente da República, expulsá-lo de cinco em cinco anos, que é uma coisa que com os reis geralmente não se pode fazer. Não é que não tenhamos feito ao longo da história, geralmente com uma carga de mortos.
Fazemos é mais desarrumado o trabalho.
E para os envolvidos e para a família mais próxima. Mas eu acho que é inegável que as monarquias são mais divertidas, as atuais, onde já não têm poder, pelo menos na Europa. E dão muito mais cor à vida. Ninguém fica particularmente excitado se os filhos do nosso presidente Seguro casarem. Sim, tá bem.
Felicidades.
Há uma cascata de camarão, mas não há coches. Há coches de lagosta puxados por lavagantes, mas não coches puxados por cavalos. Por outro lado, tendo vivido bastantes anos na Holanda, que é uma monarquia, sobretudo nas monarquias do norte da Europa, as pessoas vivem muito pacificamente com isso, e não é menos democrático. Democrático é viver-se num regime ou num sistema que se aceita, e são figuras altamente populares nos seus sítios. Política eu não percebo nada.
Aliás, alguns dos países mais desenvolvidos do mundo são monarquias. Os países nórdicos, a Holanda, como disseste.
Sim, alguns dos países mais ricos do mundo. A Arábia Saudita também é um belíssimo exemplo. É engraçado, só há no mundo duas monarquias eletivas absolutas. Na Arábia Saudita é eletiva, dentro daquela família eles elegem. E a outra é o Vaticano, que é considerada uma monarquia absoluta e é eletiva também. Muito giro. Não tem a soberana.
Não tem a família real.
Pelo menos que se saiba.
Não há casamentos reais.
Quanto a conhecimento.
Isto como está o mundo.
Nunca se sabe onde isto vai parar. Mas aproveitando este baile que nos estás a dar em relação às monarquias e aos recordes, qual é a mais velha monarquia da Europa?
Esta já é para cinco pontos.
Da Europa será a Dinamarca.
Mais de 1000 anos.
Estão a ver? É verdade. Penso que no mundo só o Japão é mais antigo.
Que baile.
Se estivermos a falar da mesma família estar no trono há mesmo tempo.
De onde é que te surge este fascínio pelas monarquias, pelas famílias reais? Porque o tens, de facto.
Isto tem a ver com o meu fascínio pela história, porque está muito história. E até ao século XIX, a política era unipessoal, praticamente. Aquela figura decidia a política externa, a política interna, os preços de combustível.
Os impostos.
Havia combustíveis, a lenha é um combustível.
Sim, o carvão e por aí fora.
Tal e qual. E é fundamental conhecer estas figuras. Até uma maneira de medir o tempo é medir através dos reinados. No Japão ainda o fazem assim. E é impossível perceber a história de um país sem perceber estas pessoas. E quando fiz o livro, por ter construído uma narrativa que tivesse um fio condutor e escolher o fio condutor de ser a mesma família do princípio ao fim, permitiu-me ter uma janela sobre a parte psicológica destas figuras e os pequenos dramas, o facto de terem ou perdido a mãe, ou perdido o pai, ou darem-se mal com os irmãos, ou desamores, fez-me conhecer um bocadinho mais, ou imaginar, como é que seriam estas pessoas em termos quase psicanalíticos. E isso é uma maneira muito fascinante de olhar para a nossa história, perceber como estivemos dependentes destas 34 pessoas para chegar ao estado em que estamos.
As fontes de informação foram difíceis de conseguir?
Andaste por todo o mundo, certamente.
Eu escrevi o livro o verão passado, mas na verdade, comecei a escrever o livro em miúdo.
Claro, foste acumulando informação e conhecimento.
Tal e qual. Nós vivemos numa altura em que, pelo menos nos últimos 10 anos, tem saído muita coisa. Há muita gente, que é o reflexo da própria abertura do mundo universitário a muitas pessoas muito diferentes, que também se vão interessando em estudos sobre mulheres, por exemplo Figuras que geralmente estavam excluídas do estudo normal da história. Portanto, temos muita coisa e há cada vez mais interesse em ler a correspondência da Marquesa de não sei o quê. Eu sou péssimo a dar exemplos.
Assim está bom.
Vou-me preparar ao Google.
Da marquesa de não sei o quê, mais velho. If you know what I mean. Isso é ótimo, porque deu para aprender todos os dias.
E há muito público para isso. Isto é, a viagem à história, quer seja biografias, romances históricos e por aí fora, tem muitos leitores.
Há cada vez mais. As nossas rainhas, dando exemplo das mulheres, estavam muito pouco estudadas. Aliás, a maior parte dos portugueses não sabe sequer como é que se chama a mulher de D. Afonso Henriques, o que é engraçado. Pessoas como, por exemplo, a Isabel Stilwell, que tem feito um trabalho incrível nas biografias das nossas rainhas. Agora, as fontes. Na Idade Média praticamente não temos. Nós não temos a letra daquelas pessoas, não sabemos como é que elas eram. Os retratos eram todos mais em 2D. Portanto, não fazemos ideia de como eram, até mesmo psicologicamente. As crônicas eram, muitas vezes, ou encomendadas ou as pessoas tinham medo de apanhar. À medida que me fui aproximando do presente, e a nossa monarquia acaba já no século XX, como sabemos, porque com a Idade Média é tudo tão distante, deu-me para brincar um bocadinho mais na primeira parte do livro, porque eu gosto de misturar sempre um bocadinho de humor. À medida que fui aproximando do presente, há pessoas vivas que conheceram a rainha D. Amélia, que morre nos anos 50. Nós ouvimos a voz dela, vamos ao YouTube e ouvimos aquele "c'est à que français" da senhorinha. Temos as cartas, temos fotografias já dessas pessoas. São pessoas. Claro que D. Afonso Henriques também era uma pessoa, mas nós vemos a cara do D. Luís, do D. Carlos, etc. Isso é muito humano. Fiz-me: "Vou brincar um bocadinho menos, porque são mesmo pessoas." E convivi, sobretudo, com aqueles últimos reis, D. Luís e D. Carlos, gente interessadíssima na fotografia, nos oceanos. Pessoas como nós. Nunca abriram uma porta, nunca fizeram uma cama.
Coisas muito parecidas.
"There but for the grace of God go I." E temos muita fonte. Temos os diários destas pessoas, temos diários de quem conviveu bem com eles, de quem os serviu, de quem era amigo.
Só não temos o TikTok deles.
Mas quase.
O equivalente.
Há um equivalente. Podemos dizer que sim.
Muito bem, Hugo van der Ding, vamos à terceira pergunta. Aqui na caminhada rumo aos 25, novamente. O Homem dos Sete Instrumentos é uma canção de que músico português?
Eu pensei que ias falar de reis e rainhas.
É do Júlio Pereira. Mas quem é que escreveu a letra? Será que ele deve ser um rei, agora, para vocês me estarem a perguntar?
Não.
Não.
Quer dizer, é um rei.
É um rei. É um rei da música. Mas não tem nada a ver. E abre portas. Queres ajuda?
Como é que se chamava o Júlio Pereira? O Homem dos Sete Instrumentos.
Talvez tenha tido um álbum.
Sim.
Chamava-se.
Mas há uma canção que é "O Homem dos Sete Instrumentos".
É o Chavaquinho, Júlio Pereira.
Vamos lá então mais uma, Hugo van der Ding. Será Vitorino- Será que trocaram as perguntas para amanhã? Estas são as perguntas de amanhã. Peço imensa desculpa.
Às vezes fazemos, quando já temos preparado.
Vou contar. Fui à minha médica e quando ia a sair, ela diz-me assim: "Ouça lá!" A minha médica conhece os meus pais, conhece-me há anos.
Médica de família, portanto.
Ela diz assim: "Você tem problema com álcool, bebe imenso?" Eu olho para trás e disse: "Não, quer dizer, saio eventualmente." E ela depois passa: "Não, isto é o homem que vem a seguir." Que é a coisa mais antiética dos médicos.
Tu cruzaste com a pessoa a seguir.
Bem, e de facto.
Tinha um final diferente. Sentiste um perfume.
O homem não estava bem, mas foi mais ou menos isso que nos aconteceu agora. Não sei quem é o Homem dos Sete Instrumentos.
Então vamos lá. Vitorino, Jorge Palma ou Sérgio Godinho?
É só uma.
O Bruno canta um bocadinho agora, para veres como é a canção.
Não.
Desde a segunda vez que vim à Holanda. Bem, vou dizer o Sérgio Godinho.
Muito bem. Já não vais aos 25, mas ainda podes chegar aos 22. Tu és um homem dos sete instrumentos também, de instrumentos diferentes. Mas preferes que digam que és um homem do Renascimento, tem outro estatuto.
Tem, e já vou caminho pequeno para isso. Vou fazer 50 anos em dezembro. Gosto de me interessar por muitas coisas.
Mas o que é que te realiza mais?
O que gosto mais de fazer?
De todas as atividades a que te dedicas.
Gosto muito de escrever, para estar quieto no meu canto a escrever, como também podes confirmar, testemunhar. E gosto muito de fazer rádio também. Não adoro fazer televisão, as experiências que tive. É uma chatice.
É, repete e corta.
Perde-se muito tempo com o acessório que não tem interesse para nada. Fica aí parado que a gente vai mudar esta câmera para aquele lado. A rádio é incrível, a gente chega.
Acaba o microfone.
Ainda bêbados.
Só assim é que se aguenta, só assim é que se consegue.
Tenho superioridade mesmo. Força.
Tens de nos dar o contacto desse médico.
Não, e é incrível, mesmo quando começa a ser automático, quando fazemos rádio e já não estamos a pensar nisso, nós temos de pintar tudo o que estamos a dizer. Nós temos que falar de uma maneira onde isto é tudo visual e as pessoas ficam convencidas que estão a ver as histórias que nós contamos, as coisas que estamos a dizer. Talvez sejam as duas coisas que eu mais gosto de fazer. E teatro também. E de cozinhar.
Já são cinco.
Álcool é que não.
Odeio álcool, porque corta-me um bocado.
E desenhar, não?
Não, eu não sei.
Tu fazes aqueles bonecos giros.
Ah, desenhar.
Pensei cozinhar.
Não, desenhar. Peço desculpa.
Também não sei desenhar.
Eu percebo o que queres dizer, embora desenhes bem.
Médio. Mas eu divertia-me muito. Era uma coisa que eu fazia para limpar a cabeça. Mas desde há uns meses, não tenho nada mais para dizer nos desenhos. Mas acontece também, comecei a fazer em 2012, são 14 anos. Agora sem entrar numa onda triste, mas não tenho nada divertido para dizer.
A sério? Achas que o mundo te está a tirar o humor?
Sim. Eu estava a falar disto, fui fazer uma conversa no Porto, não me lembro onde foi, e eu estava a falar disso, dos desenhos. Não tenho nada para dizer, apetece-me contar histórias, porque acho que precisamos todos de ouvir histórias para pensarmos um bocadinho no mundo. E lembro-me de uma senhora que estava comigo que disse: "Mas é nestas alturas que precisamos mais dos desenhos." Ao que eu respondi: "Então, faz um desenho vosso." Força desenho.
Vamos a isto. Vamos a mais uma pergunta, 12 pontos. Já são teus, faltam 10.
Não, é a quarta.
Faltam duas perguntas.
Faltam dois pontos.
Faltam duas.
O teu nome artístico, Vanderdink, soa a aristocracia, mas a verdade é que a palavra dink, em holandês, tem um significado banalíssimo, o que quer dizer?
Significa coisa, o equivalente inglês.
Portanto, Vanderdink significa literalmente do coiso ou da coisa?
Da coisa, sim. Agora tenho que fazer um protesto. Eu adoro ouvir o vosso programa, sobretudo quando são políticos ou especialistas em qualquer coisa e depois erram e passam uma vergonha, é a minha parte favorita. Mas há umas perguntas mais fáceis e mais difíceis. Perguntar o meu próprio nome.
Esta era das caras. A coisa está mais complicada para os humoristas. Falávamos ainda agora sobre o humor. Tivemos o caso dos Anjos, agora há esta polémica com a atriz Mafalda Matos.
É verdade. Sim, nós estamos todos muito sérios, acho eu, e perdemos um bocadinho a noção do papel importante do humor para nos pôr a refletir e para mostrar o mundo. Uma coisa engraçada que a Joana Marques faz, além de fazer bem as coisas que faz. A Joana Marques não faz nada, particularmente. A Joana Marques tem aquele papel que tinham os bobos da corte. Ela só aponta: "Olhem para isto." Agora, as pessoas que escolhe fazer ou não, isso é cada um que escolhe aquilo que acha pertinente fazer. Mas é muito interessante esse movimento do humor de estou a apontar para isto, agora vejam, e vamos rir um bocadinho disto. E quando rimos, baixamos umas guardas que nos fazem olhar à volta e refletir. E o humor tem, sobretudo, esta função. E a outra função do humor, até mesmo nas nossas vidas ou do riso, é juntar-nos. Há qualquer coisa que apesar de todas as nossas diferenças-
Mas atualmente está mais a afastar aí, achas? Está a acontecer. Está a ser muito scrutinado.
Claro, e como tudo, como é muito polarizado, o que faz rir uns é exatamente o que choca os outros e vice-versa. Temos que rir mais uns dos outros.
E rir de nós próprios também.
E rir de nós próprios, claro, é fundamental. Não se leve muito a sério, isto é tudo muito passageiro.
Há dois anos, quando cá estiveste, há dois anos e pouco-
Dissemos o contrário.
Não, tinhas um limite.
Estamos confrontá-lo com as próprias declarações.
O teu limite no humor era não brincar com os funcionários públicos. Ainda é assim?
Pois, foi o que aprendi com os meus desenhos. Pode-se brincar com tudo, menos com a função pública.
É isso. Ainda é assim?
Acho que reações, e-mails e por aí fora.
Comentários muito agressivos.
Comentários nas redes sociais de funcionários públicos.
Sim, funcionários públicos.
Que para todos os efeitos é uma classe grande.
Gigante.
Da tua médica de família à tua médica do centro.
Exato.
Claro que há imensa gente na função pública que trabalha imenso, mas isto é aquela graça que nós todos fazemos em relação, sobretudo, às pessoas que trabalham no atendimento ao público. O famoso: "Isso é com a minha colega, mas tem que tirar outra senha." Não há ninguém em Portugal que não tenha ouvido já esta frase várias vezes. E quando se brinca com isso, as pessoas ficam muito sensibilizadas. Sensíveis. Eu já vi pessoas fazer malha nas finanças. Agora já há muito tempo que não, mas nos anos 90. Vocês nunca viram? Nunca viram fazer malha?
Pintar as unhas, vir.
Pintar as unhas?
Estar a pintar as unhas numa-
Numa repartição?
Não, das finanças.
Estarem a falar de coisas assim.
Provavelmente também acontece no privado.
A minha querida amiga Isabel Moreira já o fez no Parlamento. Com a justificação que ela ia para a televisão.
E não se livra disso. Continua a ser perseguida.
O que lá está também é que aquele momento pode não querer dizer nada, pode ser a pessoa mais competente e mais trabalhadora.
E é verdade, publicamente é provavelmente das deputadas com mais trabalho apresentado e a justificação é que ela ia à televisão falar, ia a correr para o Parlamento e para não ir desarranjada, que eu acho que uma pessoa também não deve ir desarranjada para o Parlamento. Apesar de estar desarranjado aqui na rádio, que vai parecer uma aberração. Sim, riam-se mais de tudo.
Muito bem, vamos a isso. Vamos à última?
Vamos.
Última pergunta, então.
17 pontos. Depois de uma dada, depois desta que foi dada, a coisa, a coisinha.
Estamos a querer chegar aos 22. E a pergunta é: quem escreveu o famoso best-seller "A Criada", que no início deste ano foi adaptado ao cinema? Estás a ver o livro famoso.
Sei. Foi um grande sucesso.
É o primeiro muitos, não é?
Não faço ideia.
Queres três alternativas?
Ernest Hemingway, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada ou Cesário Verde.
É por aí. Queres aqui três opções? Alfred Hitchcock, Edward Gore.
Vá.
Paula Hawkins ou Freida McFadden.
Eu acho que é capaz de ser essa última que eu lembro de ver na capa.
É sim senhor, a Freida McFadden.
Eu não acompanho, não leio nada que tenha saído desde 1800 e qualquer ano.
Agora está a sair só clássicos.
Só leio clássicos.
Deves estar a adivinhar qual é o tema agora. E a tua criada malcriada, reformou-se?
Reformou-se.
Acabou mesmo. Meteu os papéis para a reforma
Sim, é tão bom passar à próxima coisa. Eu que fazia os desenhos, como a maior parte das coisas que vou fazendo, ficam feitas, estão arrumadas e tem de se limpar a cabeça, tirar do cérebro o que se está a fazer para abrir horizontes, para ver outra coisa. Eu fiz durante seis anos o "Vamos Todos Morrer" na rádio e precisava de parar, se fosse por um tempo ou para sempre, porque eu já não conseguia ver senão aquilo. Andar na rua, ver quem é esta pessoa, o nome desta rua, ou quem é esta lápide, ou quem é que inventou as gomas. E eu pensei: "Eu tenho que tirar isto da cabeça, senão nunca mais vou conseguir fazer nada." Eu vinha para cá a pensar, se calhar nem vou saber o nome de D. Afonso Henriques, como é que se chamava, porque estou a preparar sobre a Primeira República, aqueles anos tão extraordinários. São apenas 16 anos, mas que aconteceu tudo.
Claro.
E eu já estou noutra onda. Estou a pensar nos presidentes.
És obsessivo nessas coisas?
Gosto de mergulhar.
Quando mergulhas e metes um projeto na cabeça.
Sim. E a criada foi igual, precisava tirá-la da cabeça.
Mas criaste depois uma série de outros no traço.
A pedra.
A psicanalista.
A pedra. Que não faz qualquer coisa, que põe os-
Os pacientes mal
Os doentes muito mal. Até às duplas que tu crias e que são fantásticas. O traço é o mesmo, os teus maus desenhos, como se diz. Mas continuas de vez em quando a isolar, que eu estive a ver no teu Instagram e continuas a publicar regularmente alguns.
Sim, aquilo é engraçado, porque o processo é quase, elas falam-me, elas dizem-me coisas.
Já disseste isso ao teu médico.
Ao meu médico de família, se calhar, não está muito errado.
Se calhar tinha razão.
Mas elas dizem-me coisas e eu rio-me e vou fazer os desenhos. Não me têm dito nada, é um bocadinho aquilo que eu falava há pouco, não me têm dito nada. Tenho a cabeça muito ocupada.
É isso, também não te sentas à espera que elas te digam alguma coisa, não é?
Não, é isso também, um bocadinho. Aquela ideia do: "A inspiração tem de nos encontrar sentados a trabalhar." Eu não sei de quem é essa frase. É da Ana Maria Magalhães.
Uma escreveu uma parte, a outra escreveu a outra frase.
Eu agora tenho aqui uma dúvida. Então, como é que se chamava a primeira mulher do...
Tem um nome muito beto, não achas?
Tem, a Rainha Dona Mafalda.
De Afonso Henriques.
Do Afonso Henriques.
Mafalda. E não tens nenhuma história boa sobre a rainha?
Tenho. Nós sabemos pouco, isto já foi muito antiga, mas eles publicaram. Há um tipo inglês que numas crónicas contemporâneas fala da mulher do Rei de Portugal, não diz qual, que teria sido morta pelo próprio marido, por uma questão de traição. Os historiadores portugueses tendem a achar que isto ou foi uma campanha contra o D. Afonso Henriques.
Ou uma campanha do jornalismo.
Do jornalismo, sim, era fake news. Continuem a votar nos mesmos, diziam eles. Mas sendo assim, conseguiu bater na mãe e na mulher. Mas eu não acredito muito nessas histórias. Deus queira que não.
A forma como contas a história, as histórias da história. Sentes que os miúdos começam a gostar mais da história de Portugal? Tens tido reações nesse sentido. Parece que há aulas mesmo na escola em que o teu trabalho é citado. Isso acontece?
Sim, e falo às vezes em escolas. Eu ouço muito, e isso comove-me até de certa maneira, ouço muito é adultos dizerem: "Se eu tivesse tido este livro." Porque acho que a história, quando eu ouço alguém dizer: "Não gosto de história", é porque não percebeste, é só porque não te contaram como é.
Ou é a forma como foi contada, não é? Faz diferença.
Claro, porque a história é todos os acontecimentos humanos da nossa espécie e da nossa aventura na Terra. O que é que há para não gostar? A maneira como as coisas são apresentadas. Dá para contar uma história qualquer de uma maneira aborrecida ou de uma maneira interessante. Nós na nossa vida dizemos: "Entrei no elevador e fiquei lá preso." Ninguém quer saber. Mas tem que dizer: "Estava lá mais 50", mesmo que seja mentira.
Cinquenta no elevador? Era um grande elevador.
Ou não.
Ou não.
Hugo, há pouco falaste aí da Primeira República, qual é o projeto? Podes revelar um bocadinho mais?
Sim, é uma espécie de continuação deste livro, vai se chamar "Os Anos Surreais". É engraçado, o próprio Estado Novo, uma das coisas que fez à Primeira República, que era quase a oposição, era aquela ideia de vamos pôr ordem no caos, conseguiu transformar aqueles 16 anos incríveis só num caos. Houve, de facto, um caos político gigantesco, 45 primeiros-ministros, oito presidentes, mas tudo o resto estava a acontecer ali. Em termos artísticos, nós temos o Orpheu, todas as figuras que nós lembramos, o Amado, o Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, enfim, todas essas figuras ali, mas também os pioneiros do cinema, muitas feministas a fazer coisas incríveis, as primeiras médicas, as primeiras advogadas, tudo naquela altura. A Primeira Guerra, naturalmente, muitas revoluções, o movimento operário a aparecer, até podemos dizer os subúrbios das cidades a nascer naquela altura em grande medida, os aviadores.
A rádio.
A rádio também, claro. Portanto, aconteceu tanta coisa em só 16 anos, que é fascinante. Espiões, enfim, tanta coisa fascinante, que é um bocadinho resgatar e sim, contar que foi um caos político, com coisas muito palpitantes, a Noite Sangrenta, que agora se tem falado mais, saíram livros e há um podcast ótimo sobre isso. Foi um caos, mas também aconteceram coisas incríveis e nós herdámos muito o mundo da Primeira República. Curiosamente, nós quase que o 25 de Abril vai buscar coisas que tinham sido interrompidas até o voto, enfim, tantas das coisas do movimento operário, direitos dos trabalhadores, direitos dos animais, sei lá, essas pequenesses.
Já foste de férias?
Mais ou menos. Eu costumo tirar férias em fevereiro, porque tenho sempre coisas a acontecer no verão. Agora vou a correr para os ensaios do Macbeth, do Pedro Pininho, que vai estrear em setembro no Teatro Nacional, que vai ser a peça que vai reinaugurar o Teatro Nacional depois das obras. É verdade. E o Pininho fez este ato quase provocador, porque é precisamente com o Macbeth, que é uma peça que tem uma maldição associada e que no final dos anos 60, o Teatro Nacional ardeu todo, quando estava em cena o Macbeth. Vamos lá ver.
Esperamos reencontrar-te aqui numa próxima vez no Impacto.
Vamos ver.
E sem problemas de dedo do fígado.
Eu ganho outra vez?
Não, não ganhaste. Ganhaste o isso. Tens 19.
Dezassete. Eu errei qual? Errei todas.
Não, não erraste. Tiveste duas com hipótese. Quando temos alternativas, passas dos cinco para os dois pontos. Percebes? Como potencial. És muito competitivo.
Dezenove. Foi ótimo. Obrigada, Hugo van der Ling.
Muito obrigado. Até breve.