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"Comissão de Inquérito", edição de quinta-feira, 30 de julho. É hoje nosso convidado, o escritor João Tordo. João, muito obrigado por ter vindo à Rádio Observador. Muito bom dia.

Olá, bom dia.

Sabe ao que vem esta comissão de inquérito às vezes é difícil, outras vezes é fácil. Vai responder a cinco perguntas. Cada resposta certa vale cinco pontos. Temos ajudas, se tiver dúvidas, nesse caso, a resposta certa só vale dois. Sou eu que começo, não é?

Vamos, avança, Nelson, com toda confiança.

Vou seguir o nosso guião. O João venceu o Prêmio José Saramago em 2009, com o livro "As Três Vidas". Quem é que venceu em 2015?

Foi o Bruno Vieira Amaral.

A pergunta não foi feita pelo Bruno, foi pelo Nelson.

Não foi, foi o Nelson, o autor.

Fui eu. Fui eu que fiz a pergunta, mas foi o Bruno que venceu em 2015. O João é team Saramago ou team Lobo Antunes? Há essa rivalidade um pouco explorada pela imprensa.

Sou team Saramago.

É team Saramago. Assumido. Faz sentido essa rivalidade? E há algum duelo Messi e Ronaldo na atual literatura portuguesa ou não?

O Ronaldo e Messi estão os dois vivos, o Saramago e Lobo Antunes já morreram, por isso não há rivalidade. Eu sou team Saramago no sentido em que, por alguma razão, sempre gostei mais dos livros do Saramago do que do Lobo Antunes. Lobo Antunes li bastante durante uma certa altura da vida, mas o Saramago quando apareceu, para mim, havia ali um rasgo de inovação, de um território qualquer muito mais interessante para mim.

Mas havia mesmo rivalidade ou foi a imprensa que inventou isso?

Não sei, eu não assisti.

Inocente nesta matéria.

Sou completamente inocente.

Tens alguma informação, Bruno, sobre se é verdadeira a rivalidade?

Havia alguma rivalidade. Havia mais rivalidades, até, não só entre os dois. Claro que também um pouco potenciada pela imprensa, por declarações dos próprios, em particular do Lobo Antunes.

Há pouco tempo, quando estava também a preparar o programa, encontrei uma entrevista de Lobo Antunes no Expresso em que ele dizia: "Quero que o Nobel se lixe."

São essas declarações em entrevista quando querem muito uma coisa e a coisa não lhes é dada, a pessoa pensa: "Que se lixe."

É verdade.

Mas o estilo de Saramago é mais disruptivo, é isso? Foi mais novo, estranho, apetecível, deu mais luta quando apareceu. Não exatamente o "Morial de Convento", foi ali o grande abalo.

"Morial de Convento" é dos que eu menos gosto.

Então, quais são os preferidos, João?

Gosto do "Ano da Morte de Ricardo Reis", acho que é o meu livro favorito, mas eu gosto muito da maneira como o Saramago lançava as ideias e depois explorava o território dessas ideias. E o Lobo Antunes é muito mais, talvez, original na forma e mais disruptivo do que o Saramago, até. Mas o Saramago, para mim, tinha mais a capacidade de fazer uma coisa que eu gosto, que é explorar aquele território e não se perder muito.

E com enredos muito bem estruturados.

Sim, ele era um ficcionista muito cuidado, acho eu, e tinha essa atenção e acho que isso, para mim, é importante enquanto leitor. Às vezes as coisas confundem a pessoa com o autor e o autor com a pessoa. Por isso eu acho que a melhor coisa para um escritor é mesmo, para mim, na altura em que o Facebook apareceu em 2008, 2009, as pessoas começaram a usar. Eu ainda usei durante uns tempos para manter em contacto, para falar, para dizer algumas coisas. Na altura em que o Instagram e o Twitter chegaram, eu já estava fora disso.

Farto.

Porque tira-nos da coisa que é a escrita e acho que isso, para um escritor, é um sinal de alerta. Se passares muito tempo nessa área, vais começar a perder qualidades na outra área.

Mas há muitos escritores que sentem quase uma necessidade de estarem presentes também aí e de alimentarem a relação com os leitores.

Não sei, eu vou ao Facebook e ao Instagram uma vez por dia pra ver o que se passa. Para ver se tenho alguma coisa para responder. Muitas vezes, 90% das coisas são em termos profissionais e, portanto, não sou um frequentador, não estou lá há muito tempo. Mas vejo, por exemplo, esta semana houve outra polêmica com a Joana Marques e com uma atriz. E parece que é um mundo de codependência em que as pessoas estão a responder a estímulos, umas respondem às outras, que depois respondem. Acho que anda está toda a gente reagindo e já ninguém sabe ao que está a reagir. Isso pra mim é um mundo insuportável, porque quando o Orwell previu aquela coisa do Big Brother, somos nós que andamos constantemente a vigiar-nos uns aos outros e a ver o que os outros disseram, pra ver se eu respondo. Isso pra mim é um mundo em que eu não quero viver. E portanto, quando chegou o Instagram e o Twitter e essas coisas todas, eu saí. Estou lá profissionalmente, mas não estou interessado.

Distrai muito de todos esses estímulos e essas alternativas, distraem muito da função primordial do escritor, que é escrever?

Sim, e conforme vais avançando na idade e começas a perceber que o tempo é limitado, que tens muitas coisas para fazer na vida que ocupam muito tempo. Hoje em dia, aos 50, eu demoro o dobro do tempo a fazer coisas que demorava aos 25. Para mim, ir tirar um novo passaporte é uma coisa que demora o dobro do tempo, tem que ir à internet ver onde é que é, depois não sei o quê. E tantas coisas eram mais rápidas. Portanto, o tempo torna-se mais limitado e eu prefiro usar o meu tempo a tornar melhor naquilo que eu faço. Houve uma altura da vida em que me dispersei muito porque ganhei o Prêmio Saramago. O Bruno se calhar conhece esta experiência de começar a receber muitos convites, de fazer muitas viagens em Portugal e fora de Portugal. E quando acabou essa fase, percebi que estava a ficar pior. Estava a ficar pior escritor, estava a ficar pior pessoa, estava a ficar pior tudo. E, portanto, pra mim foi: "Epá, volta à escrita e o resto esquece".

Vamos continuar aqui neste tema de como é que os escritores ocupam o seu tempo ou como é que devem ocupar o seu tempo. A pergunta é: que escritor galardoado com o Prêmio Nobel foi candidato presidencial no seu país em 1990?

Vargas Llosa.

Certezza.

Era fácil.

Direta.

Foi o Monique, provavelmente.

Muito provável. Eu, por acaso, não tinha a certeza se teria havido outro, mas pelo menos em 1990 não houve.

Tivemos o Teixeira, que não foi candidato presidencial por razões.

Por razões de monarquia.

De regime.

Os escritores devem participar mais na vida política. Estávamos a falar de um caso, de Saramago, que sempre teve essa intervenção cívica, pra falarmos no sentido até mais lato, mas há muitos escritores que têm essa participação. Escritores têm essa responsabilidade? Devem participar mais?

Depende muito do escritor. O Saramago tinha esse lado bastante vincado de escrever sobre temas que eram fraturantes. A religião foi um tema muito importante na escrita do Saramago, que se dizia ateu, mas eu tenho alguma desconfiança que ele não era bem ateu. Até porque ele fala muitas vezes de uma coisa qualquer que está dentro de nós e que não tem nome. Eu acho que ele era um crente, mas era crente de outra forma, que não é a forma habitual que nós temos neste lado do mundo, a chamada Igreja Católica. Não sei, acho que a participação cívica pode ser feita pelo cidadão, não precisa de ser feita pelo escritor, necessariamente.

Ou seja, não nas obras, mas no resto da sua participação.

Não nas obras. Há pessoas que têm essa vocação muito marcada e que escrevem romances que de fato são muito importantes. Estava agora lembrando do "Retorno", do Dulce Maria Cardoso, e romances que marcam muito certas fases do percurso do nosso país. Eu não sou um desses escritores, por exemplo, eu escrevo muito mais sobre questões pessoais, questões íntimas, e não estou assim tão vocacionado para temas. Portanto, a minha participação política dá-se nas urnas. Se for uma ou outra manifestação, é porque é uma causa qualquer que eu acho mesmo importante.

Isso é também um luxo que nós, nas sociedades ocidentais, nas democracias ocidentais, temos. Eu aqui há uns anos entrevistei a escritora turca Elif Shafak, ela dizia: "Em certos países, os escritores não se podem dar ao luxo de não ser políticos."

Pois, eu imagino que sim. Imagino que vivendo num país como a Rússia, uma oligarquia, ou vivendo num país como a China ou como a Coreia do Norte, quer dizer, Coreia do Norte nem sequer pode escrever, provavelmente. Mas traz necessariamente que ter essa vertente política, porque estás condenado a ser ou censurado, ou apagado da história, etc.

Basta pensar também em Portugal, durante o Estado Novo, durante a ditadura, os escritores estavam muito mais envolvidos na política por razões óbvias. Tudo o que faziam ou deixavam de fazer acabava por ter essa dimensão.

Porque a escrita é uma forma de expressão de liberdade. E essa expressão de liberdade pode ser perigosa para governos que sejam autoritários, que tentem fechar. E, portanto, eu acho que nesse aspecto, os escritores que viviam nessas condições são os escritores que tendencialmente vão falar sobre a coisa política. Mas, por exemplo, há pouco falávamos do Orwell, e o Orwell escreveu "1984", não necessariamente vindo ele de um país com regimes fascistas ou totalitários. Ele era britânico, nunca houve um regime fascista. E mesmo assim, ele escreveu sobre aquela questão da oclusão da pessoa individual, da pessoa livre, por um regime que o oprime. E portanto, essa questão eu acho que é muito premente e muito universal.

Muito bem.

10 pontos. Está correndo muito bem.

Eu vou fazer os 25.

Pertencendo aqui a uma elite muito pequena da comissão de inquérito. Agora vamos mudar de assunto. Vamos para séries televisivas pra saber, perguntar qual foi ou qual é a série televisiva de ficção mais premiada de sempre, internacionalmente. Estamos a falar dos Emmys.

Ai, ai. Não sei, "Guerra dos Tronos"?

Está certo.

Grande intuição.

Eu nunca vi "Guerra dos Tronos". Não sabia o que era, mas calculei que fosse.

59 Emmys. É, de fato, uma distinção enorme. O trabalho de argumentista é um gosto ou é uma necessidade de um escritor português?

Depende.

No teu caso.

Houve alturas em que foi um gosto e outras em que foi um desgosto e outras em que simplesmente recusei e não quis fazer. Em relação, por exemplo, à "Guerra dos Tronos", eu vi acho que quatro episódios e adormeci em todos. Não consegui aquela coisa dos dragões e das intrigas palacianas, não tenho interesse nenhum por aquilo. É um mundo que não me diz nada.

Eu acho que neste estúdio há uma raridade de haver pelo menos três pessoas que não viram "Guerra dos Tronos", que é o Paulo que também não viu.

Viram o episódio e acharam que é isso.

O Nelson também não.

Eu vi cinco temporadas. Mas já mais tarde.

Mas quantas têm ao final?

Acho que são sete, não sei.

São muitas.

Portanto, aí não. Entrar na argumentação

Tem que ser interessante, o tema tem que ser interessante.

Eu acho que tem que ser interessante trabalhar com pessoas com as quais a pessoa goste de trabalhar muito. E no meu caso, eu trabalho sozinho por uma razão: eu não gosto de trabalhar com pessoas, embora para mim seja mais fácil quando estou no meu território e estou a explorar as coisas ao meu tempo e à minha medida. E a escrita é uma coisa que precisa de tempo e muitas vezes, quando se escreve uma série de televisão, o tempo é muito escasso, é muito corrido e há uma urgência. Isso a mim deixa-me algo desconfortável e um pouquinho ansioso e, portanto, tenho feito um percurso para conquistar tempo para escrever. Depois, quando entro num projeto de série de televisão, as coisas aceleram muito.

Mas não é um processo natural, não há uma passagem natural de quem escreve ficção e romances.

Não, até porque o argumento é o eterno presente. O João entra na sala da rádio do Observador e faz alguma coisa qualquer.

E sai-se muito bem.

Sim, e estamos no eterno presente. Enquanto a escrita de ficção permite-nos muito mais liberdade. Temos o monólogo interior, que não existe.

E não há custos.

E não há custos, sim.

E não tem de se pensar se esta cena vai ser cara. Tu fizeste parte da equipa de argumentistas do "Rabo de Peixe".

Na parte um.

A sério. Da primeira temporada, como é que foi essa experiência muito diferente de outras que tinhas tido para outras produtoras?

No princípio não foi, no princípio foi uma experiência bastante caseira, até porque estávamos em pandemia, em 2020 ou 2021, já não lembro, e havia tempo, precisamente porque não havia pressa, estávamos em pandemia, ninguém sabia quando é que as coisas iam abrir. Então reuniu-se um grupo de cinco pessoas e começámos a trabalhar a história. Demorou quatro ou cinco meses e depois quando apareceu a produtora e quando apareceu a Netflix, as coisas aceleraram. Eu já não estava no projeto, porque já tinha feito a minha parte, e depois as coisas aceleraram e a série teve um sucesso inesperado.

Inesperado?

Inesperado, sim.

Achas?

Sim, desculpa. Sim, acho que foi inesperado, acho que o sucesso que teve não era esperado.

Os próprios produtores dizem que não estavam à espera.

Os produtores não sabiam. E depois o que acontece é que as coisas quando ganham tração e quando ganham sucesso tornam-se difíceis. Para mim, pelo menos. A minha experiência com o relativo sucesso que fui tendo não é uma experiência muito positiva. Ou seja, eu não gosto desse lugar, eu gosto de um lugar de tranquilidade e quando de repente te puxam para uma zona. Durante a minha carreira, que é uma palavra horrível, porque lembra logo: "Ele faz 40 anos de carreira", parece que a pessoa está morta, ou está quase a morrer. Eu não gosto nada dessas coisas do 20 anos, não sei o quê. Não quero saber quanto tempo é que eu estou, mas a minha experiência disso tem sido de: houve períodos da vida em que estive na moda, depois outros em que estive menos na moda, depois outros em que não estive nada na moda, depois outros em que estive médio. E a única coisa que se mantém é o trabalho e um bocado o índice médio de estares na moda ou não na moda.

Acaba por fazer uma média ao fim desses anos todos.

Sim, faz uma média aos 120 anos ou fim de não sei o quê, e faz sentido contar o tempo. Mas ter sucesso, as pessoas gostam muito dessa expressão, mas a minha experiência é que não é uma coisa boa, é uma coisa que faz mal ao ser humano.

João Tordo, ainda em relação às adaptações, ao trabalho para televisão. Quanto às adaptações dos teus livros, eu creio que está em curso agora.

Já foi filmado.

Já foi filmado de um dos teus livros. Envolves-te muito nesse processo? É uma coisa que te cria alguma ansiedade?

Não, neste caso envolvi-me porque o processo é com uma produtora pequena, com a Cracol, e são basicamente duas pessoas que gerem a produtora, a Joana e o Bruno. Eles trabalham numa equipa muito coesa e, portanto, pediram-me para escrever com eles o argumento para a série e eu acabei por fazer isso durante uma série de meses e foi um processo muito fixe.

A partir do "Águas Passadas".

A partir do "Águas Passadas", sim. E foi muito bom porque houve tempo, porque houve disponibilidade, porque éramos só três pessoas a trabalhar e porque também tive a liberdade de pegar no livro e tentar adaptar o melhor possível.

Agora é esperar.

Sim, esperar.

Quando é que vai estrear?

Eu acho que em 2000 e... Estamos em que?

26.

27.

Ok. Na RTP?

Na RTP. E depois há de ir para uma plataforma, acho eu, mas não sei qual.

Muito bem.

Muito bem, João, vamos à quarta questão: que escritor português escrevia à mão usando sobretudo um lápis bem afiado?

Um lápis bem afiado.

Pelo menos era muito referido isso, o seu hábito de escritor.

Precisam de ajuda?

Já falámos dele aqui. Já falámos de vários autores.

É o Lobo Antunes. Podemos dizer que eu ganhei agora dois.

Não chegámos à fase.

Somos muito benevolentes.

Não chegámos à fase.

Já vai com 20.

Com 20. E os teus hábitos e manias de escritor? Computador? Aliás, o Lobo Antunes dizia que escrever em computador era como fazer amor sem preservativo, ou qualquer coisa assim. Ele tinha uma simbologia. Isso é muito Lobo Antunes.

Eu escrevo a computador, eu detesto escrever à mão.

Mas que é de manhã, é tipo trabalho das 9:00 às 17:00?

Agora não, porque nesta fase estou em reescritas e, portanto, o trabalho é um bocado caótico, mas normalmente eu gosto de começar cedo. Escrevo quatro a cinco horas por dia quando estou a trabalhar num novo livro e depois o resto do dia tento ocupar a cabeça com outras coisas. Mas para mim o fundamental é ter aquela disponibilidade no dia seguinte, não ter o dia cheio de coisas, que é uma coisa muito comum no nosso tempo.

Com as entrevistas, com as viagens, com festivais, compromissos.

Sim, a certa altura eu percebi que para mim, isto é só o meu caso. Há escritores que eu conheço da minha geração que estão constantemente fora e constantemente em viagens e em festivais. E essa foi a minha vida durante alguns anos e depois eu percebi que para mim isso não funciona, que eu quando faço isso torno-me pior escritor, fico desorientado, fico desamparado. Portanto, para mim ter uma rotina é muito importante e sobretudo quando estou a escrever, não me distrair. Não posso, não dá.

Janelas do computador fechadas, as outras.

Não, isso não me faz diferença. Quando estou ali no Pages é muito difícil ficar distraído ou vou ao Google fazer uma pesquisa qualquer que precise, mas normalmente é isso, é o computador e não me importa muito onde é que estou. Dantes ia para os cafés, porque aquela coisa de ter pessoas à volta até me ajudava. Hoje em dia é-me indiferente se estou no quarto, se estou na sala, se estou sentado. De pé não.

Mas dá um jeitinho.

Mas o ato da escrita é como um músculo, tem que ser trabalhado todos os dias, senão ficamos moles? É preciso esse tipo de disciplina e de ritmo, mesmo que saibas que não vai sair grande coisa, mas é preciso continuar a insistir?

Eu acho que é importante para mim fazer coisas novas. E isso não acontece sempre, isso acontece uma vez de cinco em cinco anos, de seis em seis anos, vou abrindo um território novo. E fazer isso para mim é importante e perceber: "Ok, eu não fiz isto antes, estou aqui num território que não me é familiar"-

Constante

..."sinto-me ali inseguro." E isso para mim é um estímulo. Embora às vezes também faça coisas que eu já conheço. Por exemplo, os policiais. Eu já conheço aquele formato, já escrevi cinco, já sei mais ou menos como é que se entra naquele território. Às vezes fazer coisas novas é importante, procurar novos espaços. Mas a tua pergunta era, desculpa?

O que é que te falta fazer? Daqui a cinco ou seis anos, qual é a próxima viragem ou estilo que vais explorar?

Não sei. Neste momento estou a escrever uma coisa nova que eu não tentei ainda e estou a ver o que é que acontece.

E podemos saber o que é?

Não.

Pronto.

Não, desculpa, mas é que está muito no começo e eu não consigo falar do assunto ainda. Está um bocado ainda muito-

Até pode ser aquele disco da banda que vai depois para o lixo e começa-se um novo.

Isso já me aconteceu.

Normal.

Já me aconteceu, mas há muita coisa boa.

Mas a questão era se mesmo quando estás a entrar em territórios novos, achas que é importante manter o ato da escrita, mesmo o ato físico de escrever, independentemente daquilo que possa sair?

Sim, acho que há duas coisas importantes. Uma é uma pessoa manter-se em relativamente boa forma física. É muito importante, porque a escrita é uma coisa muito exigente do ponto de vista mental, mas também do ponto de vista físico.

Da postura.

Sim, a postura, estar aquelas horas todas ali concentrado. Manter uma boa atividade física é uma coisa que se tornou importante para mim a partir dos 40.

Qual é a tua?

Agora faço um bocado de PT, depois vou à natação. Hoje estou de calções porque vou a seguir vou fazer exercício. Portanto, para mim é importante.

Então ainda não aderiste ao Padel?

Tentei, mas depois fiquei muito irritado e não consegui.

Agora há o Pickleball, que é a coisa a seguir.

Tudo o que seja desportos competitivos, eu entro muito facilmente no modo de destruição, autodestruição.

Esse é bom.

Sou hipercompetitivo e, portanto, tudo o que seja competitivo, eu evito para não desgraçar.

Foi por isso que eu sei que hastes de vir à "Comissão de Inquérito".

E é por isso que vais fazer os 25 pontos, porque esta é relativamente fácil. Em 2022, Rafael Gallo, escritor brasileiro, recebeu o Prêmio Sarmak pelo livro "Dor Fantasma". Qual era a profissão do protagonista do livro?

Pianista.

Fez mesmo 25 pontos. Tu estavas lá comigo. Mas podias não te lembrar. Isto porque fizemos parte do júri que escolheu este livro.

É importante ler o mesmo livro.

Lemos o mesmo livro, sem dúvida nenhuma.

Concordaram nessa atribuição, não se pode saber. Acho que o Bruno não estava muito querendo dizer tanto.

Vamos trazer aqui o Rafael Gallo um dia e confrontá-lo contigo.

Por acaso era a minha escolha. Nós tínhamos cinco finalistas. Acho que tínhamos cinco. Foi a minha escolha e acho que foi relativamente consensual. Acho que era claramente o mais livro.

Sim, mas não é do livro que eu quero falar, é da música, que é outra das tuas paixões. A banda ainda está no ativo?

Não. Eu já não toco em banda há muito tempo.

E agora, então? Como é que a música está dentro? Está solo, agora está solo.

Tenho cantado num coro nos últimos sete anos e é uma coisa muito agradável porque me permite todas as semanas estar em contacto com partituras. E as partituras para mim ensinam-me imenso, não sei explicar. A música clássica é 85% sacra. Portanto, é toda feita a partir de cânones, a partir de temas e o desenvolvimento da música a que se vai assistindo, e a leitura de partituras ajuda-me, de certo modo, a complementar o lado narrativo. Porque ler uma partitura de Brahms ou de Mozart, ou de quem for, é muito parecido com ler um romance. São vários andamentos, há um tema que é amplificado e que é sujeito a várias harmonias e a vários contrastes harmónicos e o que passa durante aquilo tudo é uma ideia para os escritores, que os escritores talvez chamem voz.

E ouves música quando estás a escrever ou estás a dar essa ligação, pensas num tema em particular que te pode ajudar a compor a estrutura do romance?

Acho que ouço música clássica e ouço bandas sonoras de filmes, que é a versão contemporânea da música clássica. Aliás, muitas vezes estou a ouvir uma banda sonora e penso: "Olha, isto é Mozart, olha, isto é Brahms, tem uma frase igual ou tem um motivo igual." E, portanto, aquilo tudo vem dessa base da música clássica. E portanto, para mim acaba por ser muito interessante perceber que a coisa que nós buscamos, que o escritor busca, que é essa voz, os músicos chamam melodia, que é um bocado a figura misteriosa que passa por cima de tudo. Podes ir para a escola aprender ritmo e harmonia, e de facto aprendes em quatro ou cinco anos, ou seis, sais de lá a saber ritmo e harmonia, mas melodia tu não consegues aprender.

João, estamos aqui a ficar sem tempo, mas fizeste 25 pontos, que é raro aqui na nossa "Comissão de Inquérito". Muito obrigado por teres vindo. Muitos parabéns pelo curso que tens feito até agora. João Tordo, escritor, nosso convidado hoje na "Comissão de Inquérito". Obrigado, um abraço.

Obrigado a todos.

Obrigada.